Sakineh x wikileaks x yankees

Tenho  lido em alguns blogues, colunistas criticando o espaço dado  ao caso Sakineh.  Dizem que  a grande imprensa faz isso para desviar a atenção de questões mais importantes, como a guerra do Oriente Médio, os embates dos governos dos EUA e  Irã e agora o caso wikileaks e os vídeos  e documentos divulgados, disfarçando assim, um apoio irrestrito aos interesses americanos.

Entenda o caso Sakineh aqui:  http://migre.me/2Tl04

Enquanto noticiam a desgraçada via crucis de morre, não morre de Sakineh, o jornais colaboram para que o que realmente importa para esses colunistas de esquerda, fique em segundo plano, qual seja: o caso do jornalista Assange,  os horrores da guerra no Iraque e a demonização do governo do Irã.

Wikileaks – O que é e como funciona? http://migre.me/2Tl9h

Wikileaks põe em debate direito de governos ao segredo  e de cidadãos à informação http://migre.me/2Tl2A

Internautas atendem a apelo e número de sites-espelho do WikiLeaks chega a 355 http://migre.me/2Tl3L

Twitter estaria censurando discussão sobre WikiLeaks  http://migre.me/2Tl5z

Vídeo terrível de uma execução perpetrada por militares americanos no Iraque:

Argumento e hipótese falsos, como qualquer pessoa que lê jornais e internet sabe.

A grande imprensa pode até não dar o espaço que gostariam ou como gostariam a essas questões, mas as notícias correm por aí para quem quiser ler e mesmo quando manipuladas para que Assange ou o Irã sejam tratados como inimigos públicos do ocidente, sempre se pode encontrar notícias a respeito e com destaque em jornais, telejornais, revistas e internet. E as notícias dos conflitos no Iraque e Afeganistão sempre chegam até nós.  Os senhores da guerra não conseguem esconder suas atrocidades do resto do mundo como gostariam. O que me leva a perguntar, porque  se incomodam tanto com a visibilidade dada ao caso Sakineh.

Sakineh não foi o primeiro caso de condenação à morte por apedrejamento que ocorreu no mundo e pelo jeito não será o último. Quem não se lembra do caso da africana Saphia, que só escapou  do apedrejamento por causa da mobilização internacional?

A americanaTeresa Lewis não teve a a visibilidade dada a Sakineh e acabou sendo excutada  http://bit.ly/fbtqAw

A morte por apedrejamento é cruel, lenta e dolorosa. Não há justificativa  para se condenar á morte e muito menos uma morte assim.

A ONG alemã que divulgou recentemente a notícia de que Sakineh havia sido libertada, para reavivar o caso, lógico, com receio de que ela fosse executada na surdina,  é a mesma que denuncia que neste momento no Irã, 21 mulheres e 5 homens estão aguardando para serem executados e que o julgamento dela,  contém irregularidades que mereceriam, por isso mesmo, ser apuradas e o julgamento revisto.

Um dos colunistas duvida disso , afirmando que são supostas irregularidades e que em outros países do ocidente, existe a pena de morte. Ok, mas como pessoas de esquerda que somos, não apoiamos a pena de morte lá e muito menos cá. Eu prefiro acreditar na ONG, que luta para banir essa prática cruel do mundo, ainda mais quando se sabe que a maioria dos condenados são mulheres. Mulheres que cometem crimes, merecem morrer assim?

Um outro afirma que morreram ultimamente poucas pessoas dessa forma e que a última execução  no Irá foi em 2007. Se uma pessoa morre dessa maneira, isso não deixa de ser crueldade e talvez essas execuções não tenham ocorrido recentemente, justamente pela mobilização internacional.  Mas mesmo assim, vamos relembrar:  21 mulheres e 5 homens estão marcados para morrer por apedrejamento atualmente no Irã.

Me parece mais um daqueles casos, onde as mulheres, essas barra-pesadas, por conseguirem um espaço pertinente á elas, mas que diz respeito a toda humanidade por que é uma questão de direitos humanos, causa estranheza e má vontade em alguns, pois para esses, as causas de seu interesse não podem ser atrapalhadas por questões menores, quando o mundo como eles enxergam está cheio de problemas.

É sempre assim. Sempre querem colocar nossas causas para debaixo do tapete para serem reveladas quando eles julguem que é oportuno. Só que , nós mulheres sabemos, essa oportunidade fica sempre para um futuro bem distante quando nós mulheres, não nos mobilizamos.

Certa vez um homem me disse que devíamos seguir o conselho de Camille Paglia e parar de ficar com as ‘causas específicas  femininas’ e atuarmos nas grandes causas que , segundo ele, os homens se envolvem. Eu respondi, para refrescar a sua memória, com a Revolução Francesa onde as mulheres se juntaram aos revolucionários e depois foram chutadas para escanteio e nenhum benefício conseguiram.  Olympe de Gouges, que se atreveu a levantar a sua voz, foi devidamente executada. Afinal, aquela ‘barraqueira’, não tinha nada melhor a fazer do que reivindicar igualdade para as mulheres?

Nós, mulheres, estamos envolvidas no combate ao racismo, no combate ao preconceito contra homossexuais, contra a xenofobia, a proteção da natureza, na luta pela paz e também na defesa da igualdade de direitos para as mulheres.

Garanto que as mulheres e feministas se mobilizaram para assinar a petição a favor do Assange, do wikileaks, pela lei da homofobia e por todas as causas que a nosso ver  ferem os direitos humanos. Aprendam com as mulheres e mulheres feministas. Nós somos assim. Não dividimos. Acolhemos e nos juntamos.  E gostaríamos que nossos esforços fossem reconhecidos. Pode parecer para alguns que uma mulher morrendo a pedradas, não seja nada de importante comparado às guerras, mas existe um simbolismo por trás dessas condenações de mulheres que diz respeito a todas nós. Assim como a mutilação genital feminina, os estupros como arma de guerra,  as noivas queimadas na Ìndia, o fato de que 80% dos refugiados em conflitos são mulheres e crianças, a feminização da pobreza e analfabetismo e etc. Vinte e uma mulheres esperando a morte por apedrajamento juntamente com  Sakineh, é mais uma das causas importantes que abraçamos. E tudo isso que relatei acontece com metade da humanidade. Conosco, mulheres.

Visibilizar o caso Sakineh e todas as formas de violência que sofremos nesse mundo patriarcal em que vivemos e tornando tudo isso público e notório traz questionamentos importantes e ações para reverter essas situações, que de outro modo passariam em branco e continuariam a acontecer, em face das causas muito mais importantes segundo alguns.

Por isso, senhores donos da verdade, parem com esse mimimi só por que o caso Sakineh conseguiu algum espaço na mídia. Estamos todos no mesmo barco e lutando pelas mesmas causas, ou quase. Pelo menos no que diz respeito a vocês. Se não se sensibilizam com as questões feministas e femininas, pelo menos  não nos atrapalhem.

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. yume
    dez 17, 2011 @ 13:26:38

    Detalhe: por causa do meu curso( agronomia),eu tenho que estudar ecologia( séria,não estas porcarias ufanistas sem senso prático vinda de gente sem conhecimento) e demais causas como mst,quilombola..e em nenhum momento eu escuto falar do problema da mulher.Isso é a realidade,e é iso que vejo muitas feministas “se esquecendo”.Ninguém( ou raramente) tem empatia pelo feminismo,é até palavrão mencioná-lo( principalmente para aquele povo de deireito dos animais!),e a gente gastando energia fundindo o feminismo com outras causas que já tem defensores e grupos proprios(e muito,por sinal).

    • arttemiarktos
      dez 17, 2011 @ 17:02:37

      Outros podem esquecer das causas, mas feministas não. Existem mulheres que militam em movimentos pela preservação do meio ambiente, pelas causas indígenas, contra o racismo e homofobia e que não são ligadas ao feminismo. Mas uma feminista sempre olha qualquer causa sob a ótica das mulheres.

  2. yume
    nov 15, 2011 @ 20:26:44

    “Nós, mulheres, estamos envolvidas no combate ao racismo, no combate ao preconceito contra homossexuais, contra a xenofobia, a proteção da natureza, na luta pela paz e também na defesa da igualdade de direitos para as mulheres.”

    É esse nosso problema,sermos “humanistas”…queremos sempre nos doer por todo mundo,mas ninguém se dói por nós…devíamos refletir sobre isso..não é egoismo nos concentramos na nossa causa,se nós não o fizermos,quem fará? Já não tivemos provas o suficiente?

    De tanto que acabamos nos envolvendo em outras causas,esquecemos das nossas.Se alguém quer ser ecologista,que procure um grupo ecologista,se alguém quer defender homo sexuais,procure grupos LGBS;racismo,idem…já tem muitos por aí,mais organizados e com mais poder que o feminismo.E nunca vi nenhum destes grupos mencionar problemas das mulheres enquanto cçlassse oprimida pelo poder patriarcal,no máximo as mencionam quando estão inseridas em outros grupos oprimidos ( ex: quilombolas e caiçaras,no caso dos projetos ecológicos),mas nunca como vítimas de machismo.

    É algo para ser refletido ..e muito

    • arttemiarktos
      nov 17, 2011 @ 14:15:34

      Estamos envolvidas em todas estas causas porque em todas elas, as mulheres são as que mais sofrem as consequências e com certeza muitas feministas estão envolvidas não só na defesa dos direitos das mulheres como também na luta lgbt, na preservação da natureza e etc.

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