Algumas Reflexões sobre o Separatismo e o Poder

Marilyn Frye

Tenho estado a tentar escrever algo sobre o separatismo quase desde o principiar da minha consciência feminista; contudo tal sempre foi para mim de alguma forma um assunto difícil, o qual, logo que o tentava agarrar, suavemente se esvaía tomando a forma de outros assuntos tais como a sexualidade, o ódio-aos-homens, a chamada discriminação inversa, o utopismo apocalíptico, etc.

Na minha vida e dentro do feminismo tal como o compreendo, o separatismo não é uma teoria ou uma doutrina, nem uma exigência de certos comportamentos específicos por parte das feministas, embora esteja inegavelmente ligado ao lesbianismo. O feminismo parece-me ser caleidoscópico – algo cujas formas, estruturas e padrões se alteram com cada movimento da criatividade feminista; e um elemento que se encontra presente através de todas as mudanças é um elemento de separação. Este elemento tem diferentes papéis e relações em diferentes movimentos do espelho – esse elemento assume sentidos diferentes, torna-se diferentemente conspícuo, diferentemente determinado ou determinante, dependendo de como os pedaços caem e quem está a observar.

O tema da separação, nas suas variações múltiplas, está presente em tudo desde o divórcio às comunidades exclusivas de separatistas lésbicas, desde os abrigos para mulheres espancadas a círculos de bruxas, desde os programas de Estudos sobre as Mulheres aos bares de mulheres, desde a expansão de centros de cuidados à infância ao aborto livre e dependente da vontade das mulheres. A presença deste tema é vigorosamente obscurecida, trivializada, mistificada e totalmente negada por muitas apologistas feministas, que parecem achá-lo tema embaraçoso, enquanto que é aceito, explorado, expandido e ramificado pela maioria das teóricas e ativistas mais inspiradoras. O tema da separação está visivelmente ausente ou severamente limitado da maioria das coisas que eu entendo como sendo soluções pessoais e projetos penso-rápido, tal como a legalização da prostituição, contratos de casamento liberais, a melhoria do tratamento de vítimas de violação e ação afirmativa. A natureza antagônica da assimilação e do separatismo parece-me ser uma das principais coisas que guia ou determina a avaliação de várias teorias, ações e práticas como sendo reformistas ou radicais, como indo à raiz da questão ou sendo relativamente superficial. Assim a minha questão é esta: O que contém a separação, em qualquer ou todas as suas muitas formas e graus, que a torna tão basilar e tão sinistra, tão excitante e tão repelente?

A separação feminista é, como se sabe, uma separação de vários graus os modos dos homens e das instituições, relacionamentos, papéis e atividades que são definidas-pelos-homens, dominadas-pelos-homens e que operam para o benefício dos machos e a manutenção do privilégio macho – sendo que esta separação é iniciada ou mantida, de acordo com a sua vontade, por mulheres (O separatismo masculinista é a segregação parcial das mulheres dos homens e dos domínios machos pela vontade dos homens. Esta diferença é crucial.). A separação feminista pode assumir várias formas. O terminar ou evitar relações íntimas ou de trabalho, proibir alguém de entrar na sua casa; excluindo alguém da sua companhia, ou da sua reunião; retirar-se da participação nalguma atividade ou instituição, ou evitar essa participação; evitar a comunicação e a influência vindas de certos quadrantes (não ouvir músicas com letras sexistas, não ver televisão); recusar empenho ou apoio; rejeitar ou ser malcriada para com indivíduos ofensivos. Algumas separações são subtis realinhamentos de identificação, prioridades e empenhos, ou o trabalho com agendas/programas que apenas por acaso coincidem com as agendas/programas da instituição para a qual se trabalha. A cessação da lealdade para com algo ou alguém é uma separação; e a cessação do amor. As separações da feminista são rarissimamente procuradas ou mantidas diretamente como finalidades últimas, pessoais ou políticas. O que de tal mais se aproxima, penso, é a separação que representa a repulsa instintiva e auto-perservante da misoginia sistemática que nos rodeia.

Geralmente as separações ocorrem e são mantidas com vista a alguma outra coisa tal como a independência, a liberdade, o crescimento, a invenção, a irmandade, a segurança, a saúde, ou a prática de costumes novos ou hereges. Frequentemente as separações em questão evoluem, sem premeditação, à medida que seguimos o nosso caminho e achamos que várias pessoas, instituições, ou relacionamentos são inúteis, obstrucionistas ou incomodativos, e os pomos de lado ou os deixamos para trás. Por vezes, as separações são planeadas conscientemente e cultivadas enquanto pre requisitos ou condições necessários para dar continuidade aos nossos assuntos. Por vezes, as separações são conseguidas ou mantidas facilmente, ou com um sentimento de alívio, ou mesmo de alegria; por vezes, são conseguidas ou mantidas com dificuldade, à custa de vigilância constante ou com ansiedade, dor ou desgosto.

A maioria das feministas, provavelmente todas, praticam alguma separação dos machos e das instituições por eles dominadas. Uma separatista pratica a separação conscientemente, sistematicamente, e provavelmente de uma maneira mais geral do que as outras, e advoga a completa separação como parte da estratégia consciente da libertação. E, contrariamente à imagem da separatista como covarde escapista, a vida desta é a vida e o programa que inspira a maior hostilidade, depreciação, insulto e confrontação, e geralmente ela é aquela contra quem as sanções econômicas operam mais concludentemente.

A penalização pela recusa de trabalhar com ou para os homens costuma ser a fome (ou no mínimo, viver sem assistência médica); e se a nossa política de não-cooperação é mais subtil, o nosso meio de subsistência está constantemente ameaçado, uma vez que não somos uma leal partidária, um membro adequado da equipe, ou seja, o que for. As penalidades reservadas à lésbica são o ostracismo, o assédio, e a insegurança de emprego ou o desemprego. A penalização reservada à rejeição dos avanços sexuais dos homens é frequentemente a violação, e talvez ainda mais frequentemente, a perda de coisas tais como oportunidades profissionais ou no emprego. E a separatista vive com o peso adicional de ser tomada por muitos como uma preconceituosa moralmente depravada que odeia homens. Mas aqui encontramos uma pista: se estamos a fazer algo tão rigorosamente proibido pelos patriarcas, devemos estar a fazer algo de certo.

Há uma idéia a flutuar, quer na literatura feminista, quer na anti-feminista, segundo a qual as mulheres e os homens vivem numa relação de parasitismo, um parasitismo do homem sobre a mulher… que é, regra geral, a força, energia, inspiração e apoio psíquico das mulheres que mantém os homens em atividade, e não a força, agressão, espiritualidade e caça dos homens que mantêm as mulheres em atividade.

Por vezes diz-se que o parasitismo é contrário, que a mulher é a parasita. Mas só se consegue imaginar a aparência da mulher como parasita se se tiver uma visão muito estreita da vivência humana – historicamente provinciana, estreita em relação à classe e à raça, e limitada na concepção daquilo que são os bens necessários. Geralmente, o contributo da mulher para o seu bem estar material é e sempre foi substancial; em muitas épocas e lugares tem sido independentemente suficiente.

Podemos e devemos distinguir entre uma dependência material parcial e contingente criada por uma certa economia de dinheiro e estrutura de classe, e a quase ubíqua dependência espiritual, emocional e material dos homens face às mulheres. Presentemente, os homens providenciam, umas vezes sim outras vezes não, uma parcela do apoio material das mulheres, em circunstâncias aparentemente feitas para tornar difícil às mulheres o providenciar por si próprias. Mas as mulheres providenciam e geralmente têm providenciado aos homens a energia e o espírito necessários à vida; os homens são apoiados psiquicamente pelas mulheres. E isto é algo que os homens, ao que parece, não podem fazer por si próprios, nem parcialmente.

O parasitismo dos homens face às mulheres é demonstrado pelo pânico, raiva e histeria gerados em tantos deles só de pensarem que vão ser abandonados pelas mulheres. (…)

Se é verdade que um aspecto fundamental das relações entre os sexos é o parasitismo masculino, tal poderá ajudar a explicar por que é que certas questões são particularmente excitantes para os supremacistas patriarcais. Por exemplo, dadas as óbvias vantagens do aborto facilitado para o controle populacional e diminuição dos custos da segurança social, e para assegurar o acesso sexual dos homens às mulheres, é um pouco surpreendente que os supremacistas se lhe oponham tão inabalavelmente. Mas vejamos…

O feto vive parasiticamente. É um animal distinto que vive da vida (o sangue) de outra criatura animal. É incapaz de sobreviver por si próprio, de nutrição independente; é incapaz mesmo de simbiose. Se é verdade que os homens vivem parasiticamente das mulheres, parece razoável supor que muitos deles e daquelas que lhes são leais são de alguma forma sensíveis ao paralelo entre a sua situação e a do feto. Poderiam facilmente identificar-se com o feto.

A mulher que se sente livre para ver o feto como um parasita poder-se-á sentir livre para ver o homem como parasita. A vontade da mulher em cortar a linha-de-vida a um parasita sugere uma vontade de cortar a linha-de-vida a outro parasita. A mulher que é capaz (legal, psicológica e fisicamente) de rejeitar um dos parasitas decisivamente, no seu próprio interesse, independentemente, é capaz de rejeitar, com a mesma decisão e independência, o fardo semelhante do outro parasita. Os olhos do outro parasita, a imagem do aborto inteiramente decidido pela mulher, sem sequer uma submissão ritual ao poder masculino do veto, é a imagem especular da morte. (…)

Há outros motivos que levam os supremacistas patriarcais a sentirem-se perturbados pelo aborto segundo a decisão da mulher, sendo um dos principais que tal se tornaria um modo significativo de controle das mulheres sobre a reprodução, e pelo menos visto de certos ângulos, parece que o progresso do patriarcado é o progresso em direção ao controle masculino da reprodução, começando com a propriedade de mulheres e continuando através da invenção da obstetrícia e a tecnologia de gestação extra-uterina. Desistir desse controle seria desistir do patriarcado. A histeria em torno do aborto explica-se em termos de um pressentimento muito imediato e pessoal de rejeição do útero-mulher.

Estou a discutir o aborto porque me parece ser o campo mais publicamente emocional e mais fisicamente dramático onde atualmente se joga o tema da separação e do parasitismo masculino. Mas há outros campos. Por exemplo, as mulheres que recentemente assumiram uma nova visão da sua realidade tendem a deixar casamentos e famílias, quer completamente através do divórcio, quer parcialmente, negando os seus serviços domésticos e sexuais. Muitas mulheres que estão a acordar tornam-se celibatárias ou lésbicas, e as outras tornam-se muito mais exigentes na escolha de quando, onde e em que relacionamentos terão sexo com homens.

E os homens afetados por estas separações geralmente reagem com hostilidade defensiva, ansiedade, e culpabilização da mulher, para não falar quando descem ao nível de argumentos ilógicos que equivalem e excedem as suas próprias imagens fantasiosas da irracionalidade das mulheres. O meu argumento é que eles têm muito medo porque dependem em demasia dos bens que recebem das mulheres, e estas separações negam-lhes acesso a esses bens.

O parasitismo masculino significa que os homens têm de ter acesso às mulheres; é o Imperativo Patriarcal. Mas o dizer-não feminista é mais do que uma remoção (re-direção, re-colocação) substancial de bens e serviços porque o Acesso é uma das faces do Poder. A negação das mulheres ao acesso masculino às mulheres corta substancialmente uma série de benefícios, mas tem também a forma e o pleno portento do assumir do poder.

As diferenças de poder manifestam-se sempre em acesso assimétrico. O presidente da república tem acesso a quase todos para qualquer coisa que possa querer deles, e quase ninguém tem acesso a ele. Os super-ricos têm acesso a quase todos; quase ninguém tem acesso a eles. Os recursos do empregado estão à disposição do patrão de uma forma que os recursos do patrão não são acessíveis ao empregado. O pai e a mãe têm incondicional acesso ao quarto da criança; a criança não tem esse acesso ao quarto dos pais. A criança não tem licença para mentir; o pai e a mãe têm a liberdade de excluir a criança com as mentiras que lhes apetecer. O escravo é incondicionalmente acessíveis ao senhor. O poder total é o acesso incondicional; a impotência total é ser incondicionalmente acessível. A criação e manipulação do poder constitui-se pela manipulação e controle do acesso.

Os grupos, encontros, projetos exclusivamente de mulheres parecem feitos para causar controvérsia e confrontos. Muitas mulheres ofendem-se com eles; muitas têm medo de ser aquela que anuncia a exclusão dos homens; é visto com um instrumento cuja utilização carece de muita justificação complicada. Penso que isto é porque a exclusão consciente e deliberada dos homens pelas mulheres, seja do que for, é insubordinação aberta, e gera nas mulheres um medo do castigo e da represália (medo frequentemente justificado). A nossa própria timidez e desejo de evitar confrontos geralmente impede-nos de ter muito a ver com grupo e encontros exclusivamente para mulheres. (…) O encontro para mulheres exclusivamente é um desafio fundamental à estrutura do poder. É sempre privilégio do senhor entrar na cabana do escravo. O escravo que resolve excluir o senhor da sua cabana está a declarar-se não-escravo. A exclusão dos homens do encontro de mulheres não só lhes retira certos benefícios (sem os quais poderiam sobreviver); é um controle pelo acesso, daí um assumir de poder. Não é apenas mesquinho, é arrogante.

Torna-se agora claro porque há sempre uma aura de negatividade em torno do separatismo – uma aura que ofende a Pollyanna em cada uma de nós e que soa a uma atitude puramente defensiva àquilo que há de teórica política que há em nós. É o seguinte: Primeiro, quando aqueles que controlam o acesso nos tornaram totalmente acessíveis, o nosso primeiro ato de tomada de controle tem de ser a negação do acesso, ou tem de ter como um dos seus aspectos a negação do acesso. Isto não se dá porque estamos carregadas de negatividade (não-feminina ou politicamente incorreta); trata-se da lógica da situação. Quando começamos de uma posição de total acessibilidade tem de haver um aspecto de dizer-não, que é o princípio do controle, em cada ato ou estratégia efetiva, sendo os atos e as estratégias efetivos precisamente aqueles que deslocam o poder, isto é, atos e estratégias que envolvem a manipulação e o controle do acesso. Segundo: quer digamos “não” ou não, ou negamos ou rejeitamos, nesta ou noutra ocasião, a capacidade de dizer “não” (efetivamente) é logicamente necessária ao controle. Quando estamos em controle do acesso a nós próprias haverá algum dizer-não, e quando estivermos mais acostumadas, quando for mais comum, uma parte vulgar da vida, não parecerá tão óbvio ou esforçado… não pareceremos a nós próprias ou aos outros como sendo particularmente negativas. Neste aspecto de nós próprias e das nossas vidas, parecermos aos nossos próprios olhos agradavelmente, como seres ativos com movimento próprio, com suficiente forma e estrutura, com suficiente integridade para gerar fricção. A nossa experiência de dizer-não será um aspecto da nossa experiência, da nossa definição.

Quando os nossos atos ou práticas feministas têm um aspecto de separação estamos a adquirir poder por meio do controle do acesso, e simultaneamente por meio da aquisição da definição. A escrava que exclui o senhor da sua cabana está por esse meio a declarar-se não-escrava. E a definição é uma outra face do poder.

Os poderosos costumam determinar aquilo que é dito e dizível. Quando os poderosos rotulam ou batizam algo, esse algo torna-se o que os poderosos lhe chamaram. Por exemplo, quando o Ministro da Defesa chama a algo uma negociação de paz, então seja o que for que ele chamou uma negociação de paz é uma situação de negociação de paz. Se a atividade em questão incidia sobre os termos da troca de reatores nucleares e redistribuições territoriais, incluindo acordos para os resultantes refugiados, isso é negociar a paz. As pessoas aplaudem, e aos negociadores é dado o Nobel da Paz. Por outro lado, quando eu chamo a determinado ato da fala uma violação, o meu “chamá-lo” não o torna violação. Na melhor das hipóteses, tenho de explicar e justificar e tornar claro exatamente o que é que neste ato da fala é agressão e exatamente de que maneira, e então os outros concordam em dizer que o ato foi como uma violação ou poderia em sentido figurado chamar-se uma violação. O meu contra-ataque não será aceito como simples ato de auto defesa. E aquilo a que eu chamei rejeição do parasitismo, eles chamam a perda das virtudes mulheris da compaixão e do “amor”. E geralmente quando as mulheres rebeldes chamam algo a uma coisa e os supremacistas patriarcais chamam-lhe outra coisa, os supremacistas ganham.

Regra geral as mulheres não são as pessoas que definem, e, a partir do nosso isolamento e impotência, não podemos simplesmente começar a dizer coisas diferentes das que os outros dizem e fazer com que os nossos nomes prevaleçam. Mas, se reformularmos o acesso, podemos definirmo-nos. Ao assumir o controle do acesso, desenhamos novas fronteiras e criamos novos papéis e relacionamentos. Isto, embora cause tensão, estranheza e hostilidade, está em larga medida dentro das possibilidades de indivíduos e pequenos grupos, contrariamente à redefinição verbal declarada.

Podemos ver o acesso como sendo de 2 tipos, “natural” e humanamente organizado. Um urso num parque tem aquilo a que se pode chamar acesso natural ao cesto da merenda do humano desarmado. O acesso do patrão aos serviços pessoais da secretária é um acesso humanamente organizado; o patrão exerce um poder institucional. Olhadas de determinado ângulo parece-me que as instituições são padrões de acesso humanamente organizadas – acesso às pessoas e aos seus serviços. Mas as instituições são artefatos de definição. No caso de instituições intencional e formalmente organizadas, isso se torna muito claro, pois as definições relevantes encontram-se explicitadas em constituições, regulamentos e regras. Quando se define o termo “presidente”, está-se a definir presidentes nos termos daquilo que podem fazer e daquilo que lhes é devido por outras instituições, e “aquilo que eles podem fazer” é uma questão do acesso que têm aos serviços dos outros. De modo semelhante, as definições de reitor, estudante, juiz, e polícia classificam padrões de acesso, e as definições de escritor, criança, proprietário e, naturalmente, marido, esposa, e homem e mulher.

Quando mudamos o padrão de acesso, impomos novas utilizações de palavras àqueles/as afetados/as pelas mesmas. O termo “homem” tem de ter uma deslocação de significado quando a violação já não é possível. Quando tomamos controle do acesso sexual a nós próprias, do acesso ao nosso apoio psíquico e à nossa função reprodutiva, acesso ao ser-mãe e ao ser-irmã, redefinimos a palavra “mulher”. A deslocação da utilização da palavra é imposta aos outros por uma mudança na realidade social; não aguarda o seu reconhecimento da nossa autoridade de definir. Quando as mulheres separam (se retiram, se reagrupam, transcendem, empurram para o lado, migram, dizem não), estamos simultaneamente a controlar o acesso e a definir. Somos duplamente insubordinadas, uma vez que nem uma nem outra destas coisas é permitida. E o acesso e a definição são ingredientes fundamentais na alquimia do poder, portanto somos duplamente, e radicalmente insubordinadas.

Assim, se estas são algumas das maneiras em que a separação se encontra no cerne da nossa luta, isso ajuda-nos a explicar porque é que a separação é um tópico tão quente. Se há algo que as mulheres temem é a tomada de poder. Desde que nos fiquemos aquém desse ponto, os patriarcas terão, na maioria dos casos uma atitude indulgente. Temos medo daquilo que nos acontecerá quando realmente os assustarmos. Este não é um medo irracional. É nossa experiência no movimento de mulheres que o elemento defensivo, violento, hostil e irracional da reação ao feminismo tende a corresponder com o grau de ostentação do elemento de separação na estratégia ou projeto que despoleta a reação.

As separações que advêm quando as mulheres deixam casa, casamentos e namorados, separações de fetos, e a separação do lesbianismo são todas bastante dramáticas. Isto é, são dramáticas e ostensivas quando percebidas de dentro da estrutura erigida pela mundivisão patriarcal e pelo parasitismo masculino. Os assuntos ligados ao casamento e ao divórcio, ao lesbianismo, e ao aborto tocam homens individuais (e suas simpatizantes) porque eles sentem a relevância em relação a si próprios desses assuntos – eles sentem a ameaça de que poderão ser os próximos. Assim, a heterossexualidade, o, casamento, e a maternidade, que são as instituições que mais obvia e individualmente mantêm a acessibilidade das mulheres pelos homens formam a tríade central da ideologia anti-feminista, e os espaços, organizações, encontros, aulas exclusivamente para mulheres são ilegalizadas, suprimidas, assediadas, ridicularizadas e punidas, em nome dessa outra bela e duradoura instituição patriarcal, a Igualdade Sexual.

Para algumas de nós estas questões poderão parecer quase alheias… questões estranhas para estarem no centro das atenções. Nós estamos empenhadamente ocupadas naquilo que nos parece as nossas insubordinações ostensivas: vivendo as nossas próprias vidas, tomando conta de nós próprias e de cada uma, fazendo o nosso trabalho, e em particular, dizendo a verdade que vemos. Todavia, o pecado original é a separação que essas atividades pressupõem, e será por elas, não pela nossa arte ou filosofia, não pelos nossos discursos, não pelos nossos “atos sexuais” (ou abstinências), que seremos perseguidas, quando o pior der no pior.

Tradução de Maria Josefina Silva in Lilás nº10, do texto de Marilyn Frye “Some Reflections on Separatism and Power” retirado de Sarah Lucia Hoagland e Julia Penelope (ed.) (1988) For Lesbians Only — A separatist anthology (Para lésbicas apenas — uma antologia separatista), Londres: Onlywomen Press

Fiz alguns ajustes na tradução, pois estava em português de Portugal.

In http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=26646467&tid=2589404081729949244

Comentários desativados.

%d blogueiros gostam disto: