Não há revolução sem teoria

Heleieth Saffioti

Na década de 1970, mas também nos fins da anterior, várias
feministas, especialmente as conhecidas como radicais, prestaram
grande serviço aos então chamados estudos sobre mulher, utilizando
um conceito de patriarcado cuja significação raramente mantinha
qualquer relação com o constructo mental weberiano. Rigorosamente,
muitas delas nem conheciam Weber, exceto de segunda mão, sendo sua
intenção bastante política, ou seja, a de denunciar a dominação
masculina e analisar as relações homem-mulher delas resultantes. Não
se mencionava a exploração que, na opinião da autora deste livro,
constitui uma das faces de um mesmo processo: dominação-exploração
ou exploração-dominação. Quando consta apenas o termo dominação,
suspeita-se de que a visão da sociedade seja tripartite – política,
econômica e social -, isto é, de filiação weberiana.

Por este lado, é possível, sim, estabelecer um nexo entre esta
vertente do pensamento feminista e Weber. Muito mais feministas
francesas cometeram o mesmo erro (COMBES e HAICAULT, 1984), situando
a dominação no campo político e a exploração no terreno econômico. A
hierarquia entre homens e mulheres, com prejuízo para as últimas,
era, então, trazida ao debate, fazendo face à abordagem
funcionalista, que, embora enxergasse as discriminações perpetradas
contra as mulheres, situava seus papéis domésticos e públicos no
mesmo patamar, atribuindo-Ihes igual potencial explicativo. Estudos
sobre família25, notadamente os de Talcott Parsons (1965), cuja
leitura de Weber foi realizada com categorias analíticas
funcionalistas, apresentavam este traço, assim como pesquisas
incidindo diretamente sobre mulheres. Neste último caso, estavam,
entre outros, Chombart de Lauwe (1964) e demais pesquisadores que
colaboraram em sua antologia.

Não foram tão-somente feministas radicais que contestaram esta
abordagem homogeneizadora dos papéis sociais femininos. Juliet
Mitchell, já em 1966, publicava artigo, ancorada em uma leitura
althusseriana de Marx, atribuindo distintos relevos às diferentes
funções das mulheres. Embora, mutatis mutandis26, reafirmasse velha
tese deste pensador, contestava o que, em seu entendimento, era
representado pelo privilégio desfrutado pela produção stricto sensu,
e mesmo lato sensu, no pensamento marxista. Considerava
imprescindível, para a liberação das mulheres, uma profunda mudança
de todas as estruturas das quais elas participam, e uma “unité de
rupture” (p. 30), ou seja, a descoberta, pelo movimento
revolucionário, do elo mais fraco na combinação.

As estruturas por ela discriminadas – produção, reprodução,
socialização e sexualidade -, contrariamente ao procedimento , são
percebidas como apresentando um desenvolvimento desigual, cuja
importância é ressaltada, inclusive para a estratégia de luta.
Mitchell estabeleceu instigantes interlocuçães com a Psicanálise e
com distintas correntes do pensamento marxista. O primeiro diálogo
continua muito vivo até hoje, tendo dado alguns frutos interessantes tanto para a Psicanálise quanto para outras ciências que se debruçam sobre a
questão de gênero. Não se pode afirmar o mesmo com relação à
interlocução estabelecida com o pensamento marxista. Na década de
1970, Hartmann (1979a) publicou artigo em que considerou os
conceitos marxistas sex-blind (cegos para o gênero), opinião que
prosperou e calou ampla e profundamente, fazendo-se presente até os
dias atuais. Nenhum(a) feminista interpelou desta forma o
positivismo e a Sociologia da compreensão, de Weber. E, no entanto,
os conceitos formulados por estas vertentes da Sociologia não
discernem o gênero, ou seja, também são sex-blind. É bem verdade que
o marxismo adquiriu muita evidência, tendo sido um dos pensamentos
dominantes do século xx, ao lado da Psicanálise.

Todavia, não obstante a misoginia de Freud e de muitos de seus
seguidores, não houve este tipo de interpelação de sua teoria. Note-
se – e isto faz a diferença – que o questionamento das categorias
marxistas deu-se no campo epistemológico, enquanto isto não ocorreu
com a Psicanálise. Freud tratou da filogênese27, mas jamais fez
qualquer referência à ontogênese28. Há, certamente, uma componente
ideológica importante nessas interlocuçães, a merecer menção. O
pensamento psicanalítico foi subversivo e conservador, ao passo que
ao marxista não se aplica o segundo termo. Neste sentido, havia
possibilidade de finalizar o enquadramento da Psicanálise no status
quo, por intermédio do que Foucault (1976) chama de edipianização do
agente social, ou seja, de sua sujeição à lei do pai. Um dos grandes
méritos deste último autor foi compreender a historicidade da
sexualidade. Com efeito, o exercício desta não se dá num vácuo
social, mas obedece às normas sociais do momento. Isto não significa
que a sexualidade esteja sempre vinculada à lei do pai. Sociedades
igualitárias do ângulo do gênero não são presididas por esta lei, o
que não equivale a dizer que não haja regras para o exercício da
sexualidade. Certamente, Freud foi, neste particular, o grande
inspirador de Foucault (1976).

Como o marxismo não se presta a cumplicidades com o status quo, as
críticas a ele dirigidas, no passado e no presente, são
superficiais, não atingindo sequer sua epistemologia. Não se conhece
nenhuma abordagem ontológica da obra de Freud, certamente em razão
da ausência de uma ontogênese. É o próprio conteúdo das categorias
do pensamento marxiano, responsáveis pelo processo de conhecimento,
que é posto em xeque. As assim denominadas suspeitas, e até mesmo
recusas veementes, com relação às explicações universais, não
justificam a acusação de que os conceitos marxistas são incapazes de
perceber o gênero. Weber está na base de porção significativa dos
pensadores pós-modernos, sem que seus porta-vozes mais proeminentes,
ou nem tanto, se interroguem a que conduzirá tão extremado
relativismo ou se seus tipos ideais podem ser corretamente
utilizados quando aplicados a situações distintas daquelas com base
nas quais foram formulados.

Grande conhecedora da obra de Weber (1964, 1965), Maria Sylvia de
Carvalho Franco (1972) mostra como o ordenamento dos fenômenos
sociais é feito com princípios a priori, não apenas pelo autor em
questão como também por outros idealistas filiados ao pensamento
kantiano. A autora detecta, no pensador em pauta, a presença de
uma “subjetividade instauradora de significados” como alicerce do
objeto, o que lhe permite afirmar, a respeito da tipologia da
dominação, que o sentido empírico específico das relações de
dominação é produzido pela atividade empírica de uma subjetividade.
Este mesmo sentido define o objeto e constitui a autojustificação por
meio da naturalização das desigualdades.Weber analisa, assim, as
bases da legitimidade recorrendo a fatos sempre redutíveis à
subjetividade, inscrevendo-se a autojustificação como processo pelo
qual se erige em lei universal o conceito subjacente à dominação.
A tradição opera como princípio teórico, constitutivo de uma das
formas de dominação. Tanto o método quanto o objeto encontram seu
sustentáculo no sentido. O rigor da interpretação é assegurado pela
identidade, no que tange à racionalidade, no objeto e no método.
Neste sentido, a ação racional com relação a fins permite a captação
da irracionalidade das ações dela discrepantes. Observam-se, ao lado
de um relativismo praticamente absoluto, outros pecados inaceitáveis
até mesmo para aqueles em cujo pensamento Weber penetrou. Na medida
em que o método e o objeto apresentam a mesma racionalidade, e a
subjetividade instaura sentido, o primeiro ganha primazia: a razão é
coextensiva à sociedade. Isto posto, não é difícil perceber as
dificuldades, ou a impossibilidade, de se utilizarem conceitos
weberianos em outros contextos. Segundo a autora em pauta, as
configurações históricas são únicas em termos conceituais e são
apreensíveis como formações de sentido fechadas sobre si mesmas.
Trata-se de formações não passíveis de fragmentação. Embora a
análise exija a decomposição dos fenômenos, é sempre presidida pelo
sentido, caracterizado por um princípio sintetizado no seio do qual
se situa a lógica substantiva do sistema.

A análise de Franco, que incide sobre o mau emprego dos constructos
mentais weberianos pelos teóricos da modernização, é, sem dúvida, de
alto nível e totalmente pertinente. Em outros termos, os tipos
ideais weberianos não se prestam ao exame de outras realidades
distintas daquelas que lhes deram origem. Efetivamente, o tipo ideal
é construído de maneira a atá-lo à especificidade do contexto social
no qual teve sua gênese. Trata-se de conceitos genéticos. O próprio
Weber define seu esquema de pensamento como um universo não-contraditório de relações pensadas. Como o pensamento opera uma acentuação unilateral de certos aspectos da realidade, os conceitos não correspondem exatamente a esta, sendo, neste sentido, uma utopia. O vínculo do constructo mental com a realidade é resumido pelo próprio autor como uma representação pragmática, elaborada segundo a intuição e a
compreensão, da natureza específica destas relações de acordo com um
tipo ideal.

A máquina do patriarcado

Esta incursão por Franco e por Weber, ainda que ligeira, deixa
patente a não-utilização do conceito weberiano de patriarcado por
parte de feministas29, sejam elas radicais (FIRESTONE, 1972; REED,
1969; KOEDT, LEVINE, RApONE, 1973; MILLETI, 1969, 1970, 1971) ou
marxistas (MILLETT, 1971; REED, 1969; DAWSON et alii, 1971;
EISENSTEIN, 1979; SARGENT, 1981). Certamente, todas as feministas
que diagnosticaram a dominação patriarcal nas sociedades
contemporâneas sabiam, não que os conceitos genéticos de Weber são
intransferíveis, mas que já não se tratava de comunidades nas quais
o poder político estivesse organizado independentemente do Estado3O.
Por que, então, não usar a expressão dominação masculina, como o tem
feito Bourdieu, ou falocracia ou, ainda, androcentrismo, falo-logo-
centrismo? Provavelmente, por numerosas razões, entre as quais cabe
mencionar: este conceito reformulado de patriarcado exprime, de uma
só vez, o que é expresso nos termos logo acima sugeridos, além de
trazer estampada de forma muito clara a força da instituição, ou
seja, de uma máquina bem azeitada, que opera sem cessar e, abrindo
mão de muito rigor, quase automaticamente. Como bem mostra Zhang
Yimou, no filme Lanternas Vermelhas, nem sequer a presença do
patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado,
levando à forca a terceira esposa, pela transgressão cometida contra
a ordem patriarcal de gênero.

Tão-somente recorrendo ao bom senso, presume-se que nenhum(a)
estudioso(a) sério(a) consideraria igual o patriarcado reinante na
Atenas clássica ou na Roma antiga ao que vige nas sociedades urbano-
industriais do Ocidente. Mesmo tomando só o momento atual, o poder
de fogo do patriarcado vigente entre os povos africanos e/ou
muçulmanos é extremamente grande no que tange à subordinação das
mulheres aos homens. Observam-se, por conseguinte, diferenças de
grau no domínio exercido por homens sobre mulheres. A natureza do
fenômeno, entretanto, é a mesma. Apresenta a legitimidade que lhe
atribui sua naturalização.

Por outro lado, como prevalece o pensamento dicotômico, procura-se
demonstrar a universalidade do patriarcado por meio da inexistência
de provas de eventuais sociedades matriarcais. Neste erro, aliás,
não incorrem apenas as pessoas comuns. Feministas radicais também
procederam desta forma. De acordo com a lógica dualista, se há
patriarcado, deve haver matriarcado. A pergunta cabível naquele
momento e ainda hoje é: houve sociedades com igualdade social entre
homens e mulheres? Esta interrogação teria, muito seguramente, dado
outro destino à valorização da importância do conceito de
patriarcado na descrição e na explicação da inferioridade social das
mulheres.

O filme Lanternas vermelhas apresenta imagens e trama reveladoras do
acima expresso. Além de o patriarcado fomentar a guerra entre as
mulheres, funciona como uma engrenagem quase automática, pois pode
ser acionada por qualquer um, inclusive por mulheres. Quando a
quarta esposa, em estado etílico, denuncia a terceira, que estava
com seu amante, à segunda, é esta que faz o flagrante e que toma as
providências para que se cumpra a tradição: assassinato
da “traidora”. O patriarca nem sequer estava presente no palácio no
qual se desenrolaram os fatos. Durante toda a película, não se vê o
rosto deste homem, revelando este fato que Zhang Yimou captou
corretamente esta estrutura hierárquica, que confere aos homens o
direito de dominar as mulheres, independentemente da figura humana
singular investida de poder. Quer se trate de Pedro, João ou Zé
Ninguém, a máquina funciona até mesmo acionada por mulheres. Aliás,
imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado, mulheres
desempenham, com maior ou menor freqüência e com mais ou menos
rudeza, as funções do patriarca, disciplinando filhos e outras
crianças ou adolescentes, segundo a lei do pai. Ainda que não sejam
cúmplices deste regime, colaboram para alimentá-Io.

Também há categorias profissionais cujo papel consiste em enquadrar
(BERTAUX, 1977) seus subordinados neste esquema de
pensar/sentir/agir. Estes três termos representam facetas de uma
unidade: o ser humano. Isto é importante para não se reduzir o
patriarcado a um mero adjetivo de uma ideologia. Não que esta não
tenha um substrato material. Ela o tem e ele assume enorme
importância quando não se opera por categorias dicotômicas,
separando corpo de mente, natureza de cultura, razão de emoção.
Embora haja profundas diferenças entre as três esferas ontológicas –
a inorgânica, a orgânica e o ser social -, uma não prescinde das
demais. Na primeira, não há vida e, por conseguinte, não há
reprodução. Há um processo de transformação de um estado em outro
estado, a rocha tornandose terra, por exemplo. Na segunda, há vida
e, portanto, reprodução. Uma mangueira produzirá sempre mangas,
jamais jacas. Na esfera propriamente social, a consciência
desempenha papel fundamental, permitindo a pré-ideação das
atividades e até, pelo menos parcialmente, a previsão de seus
resultados. Na verdade, as três esferas ontológicas constituem uma
unidade, como bem mostra Lukács (1976-81), sendo irredutíveis uma(s)
à(s) outra(s). O ser social, dotado de consciência, é responsável
pelas transformações da sociedade, permanecendo, entretanto, um ser
natural. A sociedade tem, pois, fundamento biológico.

O pensamento cartesiano separou radicalmente o corpo da psique, a
emoção da razão, gerando verdadeiro impasse. Efetivamente, se a
cultura dispõe de uma enorme capacidade para modelar o corpo, este é
o próprio veículo da transmissão das tradições. Como, entretanto,
restabelecer a unidade do ser humano sem recorrer a uma abordagem
ontológica? Entre as feministas, é extremamente raro este tipo de
aproximação. Whitbeck (1983) tenta, em interessante artigo,
apropriar-se do real em termos de uma ontologia feminista, capaz de
conter – e aí reside sua importância – o diferente e o análogo. Não
procede, contudo, em termos de uma ontogênese, a uma análise das
relações homem-mulher. Duas tentativas de tratar esta questão nestes
moldes foram realizadas, ao que se sabe, no Brasil (SAFFIOTI, 1991,
1997b). É preciso, ainda, trabalhar muito nesta direção, talvez
ligeiramente neste livro, ao analisar o conceito de gênero.

Não se trata de defender a tese de que os estudos sobre mulher(es)
devam ceder espaço, inteiramente, aos estudos de gênero. Há ainda
muita necessidade dos primeiros, na medida em que a atuação das
mulheres sempre foi pouquíssimo registrada e que, por via de
conseqüência, a maior parte de sua história está por ser estudada.
Historiadoras feministas (BRIDENTHAL e KONNZ, 1977; CARROLL, 1976;
FIGES, 1970; FISHER, 1979; GIMBUTAS, 1982; HARTMAN e BANNER, 1974;
JANEWAY, 1971, 1980; LERNER, 1979, 1986; THOMPSON, 1964) têm, é
verdade, realizado esforços nesta direção. Mas há, ainda, um longo
caminho a percorrer. E é absolutamente imprescindível que esta
trajetória seja descrita para que haja empoderamento, não de
mulheres, mas da categoria social por elas constituída. Há uma
tensão entre a experiência histórica contemporânea das mulheres e
sua exclusão dos esquemas de pensamento, que permitem a
interpretação desta experiência. A este fenômeno Lerner (1986) chama
de “a dialética da história das mulheres”.

Além de empoderar a categoria mulheres, e não apenas mulheres, o
conhecimento de sua história permite a apreensão do caráter
histórico do patriarcado. E é imprescindível o reforço permanente da
dimensão histórica da dominação masculina para que se compreenda e
se dimensione adequadamente o patriarcado. Considera-se muito
simplista a alegação de a-historicidade deste conceito. Primeiro,
porque este constructo mental pode, sim, apreender a historicidade
do patriarcado como fenômeno social que é, além do fato de o
conceito ser heurístico. Segundo, porque na base do julgamento do
conceito como a-histórico reside a negação da historicidade do fato
social. Isto equivale a afirmar que por trás desta crítica esconde-
se a presunção de que todas as sociedades do passado remoto, do
passado mais próximo e do momento atual comportaram/comportam a
subordinação das mulheres aos homens. Quem enxerga Weber no
conceito de patriarcado utilizado por feministas na verdade
incorre, no mínimo, em dois erros: 1) não conhece suficientemente
este autor; 2) imputa a estas intelectuais/militantes a ignorância
total de que este regime de relações homem-mulher tenha tido uma
gênese histórica posterior a um outro dele distinto, mas também
hierárquico. Ainda que não se possa aceitar a hipótese de sociedades
matriarcais nem prévias às patriarcais nem a estas posteriores, por
falta de comprovação histórica, há evidências apreciáveis, sobretudo
de natureza arqueológica, de que existiu outra ordem de gênero,
distinta da mantida pela dominação masculina. A fim de se adentrar
este difícil terreno, é preciso que se parta, explicitamente, de um
conceito de patriarcado e de um conceito de gênero. Apelar-se-á, no
momento, para Hartmann (1979), definindo-se patriarcado como um
pacto masculino para garantir a opressão de mulheres. As relações
hierárquicas entre os homens, assim como a solidariedade entre eles
existente, capacitam a categoria constituída por homens a
estabelecer e a manter o controle sobre as mulheres.

Há que se fazerem alguns comentários sobre este conceito de
patriarcado, a fim de aclarar certas nuanças importantes.
Seguramente, este regime ancora-se em uma maneira de os homens
assegurarem, para si mesmos e para seus dependentes, os meios
necessários à produção diária e à reprodução da vida.

Bastaria,presume-se, mencionar a produção da vida, na medida em que
ela inclui a produção antroponômica (BERTAUX, 1977). Há, sem dúvida,
uma economia doméstica, ou domesticamente organizada, que sustenta a
ordem patriarcal. Dentre os diferentes machos há, pelo menos, uma
hierarquia estabelecida com base nas distintas faixas etárias, cada
uma desempenhando suas funções sociais e tendo um certo significado.
A hierarquia apoiada na idade, entretanto, não é suficiente para
impedir a emergência e a manutenção da solidariedade entre os
homens. Tampouco o são, de forma permanente, as contradições
presentes nas classes sociais e no racismo. A interdependência
gerada por estas duas últimas clivagens e a solidariedade entre os
homens autorizam os especialistas a antecipar a determinação, em
maior ou menor grau, do destino das mulheres como categoria social.
Neste regime, as mulheres são objetos da satisfação sexual dos
homens, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas
reprodutoras. Diferentemente dos homens come categoria social, a
sujeição das mulheres, também como grupo. envolve prestação de
serviços sexuais a seus dominadores. Esta soma/mescla de dominação e
exploração é aqui entendida como opressão, discussão a ser retomada
mais adiante. Ou melhor, como não se trata de fenômeno quantitativo,
mas qualitativo, ser explorada e dominada significa uma realidade
nova. Também parece ser este, aproximadamente, o sentido atribuído
por Hartmann ao ambíguo termo opressão, embora ela afirme que as
mulheres são dominadas, exploradas e oprimidas, de forma
sistemática (1979a). Se a palavra oprimidas pode ser agregada às
palavras dominadas e exploradas, isto significa que tem sentido
próprio, independente do significado das outras.

Importante a reter é que a base material do patriarcado não foi
destruída, não obstante os avanços femininos, quer na área
profissional, quer na representação no parlamento brasileiro e
demais postos eletivos políticos. Se na Roma antiga o patriarca
tinha direito de vida e morte sobre sua mulher, hoje o homicídio é
crime capitulado no Código Penal, mas os assassinos gozam de ampla
impunidade. Acrescente-se o tradicional menor acesso das mulheres à
educação adequada à obtenção de um posto de trabalho prestigioso e
bem remunerado. Este fenômeno marginalizou-as de muitas posições no
mercado de trabalho. A exploração chega ao ponto de os salários
médios das trabalhadoras brasileiras serem cerca de 64% (IEGE) dos
rendimentos médios dos trabalhadores brasileiros31 embora, nos dias
atuais, o grau de escolaridade das primeiras seja bem superior ao
dos segundos. Desta sorte, a base econômica do
patriarcado não consiste apenas na intensa discriminação salarial
das trabalhadoras, em sua segregação ocupacional e em sua
marginalização de importantes papéis econômicos e político-
deliberativos, mas também no controle de sua sexualidade e, por
conseguinte, de sua capacidade reprodutiva. Seja para induzir as
mulheres a ter grande número de filhos, seja para convencê-las a
controlar a quantidade de nascimentos e o espaço de tempo entre os
filhos, o controle está sempre em mãos masculinas, embora elementos
femininos possam intermediar e mesmo implementar estes projetos.
Ainda que o conceito de Hartmann apresente inegáveis qualidades, é
necessário se fazerem certos acréscimos. O patriarcado, em presença
de – na verdade, enovelado com – classes sociais e racismo
(SAFFIOTI, 1996), apresenta não apenas uma hierarquia
entre as categorias de sexo, mas traz também, em seu bojo, uma
contradição de interesses. Isto é, a preservação do status quo
consulta os interesses dos homens, ao passo que transformações no
sentido da igualdade social entre homens e mulheres respondem às
aspirações femininas. Não há, pois, possibilidade de se considerarem
os interesses das duas categorias como apenas conflitantes. São, com
efeito, contraditórios. Não basta ampliar o campo de atuação das
mulheres. Em outras palavras, não basta que uma parte das mulheres
ocupe posições econômicas, políticas, religiosas etc.,
tradicionalmente reservadas aos homens. Como já se afirmou, qualquer
que seja a profundidade da dominação-exploração da categoria
mulheres pela dos homens, a natureza do patriarcado continua a
mesma. A contradição não encontra solução neste regime. Ela admite a
superação, o que exige transformações radicais no sentido da
preservação das diferenças e da eliminação das desigualdades, pelas
quais é responsável a sociedade. Já em uma ordem não-patriarcal de
gênero a contradição não está presente. Conflitos podem existir e
para este tipo de fenômeno há solução nas relações sociais de gênero
isentas de hierarquias, sem mudanças cruciais nas relações sociais
mais amplas.

25 Uma coletânea apresentando numerosas abordagens foi organizada
por Arlene S. SKOLNICK e Jerome H. SKOLNICK. (1971) Fami/y In
Transition – Rethinking Marriage, Sexuality, Chi/d Rearing, and
Fami/y Organization. usA/Canadá: Little, Brown & Company Limited.
26 O primeiro a afirmar que o desenvolvimento de uma sociedade se
mede pela condição da mulher foi o socialista utópico Charfes
Fourier, encampado posteriormente por Marx e, sobretudo, por Engels.
27 Filogênese significa o desenvolvimento, no caso do ser humano.
28 A ontogênese é exatamente a busca das origens do ser. Para Freud,
do ser humano. A ontologia busca compreender a natureza e a gênese,
a origem, para Marx, do ser social, ou seja, da sociedade. É isto
que Freud não faz.
29 Citam-se apenas algumas. Há feministas que entram em duas
categorias. Às vezes, como é o caso de Sargent, organizadora da
coletânea citada, trata-se de várias autoras com posições
metodológicas distintas e, inclusive, opostas. A classificação usada
é, portanto, precária. Todas, porém, utilizam o conceito de
patriarcado. Dispensa-se, aqui, a citação de Marx e Engels, cujo uso
do referido conceito é notório.
30 MEILLASSOUX, Claude (1975), mostra bem este fenômeno, analisando
comunidades domésticas.
31 Em outubro de 2001, quando foram coligidos os dados, pela
Fundação Perseu Abramo, da pesquisa “A mulher brasileira nos espaços
público e privado”, a situação era a seguinte: famílias recebendo
até 2 salários mínimos = 42% (então, 360 reais); mais de 2 a 5 =
34%; mais de 5 a 10 = 12%; mais de 10 a 20 = 6%; e acima de 20 SM
(3.600 reais), tão¬somente 2%.
32 A rigor, embora não haja formulado o conceito de gênero, Simone
de Beauvoir mostra que só lhe faltava a palavra, pois, em sua famosa
frase – “Ninguém nasce mulher, mas se toma mulher” – estão os
fundamentos do conceito de gênero. Lutando contra o essencialismo
biológico – “A anatomia é o destino” -, enveredou pela ação da
sociedade na transfor¬mação do bebê em mulher ou em homem. Foi, por
conseguinte, a precur¬sora do conceito de gênero (SAFFIOn, 1999b).”

Heleieth Saffioti– Gênero, Patriarcado e Violência.

http://migre.me/4a2zV

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