O segundo turno e a pauta do conservadorismo

Em entrevista à Fórum, a socióloga e especialista em pesquisas de opinião Fátima Pacheco Jordão faz sua análise sobre o atual cenário da campanha eleitoral e critica a tentativa de setores conservadores de atentar contra a consolidação de um Estado laico.

Por André Rossi

A socióloga Fátima Pacheco Jordão, do Instituto Patrícia Galvão, analisa a vitória parcial de Dilma entre o eleitorado masculino e o fato de Serra concentrar seus melhores índices no eleitorado feminino. Fala também sobre o preconceito que norteia a participação das mulheres na política e afirma que o protagonismo de duas candidatas no atual debate político é uma vitória das brasileiras que lutaram pela igualdade de direitos. Sobre a valorização das questões religiosas e morais nas campanhas, Fátima não se surpreende e fala sobre uma jogada moralista dos setores conservadores para “empurrar o país para trás”.

Fórum – Nessas eleições, tivemos importantes atores políticos femininos, como Dilma e Marina. De que maneira a senhora enxerga o protagonismo feminino nas eleições 2010?

Fátima Pacheco Jordão – É central do ponto de vista dos eleitores, pois ocorreu uma mudança radical no número de mulheres inscritas, que se tornaram candidatas em todos os níveis. Isso rompeu a barreira da aceitação da mulher para os principais cargos. A exemplo de Dilma e Marina, que tiveram um grande número de votos.

Essa eleição é um marco para destruir o mitos de que o brasileiro não vota em mulher para cargos altos, de que mulher não vota em mulher. O Brasil poderá ter sua primeira presidenta e isso é um fato histórico, pois coroa uma geração que lutou pela igualdade de participação da mulher na política em vários quadrantes partidários. Como exemplo, temos a Luiza Erundina, Marta Suplicy, entre outras.

A sociedade, culturalmente, aceita mais as mulheres, pois vota nelas e precisa delas. Em compensação, as candidatas formulam poucas políticas específicas para o público feminino. A exemplo da Dilma, que ao contrário da Michelle Bachelet, não fez nenhum compromisso de política específica para mulheres. Não falou em Ministério Paritário, como fez a ex-presidente do Chile. Dilma falou sobre creches, mas não contextualizou o tema como um mecanismo de avanço da mulher no mercado de trabalho.

A Dilma se beneficiou de uma visão positiva que a sociedade tem das mulheres na política e não retribuiu com políticas específicas, o que já era esperado. Sequer citou, estando sob fogo cruzado, um aspecto importante na questão do aborto, que é a participação do Brasil em dois tratados internacionais de diminuição das restrições ao aborto no país. Ela poderia ter resgatado essa perspectiva, pois isso é ótimo para as mulheres e importante para o Brasil. Mudaria culturalmente o desequilíbrio machista no país. Portanto, tanto a Dilma quanto a Marina olharam com muita timidez para o eleitorado feminino.

Fórum – Na sua opinião, houve preconceito no debate político em relação às mulheres candidatas?

Fátima – Acho que há sempre preconceito em relação à mulher. No caso da Dilma, houve uma excessiva preocupação com a maneira como ela se vestia, seus cabelos, plásticas que ela fez, enfim, em torno da imagem dela. Falaram que, por ela ser mulher, seria mais emocional do que racional no comando do país. Não falaram sobre sua competência profissional.

Do ponto de vista do eleitorado, acho que não houve uma visão preconceituosa de gênero. Pelo contrário, se houve preconceito foi um preconceito favorável, de que por ser mulher ela seria mais fidedigna, honesta  e preparada para o cargo.

Fórum – Como a senhora enxerga a centralidade nas questões de cunho moral no atual debate político dos presidenciáveis? Isso pode representar um retrocesso em relação a eleições passadas?

Fátima – Não só em relação às eleições passadas, como em relação ao estágio que já tínhamos chegado, de percepção de um Estado laico. Acho que em todas as eleições tenta se levantar essa bandeira moral e na minha visão é mais um tema dos setores conservadores do que da própria campanha. Esses setores precisam que essas questões ganhem visibilidade, não só no Brasil como no mundo inteiro. Ou seja, interessa mais às igrejas e setores religiosos do que aos partidos envolvidos no debate.

Ambos os candidatos recuaram nessa questão. A Dilma, assinando compromissos que vão contra os compromissos do Estado brasileiro, e o Serra dando a sua campanha um contexto religioso, que não cabe numa eleição.  Então os dois, na minha opinião, foram vítimas de setores da igreja muito bem organizados, que há anos trabalham pela visibilidade das questões morais. Esses setores da igreja, mais da católica e da evangélica, sempre usam qualquer oportunidade de ouro de empurra a sociedade para trás.

Fórum – Na última pesquisa Datafolha, os dois candidatos empatam tecnicamente no voto feminino e Dilma vence por ampla margem no voto masculino. Na sua opinião, o que explica esse diferença de votos entre os gêneros?

Fátima – Essa é uma questão que vem desde o início da campanha. De fato a Dilma tem mais votos masculinos que femininos e, por conta de todas as projeções dos analistas, deverá ganhar mais pelo eleitorado masculino mesmo.

Na minha opinião, os homens qualificam um governo do ponto de vista da eficácia do projeto político, do desempenho econômico, do emprego e capacidade de consumo. Já as mulheres veem outro lado, de desempenho de políticas públicas de saúde, educação, transporte, enfim, política que afetam o cotidiano. Desse ponto de vista, elas são mais críticas mesmo. Então é sabido que elas vejam no candidato de oposição, o Serra, um bom desempenho na política pública, por exemplo na saúde. Acho que a diferença é por aí.

Na campanha, desde quando os candidatos foram nomeados, a eleição é mais vista sob a ótica das políticas públicas, como saúde, educação, habitação, saneamento básico. Já nos intervalos do cenário eleitoral, a visibilidade vai toda para as políticas de poder. E os homens têm mais traquejo em se interessar por partidos, nomeações e questões partidárias.

Fórum – Na última pesquisa Datafolha, em relação aos setores religiosos, Dilma vence no eleitorado católico, enquanto Serra mostrou uma ascensão no eleitorado evangélico. Tendo em vista a alta religiosidade da sociedade brasileira, de que maneira a discussão religiosa influencia no processo eleitoral?

Fátima – Na pesquisa, as curvas que mais se alteram são as de cortes religiosos. As religiões, sobretudo a evangélica e a católica, têm muito espaço de comunicação para a população com emissoras de televisão interias. São atores políticos importantíssimos.

Agora, não dá ainda para ver muita diferença nem muito impacto disso no conjunto do eleitorado. Por exemplo, no eleitorado majoritário como os católicos, que representam de 65% a 70%, nada mudou. Ou seja, dá pra perceber que o eleitorado brasileiro, independente das suas religiões, separa religião de política.

http://www.revistaforum.com.br/noticias/2010/10/22/o_segundo_turno_e_a_pauta_do_conservadorismo/

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