A situação das mulheres no Afeganistão: “Os talibãs recebem fundos da NATO”

Logo da RAWA (Associação revolucionária das mulheres do Afeganistão)

Durante uma semana no início deste ano, Mariam Rawi, militante afegã dos direitos das mulheres, visitou a Bélgica. Entrevista de Danny Claes.

Encontrámos Mariam Rawi, da Associação revolucionária de mulheres do Afeganistão (RAWA), após uma conferência em Gand. É uma mulher tenaz e empenhada que desenvolve diversos papéis: militante, professora nos campos de refugiados no Paquistão e uma célebre articulista internacional: The Guardian, The Japan Times, El Pais, Z-Magazine, publicaram artigos seus. Um deles foi publicado numa centena de jornais no mundo. Mas nós não nos debruçaremos sobre a sua carreira jornalística mas sim sobre o seu país natal e a associação feminina em que actua.

“RAWA já existe há mais de 30 anos”, conta ela, “mas nunca tivemos uma situação tão difícil como hoje. Já não podemos organizar as nossas actividades – cursos de alfabetização para mulheres e raparigas, cursos de formação para mulheres e desenvolvimento de projectos sanitários – em nome da RAWA. No Afeganistão, tenho de me disfarçar. A nossa porta-voz, Malalai Joya, está sob ameaça de morte… Estamos literalmente entre três fogos: os talibãs, o governo e a NATO”.

Aqui, há quem diga que a situação melhorou mesmo para as mulheres…

Mariam Rawi: Perdão? A cada novo bombardeamento da NATO há um novo fluxo de refugiados. Nestas condições, as mulheres têm hipótese de ir à escola? Nos campos, a miséria é extrema. As equipas da NATO são chefiadas por soldados e não têm qualquer contacto com a população. Aqui, conta-se uma história que não tem nada a ver com a realidade. Além disso, as ajudas financeiras não chegam à população. Nós não temos qualquer apoio. É a elite que beneficia da ajuda internacional. Alguns responsáveis dos serviços de ajuda – tanto ocidentais como afegãos – chegam a ganhar 10.000 dólares por mês. Se vocês verdadeiramente nos querem ajudar, então garantam que os soldados da NATO saem do nosso país o mais depressa possível.

Não teme o regresso dos talibãs, a guerra civil,o caos?

Mariam Rawi: Quem diz isso não compreendeu nada. No nosso país, já existe hoje a guerra civil e o caos. E é publicamente conhecido que os talibãs recebem fundos da NATO.

O que disse?

Mariam Rawi: As tropas da NATO utilizam o seu abastecimento com fins privados para pagar aos talibãs um direito de passagem nas zonas que são controladas por eles. E os talibãs deslocam as suas operações militares para outras regiões… Oficialmente, fala-se de negociações com os talibãs “moderados”. Dito de outra maneira, estão dispostos a dar um certo poder aos talibãs. Como é que nestas condições se pode esperar reconstruir o nosso país e garantir direitos fundamentais às mulheres.

O que seria preciso fazer?

Mariam Rawi: Antes de mais, é preciso que as populações dos países da NATO façam pressão sobre os seus governos para que estes retirem as suas tropas. Os soldados da NATO são de facto uma parte do problema e não da solução. A sua presença reforça os fundamentalistas e aumenta a insegurança da população.

Em segundo lugar, a comunidade internacional deve pôr fim ao financiamento dos fundamentalistas. É preciso que o apoio ao governo actual e o financiamento dos talibãs terminem.

Em terceiro lugar, é preciso julgar, sem o menor receio, os criminosos de guerra que estão actualmente no governo.

“Os Estados Unidos permitiram que os grupos fundamentalistas se desenvolvessem”

“Isso servia a sua luta contra a Rússia. Após a retirada dos russos, o país mergulhou numa guerra civil entre os senhores da guerra do Norte e os talibãs. Ambos são grupos fundamentalistas. Os americanos em primeiro lugar apoiaram os talibãs e a seguir escolheram o outro campo”, explica Mariam. “Em 2001, aviões americanos lançaram panfletos acusando os talibãs, panfletos que eles tinham copiado da nossa associação. Durante um curto período, acreditámos verdadeiramente que as coisas iam mudar. Mas no seu combate contra os talibãs, eles levaram para o poder os senhores da guerra do Norte.” Mariam acrescenta que hoje 80% daqueles que estão no parlamento afegão são criminosos de guerra e fundamentalistas. “Nos anos 90, eles enriqueceram graças à pilhagem. E presentemente são tão poderosos devido ao apoio do estrangeiro. O exército e a polícia são dirigidos por estes homens. É assim que nos vamos livrar dos talibãs?

“Não é fácil continuar este trabalho e conseguir sobreviver”

Mariam Rawi é representante da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão. Actualmente, vive e dá aulas no Paquistão, onde as militantes da RAWA no exílio são um alvo dos fundamentalistas.

Artigo disponível no site da rawa.org

Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

As feministas da RAWA denunciam as condições da população afegã em geral e das mulheres em particular. Alguém está prestando atenção ao que estas mulheres falam?

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