O aborto e as igrejas

As religiões patriarcalistas monoteístas basearam sua mitologia na inferioridade da mulher, na sua subordinação ao homem, instituindo que o homem foi feito para deus e a mulher para o homem. Através da mulher, o mal entrou no mundo e através dela ele se propaga.  Se o homem tem que obedecer ao deus-phalo e aos patriarcas, a mulher  tem que obedecer ao deus, aos patriarcas e aos homens. Seres tutelados que devem ser dominados e domesticados.

Para garantir a perpétua dominação patriarcal,  através de seus dogmas e leis, seus livros foram declarados sagrados, a palavra viva do deus,  e imutáveis para todo o sempre. A Torá, palavra do deus,  pai e gerador do povo escolhido é imutável; a Bíblia, palavra do deus-filho que trouxe a boa nova de é imutável e o Alcorão, a palavra viva do deus-pai, ditado ao seu último e maior profeta é imutável. E assim os mitos patriarcais monoteístas ficam resguardados de qualquer evolução ou modificação que fira os princípios de dominação e subordinação e obediência que trazem embutidos em todos os seus textos.

Mesmo em épocas liberais, onde alguns reinterpretando o que está lá escrito, redefinem (ou tentam pelo menos) alguns dogmas e verdades, o texto está ali, completo  e imodificável para lembrar que a qualquer momento, ele pode voltar a ser o que sempre foi e manejar os fiéis para uma nova (ou velha) aceitação de suas verdades.

Em todas as religiões monoteístas, há lugares, instituições e pessoas que guardam o sentido literal e antigo dos textos e todas as tradições sociais, culturais e religiosas que os acompanham. No islamismo esse lugar compete  à Arabia Saudita, fonte de todas as interpretações mais conservadoras e fundamentalistas do Alcorão; no Cristianismo esse papel se cumpre através do Vaticano e dos pastores de direita do evangelismo americano  e no judaísmo, pelos rabinos ortodoxos. É nessas fontes que aqueles que querem restaurar (ou intensificar) o sagrado direito de subordinar as mulheres vão beber, quando decidem combater os ventos, as brisas liberais que, ás vezes, “refrescam” as religiões monoteístas patriarcalistas.  É uma luta sem trégua, entre aquel@s que querem mudar o contexto misógino das religiões e outros que querem  manter a posição superior do homem, porque em última instância é disso que se trata: perpetuar as bases do patriarcalismo.

Para os homens, tanto faz uma como outra interpretação, porque sempre serão os filhos privilegiados do deus, pois nunca o deixaram de o ser em qualquer linha interpretativa que se siga. É a situação das mulheres que sempre fica na corda bamba nesses casos, pois basta uma onda conservadora e tudo volta para realinhar a mulher no seu papel.

Quando os aiatolás lutavam contra a ocidentalização dos países muçulmanos, sua pregação era não só sobre a exploração que esses sofriam por parte dos países desenvolvidos capitalistas e cristãos; mas porque a cultura ocidental traz reconhecimento de direitos para as mulheres, devido às lutas feministas, que deslocam o poder dos homens sobre elas de uma maneira que a sociedade patriarcal muçulmana considera intolerável. No Irã, país que se revoltou contra o domínio ocidental, antes da revolução, as mulheres podiam usar roupas ocidentalizadas, não eram obrigadas a usar o véu, podiam estudar e trabalhar. E hoje, o que se vê? Total subordinação e destituição de direitos.

Quando a Igreja Católica,  denominações evangélicas e outras vertentes cristãs vêm defender a criminalização do aborto, na verdade estão é tentando, com a desculpa de proteção á vida, mais uma vez punir e (re)colocar a mulher em seu lugar. É sempre nesse sentido a atuação dos conservadores religiosos…

Não é a vida que lhes interessa,  até porque se fosse verdade estariam mais preocupados e engajados na defesa das crianças já nascidas, abandonadas, prostituídas e abusadas, nas que não tem acesso á educação e saúde pública adequada, das que são exploradas e etc… Sem falar que toda a defesa anti-aborto denota um profundo e total desprezo pela vida da mulher que se vê na situação de abortar, como se a vida dela realmente não valesse nada. A mobilização que fazem por essas causas é pouca, perto do que se mobilizam e do estardalhaço que fazem contra o aborto, uma questão de saúde pública e de discriminação contra as negras e pobres, que são as mais afetadas pelos abortos clandestinos e ilegais.

Punir a mulher que tem vida sexual ativa, culpar a mulher pelas violências que sofrem por parte dos homens,  manter o corpo e a vontade da mulher sob tutela do estado patriarcal e dos patriarcas religiosos, é disso que se trata a luta dessas igrejas contra o aborto.

E é por isso que esses casos de violência sexual e conseqüente aborto, que vitimizam mulheres e crianças, e ganham espaço na mídia, são logo “apadrinhados” pelos defensores da criminalização, pois servem de bandeira para suas idéias misóginas e retrógradas e para que seus fiéis se vejam na situação de ter que optar entre a palavra do deus, sagrada e imutável que é interpretada e ensinada por essas igrejas e os direitos das mulheres.

No mínimo, cria um conflito moral entre aquel@s que se horrorizam com o estupro e apóiam o aborto permitido por lei e que ao mesmo tempo, seguem os dogmas, leis e ensinamentos dos seus respectivos patriarcas. Sem falar na culpa e marginalização que as vítimas, provavelmente cristãs, sentirão ainda mais pesadas por conta da exposição pública de seu caso e pela condenação que sofrem das suas igrejas.

E assim, toda a situação criada pela mobilização anti-aborto das igrejas, serve de “alerta” para aquelas cristãs que podem, por uma fatalidade ou outra se verem na mesma situação dessas meninas e mulheres, ao terem que optar entre levar ou não uma gravidez adiante: condenação pública para todas e culpa antecipada para as mulheres em geral, únicas e possíveis vítimas da violência sexual e de uma gravidez indesejada.

Lamentável, que num país que se quer democrático e laico, os direitos das mulheres sejam colocados em um balcão de disputas religiosas, onde se discute tudo, menos o direito inalienável da mulher ao seu corpo.

Nosso corpo nos pertence. Nem padres, nem pastores, nem juízes: a mulher decide.

28 de setembro – Dia de luta pela legalização do aborto na América Latina.

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