Violência doméstica, que problema é esse?

Muito se tem falado e escutado atualmente sobre a violência de homens contra mulheres no ambiente doméstico. Essa é uma realidade que, infelizmente, também faz parte do quadro de criminalidade do país.

A intensa violência que atinge a sociedade não é só urbana e não está apenas relacionada aos tráficos, roubos, seqüestros e balas perdidas. A maioria das mulheres que é vítima de algum crime sofre a agressão dentro de sua própria casa, por parte do próprio marido, ex-marido ou companheiro. Esse contexto é tão alarmante e grave quanto qualquer tipo de crime que ocorra no espaço público. Estima-se que, no Brasil, a cada ano, em torno de dois milhões de mulheres são atingidas pela violência doméstica.

Mesmo com esse quadro de grave ameaça à integridade física e psicológica das mulheres e à paz e prosperidade do país, muitos estereótipos relacionados a essa espécie de conflito permanecem fortalecidos no senso-comum, incentivando e banalizando o problema. Grande parte da sociedade ainda é complacente com a postura de homens que pensam ter o poder e o controle sobre a esposa ou parceira e, também, com a idéia de que briga de casal é um problema privado e menor. Também se imagina que os precursores deste tipo de violência não são criminosos, mas sim, pessoas com transtorno psicológico e emocional.

Na verdade, este tipo de conflito nasce de uma relação de poder, e não apenas de um contexto de ciúme, alcoolismo, stress ou loucura. A violência doméstica tem sua gênese em um cenário cultural histórico de discriminação e subordinação das mulheres. A desigualdade criada em torno do masculino e do feminino abriu as portas para uma série de comportamentos relacionados ao domínio e ao poder de homens sobre mulheres. O homem historicamente recebeu da sociedade o aval para ser o chefe da casa, passando a crer que possui o direito de usar a força física sobre sua companheira ou ex-companheira, como forma de impor e cobrar o comportamento que considera adequado para si e para ela. Desta forma, a maioria das agressões conjugais são conseqüências da adesão da sociedade a essas construções de papéis desiguais entre os sexos. O alcoolismo, os transtornos emocionais e o stress são, na verdade, apenas faíscas que desencadeiam um sentimento de poder secular outorgado aos homens.

Todos estes aspectos levantados podem nos levar a pensar: mas, afinal, de quem é esse problema?  A quem cabe resolvê-lo?

Um primeiro passo será dado quando as pessoas reconhecerem que a violência doméstica não é um simples problema ligado a relações afetivas/sexuais e que não é um problema apenas das mulheres. A violência doméstica contra as mulheres é um problema de toda a sociedade, tendo em vista seu alto potencial lesivo, que atinge, entre outras coisas, a vida das crianças que testemunham o conflito, a saúde das mulheres e a economia do país.

Um segundo passo será dado quando reconhecermos que a luta contra a violência doméstica e conjugal não cabe apenas às mulheres e aos movimentos sociais feministas.  A cultura da violência calcada no poder deve ser combatida por todos. Trata-se de um compromisso capaz de ser assumido também pelos homens e pelos movimentos sociais de todas as naturezas. A cultura dominante pode ser modificada e o Estado também deve atuar, elaborando políticas públicas, reformando sua legislação e alertando a população quanto ao seu papel no enfrentamento da questão.

Giane Boselli
CFEMEA

Comentários desativados.

%d blogueiros gostam disto: