Exploração sexual escraviza 1 milhão de mulheres, diz OIT

Mais de 1 milhão de mulheres trabalham como escravas sexuais para redes internacionais de tráfico de pessoas, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

PABLO UCHOA, em Londres
da BBC
Vítimas de um negócio que fatura US$ 32 bilhões por ano em todo o mundo, muitas são atraídas com promessas de casamento e melhores oportunidades de vida, e acabam nas mãos de aliciadores em cativeiros na Ásia e na Europa onde são forçadas a se prostituir.

Na ponta do esquema, estão aliciadores, na maioria das vezes, da própria comunidade em que elas vivem. No Brasil, um “olheiro” ganha cerca R$ 600 por “escrava”, segundo os cálculos dos serviços de assistência a vítimas.

Não há estimativas sobre o número de brasileiras escravizadas no exterior. Mas só em Portugal, autoridades estimam que cerca de 4.000 sejam vítimas de redes de prostituição. As rotas de tráfico do Brasil levam, principalmente, à Espanha, mas também à Holanda, Itália, Suíça, Alemanha e França.

A experiência da pernambucana Elaine* incluiu os três últimos países em menos de vinte dias: “Fui a primeira mulher a ser registrada em Pernambuco como ‘vendida'”, disse à BBC Brasil, sem demonstrar orgulho em sua entonação.

“Molto bella”

Convencida por uma mulher de sua própria comunidade, um bairro modesto nos arredores do Recife, a se ‘casar’ com um italiano que vivia na Alemanha, ela só se deu conta de que era vítima do tráfico quando foi obrigada a ter relações sexuais com o “marido” no trajeto de carro entre o aeroporto e seu cativeiro.

Elaine foi colocada dentro de um quarto trancado por fora e de janelas vedadas. Conta que foi “oferecida” a clientes alemães e turcos.

A fuga de Elaine ocorreu durante uma briga do casal que a traficou.
Com a roupa do corpo, ela conseguiu chegar a uma estação de trem. Mais magra, foi levada ao hospital e diagnosticada com hepatite.

“Foram 15 dias que pareceram quinze anos”, diz.

Indústria bilionária

O caso de Elaine é um entre diversos sob supervisão de Ricardo Lins, chefe da unidade de combate ao tráfico de pessoas na Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.

Pelos Estados do Norte e Nordeste do país passam 60% das cerca de 240 rotas conhecidas de tráfico que utilizam o Brasil como ponto de origem ou passagem.

Mas metade dos US$ 32 bilhões faturados pelo tráfico internacional de pessoas se dá nos países industrializados.

O escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) estima que o lucro das redes criminosas com o trabalho de cada ser humano transportado ilegalmente de um país para outro varie entre US$ 13 mil e US$ 30 mil por ano (entre R$ 26.780 e R$ 61.800, aproximadamente).

Em 2000, os países da ONU assinaram em Palermo, na Itália, um protocolo que em linhas gerais define o tráfico de pessoas como o “recrutamento” ou “transporte forçado” de pessoas, em que uma tem “autoridade sobre outra para fins de exploração”.

O entendimento marcou o início de uma maior cooperação internacional, já que permite que casos de tráfico para exploração sexual não sejam tratados simplesmente como de imigração ilegal.

Em muitos casos até hoje, a vítima de tráfico é punida duas vezes, porque é logo deportada como imigrante ilegal.

Organizações humanitárias, como a britânica Refugee Women, militam para que mulheres provenientes de países “fornecedores”, como o Brasil, tenham o direito de permanecer no país até que sua volta já não seja considerada mais um risco.

Em um plano de combate ao tráfico de pessoas lançado na sexta-feira, 23, o Ministério do Interior britânico reconhece que “o braço repressivo não é efetivo sem a proteção e a assistência às vítimas”.

Apenas no Reino Unido, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) calcula que 5.000 crianças ou adolescentes –principalmente do Leste Europeu– trabalhem como escravas do sexo, de acordo com um estudo da Fundação Joseph Rowntree, de York.

“Muitos criminosos preferem ser traficantes de pessoas a traficante de drogas”, diz Lins. “É muito mais fácil ser traficante de pessoas e ficar impune.”

http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u61697.shtml

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