O tal pornô feminino

“Duas convenções da pornografia leve e da pesada penetraram na cultura feminina. Uma “apenas” transforma em objeto o corpo feminino; a outra comete violência contra ele.”  Naomi Wolf

“Pornografia e agressão sexual: associações de representações violentas e não violentas de estupro e estupro propensão Todos os tipos de material pornográfico (soft core, hardcore, violento e estupro) foram correlacionados com o uso de coerção verbal e o uso de drogas e álcool para as mulheres sob coação ao ato sexual. Todos os tipos de pornografia foram correlacionados com o estupro. Aqueles que relataram exposição maior ao uso da pornografia violenta tinham seis vezes mais probabilidade de relatar ter estuprado do que aqueles no grupo de baixa exposição. Probabilidade de obrigar uma mulher a manter relações sexuais foi correlacionado com o uso da pornografia hard core, pornografia com violencia e uso da pornografia com estupro, mas não soft core. Probabilidade de estupro foi correlacionado com todos os tipos de uso da pornografia.” Boeringer, S.B. (1994). Pornography and sexual aggression: Associations of violent and nonviolent depictions with rape and rape proclivity. Deviant Behavior, 15, 289-304.

“As diretoras feministas colocam essa nova consumidora como alvo de seus filmes. Os enredos têm tramas mais complexas (algumas até com pretensões experimentais) em que os sentimentos das mulheres são levados em conta. Um exemplo, extraído do filme Five hot stories for her, da diretora Erika Lust: a mulher chega em casa e encontra o marido com outra, na cama. Em vez de terminar em ménage, como seria obrigatório num roteiro de pornô clássico, a cena toma outra direção. A mulher traída vai embora e procura sexo com outro homem. Há, nos filmes, muito sexo entre mulheres (há um mercado de lésbicas a ser atendido) e sexo entre homens, algo que excita as mulheres (a diretora Courtney Trouble se especializou em gays underground). Os homens são invariavelmente bonitos, em vez de truculentos. Se fosse possível resumir o movimento em um única imagem, seria algo como o seriado Sex and the city com sexo explícito. Com essas inovações, subverte-se a lógica da pornografia que deixava as feministas iradas. Elas acusavam os filmes feitos por homens de degradar a imagem da mulher e de incitar a violência sexual ao mostrar apenas a realização de fantasias masculinas: mulheres submissas que fingiam prazer e serviam de objeto sexual. Uma frase da americana Robin Morgan resume o ponto de vista das feministas sobre a pornografia tradicional: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”.

A invasão da indústria de entretenimento adulto [indústria de exploração sexual de pessoas pelo lucro ] pelo ponto de vista feminino começou quando pioneiras, como a americana Candida Royalle, decidiram mostrar suas ideias. No fim da década de 70, Candida, então atriz pornô que se dizia insultada pelos filmes que ela própria encenava, procurava empresas dispostas a colocar no mercado os filmes que ela planejava produzir, seguindo o que sua consciência mandava. Ela diz que sonhava com filmes que excitassem de verdade as mulheres: com uma história criativa, e não um pretexto simplista para os atores tirarem a roupa em menos de meio minuto: “Queria ver homens que parecessem ter cérebro, e não apenas um pênis ereto. E que se preocupassem em dar prazer às parceiras”. Ainda na década de 80, Candida conseguiu uma distribuidora, montou a própria produtora, a Femme Productions, e começou a fazer sucesso com filmes como Three daughters, que contava as descobertas sexuais de três irmãs.”

(…)”Na verdade, os filmes pornográficos surgiram quando as imagens em movimento foram criadas, com o propósito apenas de mostrar o que as prostitutas faziam, coisas que você nunca pediria à sua boa esposa. Mas eles continuaram assim por muitos anos. (…) Porque o objetivo é despertar as fantasias dos homens, não mostrar mulheres tendo prazer. E as fantasias dos homens e das mulheres são diferentes. A grande fantasia deles é entrar em um quarto e a mulher desejá-lo tanto que ela se ajoelha e lhe faz sexo oral. Para as mulheres, a fantasia é um homem muito romântico, que passa um bom tempo tentando seduzi-la.(…) Mas estou um pouco desapontada porque o trabalho de algumas mulheres que estão entrando no mundo dos filmes adultos não é assim tão diferente do pornô comum. Alguns desses filmes são um pouco grosseiros e muito explícitos. É difícil ver alguma diferença em relação aos pornôs comuns. E isso é muito irritante. Infelizmente, algumas pessoas acham que apenas colocar o nome de uma mulher como diretora torna o filme feminista. Candida Royalle, diretora de filmes pornos femininos

“Mas há algumas diretoras – cujos nomes eu não gostaria de citar – que estão fazendo de maneira exatamente igual ao que um homem faria. Elas copiam o que é feito na indústria principal.(…)Porque elas podem vender mais, é mais comercial. Eu não tenho problemas com mulheres que fazem isso. Acho que todo mundo é livre para fazer o tipo de filme que quiser ou que gostar. Mas não me venha mostrar cena de ejaculação no rosto de uma mulher e se chamar de “diretora feminista”. Afinal, não somos só empreendedoras que fazemos esses filmes por dinheiro. Estamos lutando por liberdade sexual. Há uma mensagem por trás dos filmes, essa é diferença entre as feministas de verdade e as outras diretoras.” Petra Joy, diretora de filmes pornos femininos

http://migre.me/3T6t4

“A exposição dos adolescentes a um ambiente de mídia sexualizada e suas noções de mulheres como objetos sexuais: A exposição a filmes de sexo explícito online foi significantemente relacionado com as crenças sobre as mulheres como objetos sexuais para ambos os sexos masculino e feminino 13-18 anos de idade, em pesquisa com adolescentes holandeses.” Peter, J. & Valkenburg, P. (2007). Adolescents’ exposure to a sexualized media environment and their notions of women as sex objects. Sex Roles, 56, 381–395.

 

“Não podemos usar as ferramentas do Senhor para desmantelar a casa do Senhor”. (Audre Lorde)

“…não acredito que o oprimido possa empregar a violência do opressor, ja q esta é construida em anos de história, na institucionalizaçao desta… creio que ela falava sobre assimilacionismo, sobre usar meios como pornografia, prostituiçao ou liberalismo para contrapor Patriarcado, reinventá-lo… ” Texto de Jan numa comunidade feminista do Orkut [e reinventá-lo, significa apenas que o patriarcado continuará existindo ]

Acho que a frase da Audre Lorde resume tudo o que penso sobre porno não-‘sexista’ ou narrativas sexuais ‘não-sexistas’ ou pornôs femininos ( me recuso a chamar isso de pornô “feminista” ).

As diretoras “feministas” criam seu material porno para o público feminino, mas ao mesmo tempo também se abre espaço para que mulheres produzam e dirijam filmes pornos mainstream exatamente como os homens fazem, querem e gostam. O tal porno ‘não-sexista’, ou “feminista”, ou feminino ou ‘narrativas sexuais não-sexistas’ corroborado por essas diretoras que reivindicam uma pornografia feminina, mas elas reconhecem que o mercado já tratou de providenciar mulheres para dirigirem filmes que não ficam nada a dever aos que já são produzidos. Não mudará nada. Pornos femininos ou ‘narrativas sexuais não-sexistas’ são apenas mais uma alternativa no mercado de exploração sexual das mulheres, queiram as diretoras reconhecer isso ou não.

Não considero a pornografia como algo além da burocratização das relações afetivo-sexuais das pessoas. Pornografia de qualquer modo, feita por quem for, é exploração e comercialização sexual de seres humanos. Mulheres fazendo pornografia para mulheres são falocratas pornocratas cafetinas de corpos femininos. Exploradoras e manipuladoras que copiam os modelos patriarcais de exploração sexual do corpo feminino e que demonstram não passar de nada além de capitalistas que resolveram lucrar com outras mulheres _ e ainda usam como desculpa o feminismo, como se o feminismo tivesse lutado para que o sexo fosse explorado como negócio _ exatamente como os homens vêm fazendo desde sempre na indústria de exploração sexual. Com a desculpa de que estão fazendo um porno diferente, estão nada mais nada menos, atendendo a um nicho do mercado, enquanto implícitamente apóiam todos os outros, pois continuarão as mulheres sendo usadas tanto em um como em outro.

Não aceito que uma mulher, ainda mais se denominando como “feminista”, venha dizer que está mudando os parâmetros pornos apenas porque coloca as mulheres fazendo sexo e dispensando alguns paradigmas comuns em pornos feitos pelos e para os homens. Tanto o porno feminino, quanto o mainstream, o soft, o bdsm são normatizações do sexo, exploração do sexo e exploração e venda de corpos humanos ( a prostituição de sempre ). As pessoas estão ali para serem ‘voyerizadas’, eu diria até vampirizadas, por todos aqueles que se envolvem na pornografia: os que patrocinam, os que dirigem, os que assistem.

Libertário, modificador, transmutador seria se questionar do porquê existir a pornografia dentro da cultura patriarcal, do porquê a sexualidade humana ter que ser aviltada e comercializada. Isso é querer mudar os paradigmas. Pegar o que já existe, aliviar na violência e na explicitação das imagens, não é libertador, aliás é o soft porn de sempre. É apenas reconhecer que o patriarcado capitalista misógino e sexista ganhou a batalha ( mas quem sabe, ainda não a guerra? ) e se adaptar ao que é inevitável ( o tal assimilacionismo ).

O pornô não deixou de ser pornô, porque algumas mulheres resolveram dirigir filmes. Pela descrição vemos que cada uma direcionou seu trabalho para um nicho de mercado dentro da indústria que vai do soft porn ao hardporn.

E o pior dessa história de porno feminino, é que existem aquelas que também fazem o porno nos moldes tradicionais e por isso, fica evidente que o pornô voltado paras as mulheres, não tem nada a acrescentar a não ser atender à demanda criada pela pornocracia falocrata capitalista. Sobre isso, o dono da Vivid, uma das maiores produtoras de vídeos pornográficos, sinalizou: “Fazemos pornos femininos porque as mulheres gostam de historinha, romance e nós damos isso a elas.”

Não há possibilidade de existir uma pornografia ‘não-sexista’, uma vez que se trata de prostituição ( sexo pago, pessoas pagam para que outras façam sexo e outras assistam ) de seres humanos e toda prostituição é exploração e sexismo. No meu entender, devemos tornar a pornografia desnecessária e deixar que as pessoas vivam sua sexualidade e afetividade entre si, na sua intimidade, sem copiar estereótipos ditados por preferências individuais dos que produzem e dirigem e dos capitalistas e baseadas em pressupostos  de massificação de comportamentos. A quem interessa essa massificação, essa manipulação da afetividade humana?

Quando deveríamos lutar pelo fim da prostituição, lutamos pela legalização?

Quando deveríamos lutar pela desnaturalização da pornografia, fazemos pornografia feminina?

Nosso modelo de pornografia, nosso modelo de prostituição?

Pagamos à uma mulher pelo seu corpo, para que faça sexo “didático”, faremos com que tenha orgasmos “verdadeiros” para diferenciar da pornografia mainstream?

Pagamos à uma mulher pelo seu corpo para que faça sexo, mas não seremos escatológicos como o porno maisntream. Não faremos aqueles closes, não pediremos que gritem de falso prazer, não faremos com que sejam xingadas e espancadas. Seremos mais clean, mais românticas!?

Pagamos a uma mulher para que faça sexo, mas lhe daremos uma “história”, um contexto, nada será gratuito, ela terá que fazer sexo, mas do jeito “verdadeiro”, e como sou eu que dirijo, é a minha visão, é do meu jeito, e não do jeito do homem: o jeito do homem, neste caso se resume a que ainda é venda e compra de sexo?  Mas comprar sexo e impor o seu jeito de fazer sexo, não é em última análise, o que o patriarcado vem fazendo conosco desde sempre?

Pagamos para que uma mulher faça sexo, exatamento como na prostituição exercida pelos homens, mas como somos nós, mulheres, as agenciadoras, as consumidoras, as empregadoras, a prostituição da nossa pornografia feminina é mais light, não-sexista, de mulher para mulher? Afinal, nós mulheres precisamos aprender o sexo. Somos o sexo, o personificamos.

Fazemos a “nossa” pornografia da prostituição legalizada do mercado de vídeos e damos nossa contribuição para o abastecimento desse mercado. Sexo é mercadoria. A mulher é mercadoria. Mas somos agora mercadoria e objeto segundo “nossos” termos, pois somos nós que produzimos a “nossa” pornografia ( I choose my choices ). Escolhemos ou assimilamos que é esse o nosso lugar e apenas o reproduzimos?

E o mercado, a indústria do sexo aprecia a nossa contribuição por atendermos um nicho desse mercado. Os homens agradecem, pois agora podem justificar tudo o que fizeram e continuarão fazendo na pornografia, porque nos engajamos nela: ‘Se as mulheres fazem, porque não nós?’ e ‘Se as mulheres gostam porque não podemos gostar do nosso jeito?’

Eu não me iludo com essa história de que essas mulheres estão “revolucionando” o mercado pornográfico por estarem filmando sexo explícito pelo “olhar feminino”. Onde está a solidariedade feminina dessas diretoras que se propõe a explorar sexualmente outras mulheres pelo lucro? Ser dirigida por uma mulher não torna a prostituição da pornografia menos prostituição. Muito pelo contrário, apenas quer dizer que pelo lucro algumas mulheres estão dizendo que se os homens exploram as mulheres de um jeito, elas agora estão dizendo como as mulheres podem continuar sendo exploradas. No final das contas nada mudou para a parcela feminina separada e sacrificada para que elas e os homens continuem lucrando com a sexualidade humana. E nós mulheres em geral, continuamos sendo tratadas como objeto e mercadoria.

Pornografia = prostituição = patriarcado = exploração = capitalismo = lucro

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