Mulheres só querem direitos e não deveres

Essa é a frase que resume a questão do feminismo para muitos homens e algumas mulheres identificadas com os homens. O problema é que as mulheres não só tem deveres, como mais obrigações do que muitos homens.


Enquanto cidadãs cumpridoras de nossos deveres, pagamos impostos e cumprimos as leis como qualquer um. E por sermos mulheres ainda temos obrigações que só por sermos mulheres, nos são impostas. Por exemplo: ainda hoje o cuidado com os filhos, com os idosos e doentes das famílias recai sobre as mulheres e também todas as tarefas domésticas. Em uma pesquisa se descobriu que o homem brasileiro apóia a ida da mulher para o mercado de trabalho mas apenas 6,1% deles dividem as tarefas domésticas. Alguns declaram que ajudam e isso significa que, de vez em quando, poderão lavar uma louça, trocar uma lâmpada, consertar uma bica vazando ou até arrumar uma cama… Mas isso não é dividir todas as tarefas. Sempre a parte maior e mais pesada fica nos ombros das mulheres.

Outros nos apontam o dedo, acusando-nos de não servirmos o exército e nos aposentarmos mais cedo. Ora, se o serviço militar é tão indesejável para os homens, a ponto deles notarem a nossa ausência, porque ainda não se mobilizaram para acabar com a obrigatoriedade do alistamento? Eu sou contra a obrigatoriedade, e por isso jamais iria reivindicar semelhante coisa para qualquer mulher ou homem. Por outro lado, nunca vi homens reclamando para si a divisão igualitária do serviço doméstico ou o mesmo salário para nós, quando realizamos os mesmos trabalhos que eles. Como acham pouco sermos cumpridoras dos deveres, querem nos impor mais alguns e que continuemos com todas as nossas “obrigações”.

Se nos aposentamos mais cedo, é porque o sistema capitalista patriarcal em que vivemos reconhece que somos exploradas com a jornada tripla de trabalho (profissão + filhos + trabalhos domésticos) e nos dão essa esmola de menos 5 anos para podermos requerer a aposentadoria. Se houvesse divisão igualitária dos trabalhos domésticos, se os governos providenciassem creches, escolas em período integral, cuidadores nas residencias para os doentes e idosos,mesmo salário para a mesma função e etc, não haveria necessidade da mulher se aposentar mais cedo. Ainda hoje muitas meninas, estão sendo exploradas no trabalho doméstico, começando muito cedo a trabalhar em casas de família e muitas vezes sem remuneração digna e até sendo sujeitas a abusos de todo tipo. Em todo mundo, os postos de trabalhos mais vulneráveis às crises são ocupados por mulheres e por isso são as primeiras a perder seus empregos. Enquanto os homens perderam 1,7% das ocupações, as mulheres perderam 3% na última crise econômica.  E não podemos esquecer que se a situação é ruim para as mulheres em geral, se agrava para a mulher negra que sempre sofre mais que todos.

Outros consideram um dever feminino dividir conta de restaurante ou motel. Eu não vejo isso como uma grande questão. Entre pessoas civilizadas pode-se combinar como será dividido ou não uma simples conta. Eu, particularmente acho que quem pode paga e quem não pode, divide, e cada um faz o que dá. Não é uma questão crucial para que homens se sintam tão ofendidos porque uma vez ou outra pagam. E do ponto de vista da mulher, dividir é até mais seguro, porque existem aqueles machistas que acham que por pagar um jantar tem o direito de exigir sexo depois.

Hoje mulheres chefiam sózinhas 35% das famílias brasileiras, ou seja, são mulheres que sustentam com seu trabalho a si e aos membros de suas famílias e ainda tendo que lidar com as mesmas dificuldades e mesmo maiores que as da mulher casada. Ganhamos menos até com mais anos de estudo. Chefiamos apenas 5% das grandes empresas, se temos filhos somos preteridas na hora da contratação e por aí vai um rol de problemas que temos que enfrentar apenas pelo fato de sermos mulheres. Não dá para se comparar a situação da mulher e do homem no sistema patriarcal capitalista em que vivemos, sem perceber que nós mulheres ainda temos muito o que avançar para estarmos em pé de igualdade em todos os setores com os homens. Cumprimos com nossos deveres de cidadã e ainda temos que fazer os malabarismos de sempre para cumprir com as “obrigações”, que não deveriam ser obrigações nossas apenas e sim de ambos, homem e mulher que dividem o mesmo teto.

E antes que alguém venha dizer que as mulheres não tem jornada tripla porque tem empregada, sabemos que é uma minoria que pode pagar. E a empregada não tem quem faça os serviços domésticos em sua casa, então concluímos que a maioria das mulheres está tendo que equilibrar a profissão, com os filhos e a casa. E aquelas que não trabalham fora, estão realizando um serviço monótono, repetitivo, pesado e sem remuneração alguma. Mulheres casadas ou solteiras que trabalham fora, mulheres casadas que não trabalham fora, mulheres solteiras que apenas estudam, todas sem exceção pagam impostos e tem que cumprir seus deveres de cidadã, assim como os homens.

Acho que deu para perceber que essa história de que mulheres só querem direitos e não deveres é só mais um dos mitos que alguns inventam para que o fato real de que ainda estamos em desvantagem em relação a eles não se torne tão evidente e tentativa de desviar nossa percepção do quanto os homens não são solidários para com as mulheres.

E não passa mesmo é de um grande e estrondoso mimimi macho.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Yume
    jul 28, 2012 @ 18:42:14

    “Uma instituição que depende de disciplina e hierarquia, pufff!”

    Bom,é exatamente pela falta destas 2 coisas que estamos estagnadas.Tenho entrado em alguns blogs feminista e só tenho visto reclamações,marchas sem objetivos concretos,a total falta de organização para projetos práticos.Enquanto encararamos estas 2 coisas como algo terrível,ficaremos estagnadas.Até em sociedades matriarcais tinha hierarquia(a matriarca é quem mandava) e disciplina(cooperação entre os membros do clã)leia sobre os Mosuo na China,ou seja,não é exclusividade do exército.portanto acho um tanto tolo feministas ficarem alegando que não precisam ter hierarquia nem disciplina para lutarem seja lá pelo o que for.

    Enquanto ao texto,ele já diz tudo,não há nada aser acrescentado.

  2. Thiago Leal
    mar 02, 2011 @ 13:23:01

    É curioso… eu também já ouvi essa papagaiada de que mulheres só querem direitos e não deveres, lógico. Mas sempre que ouço isso, pergunto “que deveres são esses que as mulheres não têm e que os homens têm?”. Aposentadoria? Isso é piada, e o texto explica bem; cinco anos a menos para obter o direito de aposentadoria é uma esmola, e também uma canalhice: a lei prefere dar essa esmola a tentar fomentar a igualdade de fato entre homens e mulheres. Então, não se considera questão da aposentadoria como um dever a menos da mulher e a mais do homem.

    Ah, tem o serviço militar… certo… ora, que absurdo! Alguém acha mesmo que o alistamento militar, algo que faz homens acordarem cedo umas três vezes na vida, é equiparável a todos os deveres impostos às mulheres? Primeiro que apenas uma parcela muito pouco significativa dos homens é efetivamente chamada a cumprir o dever, ou seja, é de fato convocado. Segundo que esse período de treinamento militar é curtíssimo na vida de um homem que não siga carreira militar (e se seguir, aí é opção, não obrigação); já as mulheres cumprem seus “deveres femininos” pela vida inteira. Então, além do que o texto disse, corretamente, de que nenhum homem deveria pleitear que mulheres também se alistassem, mas sim o fim do alistamento obrigatório (até mesmo a maior potência militar do mundo, os EUA, não têm alistamento obrigatório…), não dá para comparar esse “dever” com os “deveres” da mulher.

    E depois vem o mais curioso: tirando o alistamento (já que a questão da aposentadoria NÃO entra)… qual dever que cumprem os homens e que falta às mulheres cumprir? Qual? Hein? É…

  3. arttemiarktos
    mar 01, 2011 @ 22:38:36

    Eu também sou contra o exército e por consequencia contra o alistamento militar obrigatório. Se alguém quer ser militar que o faça por vocação ou por achar que é uma opção de trabalho e não por obrigação. Eu também divido conta, já paguei em saídas com namorado, já houve quem pagasse pra mim. Então essa questão não precisa ser levada a ferro e fogo, basta combinar como será.
    E muito honrada com a sua presença no meu blog. Sou leitora assídua do seu, embora nunca tenha postado comentário.
    Abraços.

  4. Lola
    mar 01, 2011 @ 21:09:09

    Gostei! É uma boa resposta ao mimimi dos masculinistas. Mas não sou apenas contra a obrigatoriedade do alistamento obrigatório. Sou contra o exército. Por mim, não precisaria existir. Uma instituição que depende de disciplina e hierarquia, pufff!
    E sempre, sempre, sempre dividi a conta num encontro romântico. Até por que sempre tive meu próprio dinheiro.

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