Rostos tristes e sorrisos falsos

A exploração do corpo feminino e sua sexualização começam bem cedo. Desde que nascemos somos empurradas para a preocupação com nossa aparência e com a maneira como apresentamos nosso corpo perante o olhar alheio. Algumas tem essa preocupação exarcebada pela imposição de suas famílias em participar de concursos de beleza infantil.

Nenhuma menina deveria ser tratada dessa maneira e muito menos ter sua infância prejudicada pela imposição desses estereótipos do que é ser feminino, desse treinamento para ser mulher e futura consumidora de produtos de beleza e etc.  Essas crianças que vivem o dia a dia dos concursos de beleza tem essa vivência multiplicada a níveis que dificilmente não afetarão suas vidas no futuro e no modo como se enxergam como pessoas.

A pergunta que fica é: qual a necessidade disso para uma menina? A não ser pela obrigação que os pais lhes impõe de realizar seus sonhos e expectativas, não há justificativa para que crianças participem de eventos desse tipo. A vida dessas meninas é denunciada nessa reportagem e no vídeo abaixo.

Biquíni, salto alto e tiara: por dentro dos concursos de beleza infantil nos EUA

Ópera MundiUsando biquíni, salto alto e plumas vermelhas ao redor do pescoço, uma menina de seis anos faz poses sobre um banco ao ritmo de cabaré, animada pela mãe e cerca de 200 espectadores que abarrotam a sala. Logo surge outra garota, um pouco mais velha, que estende sua toalha ao som da banda Beach Boys, tira o vestido e põe-se a tomar sol quase nua, enquanto três jurados, sentados a uma mesa diante do palco, fazem anotações freneticamente. A tensão é palpável no ambiente.Bem-vindo a um dos concursos de beleza infantil mais importantes dos Estados Unidos, o 2010 Miss Elite Miss Pageant, o evento estadual da Carolina do Norte no qual duas dezenas de meninas de 2 a 18 anos lutam para conquistar a coroa e participar da competição nacional, ou “nationals”, no ano seguinte. O lugar escolhido: um salão de baile no terceiro andar de um hotel na pequena vila rural de Hickory.

O negócio dos concursos de beleza infantis, famosos depois do filme Pequena Miss Sunshine, movimenta cerca de cinco bilhões de dólares por ano nos EUA e conta com mais de 100 mil participantes. Os pais, a maioria de classe média, gastam centenas de dólares com taxas de inscrição, maquiagem e aulas para as meninas. Um fenômeno que se expande na Europa, incluindo o Reino Unido, onde no início do ano foi realizado o primeiro concurso Mini Miss UK.

A indústria voltou ao centro das atenções recentemente, com a reabertura da investigação do misterioso caso de estupro e assassinato da rainha da beleza infantil JonBenet Ramsey, de seis anos, no Natal de 1996. A polícia planeja usar nova tecnologia de DNA para identificar o assassino.

“O caso JonBenet me afetou muito. Quando eu era criança – hoje estou com 24 anos –, só havia semi-glitz e high glitz [concursos de beleza infantis radicais]. Quando o caso JonBenet irrompeu na TV, todos disseram: ‘Esperem, o que estamos fazendo?’, e pisaram no freio”, comenta Katie-Britt Greenway, atual Miss South Miami USA e preparadora de uma competidora de quatro anos. “Desde então, surgiram concursos de beleza mais normais, como este, que promovem a beleza natural, sem meninas usando dentes e cabelos falsos.”

Apesar de este concurso ser considerado mais natural que os outros, observando o clima competitivo entre candidatas e parentes, percebe-se que o negócio não é brincadeira. “Nem se atreva a tirar o vestido!”, grita uma mãe no corredor do hotel à filha de cinco anos, com belos cachos ruivos. A menina reclama que o vestido irrita sua pele, mas, no fim, aos prantos, concorda em usá-lo quando lhe prometem vendê-lo no eBay depois do concurso.

Em um dos quartos do hotel, seis meninas sentam-se em cadeiras no lugar onde ficavam as camas, enquanto suas mães se apressam para dar os últimos retoques. O lugar é uma bagunça, com frascos de esmalte, rímel, potes de maquiagem e vestidos por todo lado, enquanto a TV exibe o desenho animado Tom e Jerry. “Me pego chorando, não posso evitar. Quero que ela pareça uma moça e fique bonita”, diz Melissa Shuford, mãe da candidata Emily, de 11 anos, que em 2010 participou de uma dúzia de concursos.

– Sente-se como uma mocinha?

– Sim, responde Emily, tímida.

– O que quer ser quando crescer?

– Veterinária.

– Qual será sua fantasia?

– Serei uma borboleta.

“Haverá um baile lírico”, interrompe a mãe. “Ela adora usar vestidos, é minha menina mais nova, brincamos de Cinderela o tempo todo. Gastamos uns 1.500 dólares neste concurso, não é muito dinheiro comparado com outras garotas. Financiamos os gastos vendendo anúncios a empresas de nossa cidade que aparecem no catálogo do concurso.”

Muitos denunciam que esses concursos fomentam a exploração sexual das meninas, que, movidas pelo delírio de seus pais, são vestidas, maquiadas e penteadas para parecer adultas, alcançar a fama e ser contratadas como modelos por algum produtor ou revista. E advertem para danos psicológicos nas crianças pelo estresse dos eventos.

Mas Melissa garante que os concursos transformaram a vida de sua filha para melhor. “Era uma menina muito tímida, só brincava com bichos de pelúcia, mal se socializava. Nos concursos, você faz entrevistas com três jurados. Em alguns lugares, ensinam-lhe boas maneiras, como arrumar os talheres, como comer, é maravilhoso. Agora estou colocando um pouco de maquiagem e unhas postiças, mas nunca fazemos glitz, jamais.”

O concurso se divide em cinco categorias – beleza, roupa esportiva e traje de banho, roupa favorita, pijama e atuação com música –, e as meninas têm de correr para o quarto depois de participar de cada etapa para trocar o vestido e voltar a desfilar. Por isso, durante o concurso, é comum topar com garotinhas correndo pelos corredores do hotel, seguidas de perto pelas mães, algumas histéricas.

Kisha Sain, uma dona de casa, criou o concurso há quatro anos. Sobre o efeito da reabertura do caso JonBenet Ramsey, afirma, categórica: “Não, é a crise econômica que nos afetou. As pessoas estão endividadas e já não podem dar-se ao luxo de vir aqui. Um sistema como este conta com 50, 60 participantes, mas neste ano há apenas 21. Isso diz tudo.” O que ela acha das críticas segundo as quais os concursos ‘sexualizam’ as menores? “Alguns realmente o fazem, mas nós, não. Esses outros concursos fazem com que as meninas pareçam adultas, é terrível.”

De volta ao salão de baile, as últimas meninas desfilam. Ava Reese, a discípula de Miss South Miami USA, não se contém: “Quero a coroa, vou ganhar a coroa maior?”, pergunta, em meio a risadas dos parentes. Usa um vestido azul brilhante e senta-se no colo da avó, assistindo atenta na primeira fila.

Logo os desfiles terminam e, depois de um breve recesso, começam a ser anunciados os nomes das misses. Miss Melhor Traje de Banho, Miss Vestido de Noite, Miss Originalidade… Os prêmios caem um a um e as ganhadoras, emocionadas – algumas chorando –, sobem ao palco para recolher os imensos troféus brilhantes, às vezes maiores que elas.

“Sou a rainha de todas as rainhas, não é, mamãe?”

Uma enorme expectativa toma a sala quando a apresentadora se prepara para anunciar o grande prêmio. Abre um envelope, aproxima-se do microfone e lê devagar: “E a vencedora Miss Elite North Carolina 2010 para menores de nove anos é… Ava Reese!” A menina quase salta no ar, diante do júbilo da família e da preparadora.

“Sou a rainha de todas as rainhas, não é, mamãe?”, pergunta a menina à mãe, Lisa. “É claro”, responde ela sorridente e, voltando-se para mim, acrescenta: “Ela quer desfilar e coroar outras meninas. Passa meses treinando duas vezes por semana. A professora lhe ensina como desfilar no palco, como maquiar-se. Participou de quatro concursos antes, outras de sua idade fizeram muitos mais, é uma surpresa maravilhosa.” Nem todos ficaram tão contentes. Alguns pais reclamam que suas filhas foram tratadas injustamente, enquanto uma menina chora desconsolada do lado de fora.

Falta ainda o mais importante, o nome da miss infantil maior de nove anos que representará o estado nos “nationals” do próximo ano. Emily Shuford é a felizarda, um anúncio recebido com gritos de alegria de sua mãe Melissa e outros parentes. “Estou felicíssima por minha filha, ela é bonita, lutou muito para ganhar isso”, diz-me a mãe pouco depois, emocionada, enquanto Emily e as ganhadoras das diferentes categorias posam para a foto coletiva num quarto do hotel transformado em estúdio, onde o fotógrafo é um veterano da Guerra do Vietnã.

“Ela usará sua coroa para levantar verbas para crianças que sofrem de doenças renais e muitas outras causas. Quer arrecadar 15 mil dólares em festas beneficentes, com certeza conseguirá.” E agora conseguirá um contrato de modelo? “Bom, isso veremos. Que felicidade, olhe, lá vêm elas!”

In Diário Liberdade


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