O corpo da mulher gera lucros

A indústria farmacêutica não para de inventar meios de ganhar dinheiro com o corpo feminino, seja criando disfunções que não existem, seja tratando como doença os processos naturais do corpo da mulher.

Nossos ciclos são avaliados e diagnosticados como sendo errados, ruins, um incômodo, uma doença que exigem um tratamento, segundo alguns, por toda a vida. Médicos tem recomendado tratamentos hormonais até em meninas pré-puberes para que retardando a primeira menstruação, elas cresçam mais. É claro que esse absurdo não é uma prática de todos, mas alguns médicos, principalmente os que tem acesso facilitado nos meios de comunicação tem recomendado aos pais que mediquem suas filhas para que cresçam mais. A altura média da brasileira está entre 1,60 e 1,65cm, por que forçar a natureza para acrescentar mais alguns centímetros? Isso as torna melhores em quê? A maior ou menor altura desempenha papel importante no futuro escolar, profissional ou afetivo da mulher? Só se os pais estão pretendendo direcionar a vida das filhas para a carreira de modelo ou atleta, mas isso não se justifica, uma vez que não cabe aos pais forçar a criança a realizar seus sonhos de fama e sucesso. Médicos que pregam esse tipo de coisa são inescrupulosos e estão criando uma necessidade para lucrar com a solução de algo que deveria ser deixado seguindo seu rumo natural.

A farmacêutica Libbs, está lançando uma campanha para convencer as mulheres a suprimir sua menstruação. Se isso já não fosse um completo absurdo, afinal um laboratório não tem que propor esse tipo de coisa, ainda se torna mais reprovável por ser parte interessadíssima na venda de drogas. Não há preocupação com a saúde da mulher, mas sim com a possibilidade  do que o controle do ciclo menstrual vai proporcionar.

A menstruação sempre foi tratada no patriarcado como um demérito da mulher, algo de que nós devemos nos envergonhar. Escreveu Rosalind Miles: “Os tabus relacionados à menstruação, significavam que durante um quarto de suas vidas adultas, uma semana a cada quatro, as mulheres dos tempos antigos eram regularmente estigmatizadas e isoladas, consideradas incapazes e barradas da vida na sociedade”.

Hoje a medicina patriarcal se aproveita dos mesmos mitos e cria outros, embora não tendo mais o poder de nos isolar fisicamente do convívio social, nos isolam ao nos estigmatizar como sendo portadoras de um processo físico que nos torna inferiores e passíveis de sermos consertadas por essa mesma medicina. Nosso ciclo menstrual é sistematicamente atacado na mídia e a TPM é propagada como algo que nos torna a todas insanas, quando na verdade cerca 40% das mulheres tem sintomas leves ou mais intensos dela. E é claro, a solução para esse “defeito” constitucional nosso é a supressão da menstruação.

E como não podia deixar de ser, nem a menopausa escapa. A TPH (terapia de reposição hormonal) é amplamente recomendada para combater os tais males femininos e até como uma solução para o envelhecimento. Não se leva em consideração que assim como medicar os sintomas da TPM, tratar sintomas da menopausa é só para quem precisa. No mamablog li um texto esclarecedor sobre isso. Drogas são sempre drogas e só devem ser usadas em caso de absoluta necessidade e sempre se levando em conta de que cada mulher é única.

Mas os absurdos do capitalismo estão aí mesmo, pois laboratórios e médicos tratam mulheres como cobaias e geradoras de lucros em potencial e não nos respeitam enquanto seres humanos. Imagine começar a ministrar drogas na puberdade e seguir com isso até _quem sabe?_ a morte da mulher. Garantem décadas de vendas. Sua única preocupação é nos convencer que o melhor que podemos fazer com nosso corpo, mesmo que nos prejudique no futuro, é entupi-lo com seus medicamentos prescritos enquanto eles se locupletam nos lucros.

Para que não nos tornemos alvo fácil dessa exploração, a informação é o melhor remédio. E devemos usá-la indiscriminadamente, pois só sabendo dos riscos e da nossa real necessidade é que devemos nos submeter a qualquer tratamento, seja ele para que for.

Texto relacionado:

O Corpo Feminino Como Objeto médico e Mediático

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. yume
    jun 24, 2011 @ 19:24:33

    vc tem este livro da Rosalind Miles em pdf para compartilhar conosco?Quais são os livros que vc ainda tem? pelo o que vi,o esnips foi pelo ralo,não consigo nem mais logar naquela joça >.<!

  2. Danielle Sales
    jun 10, 2011 @ 16:24:36

    E o pior é que, quando nos posicionamos a favor de nossos ciclos em meios públicos, como em alguns sites que veiculam informações a favor da menstruação, os comentários das pessoas (inclusive mulheres) são os piores possíveis!

    • arttemiarktos
      jun 10, 2011 @ 22:28:56

      É verdade. Mas por isso mesmo, temos que esclarecer que a menstruação não é um estigma para a mulher e sim um processo natural e que não podemos aceitar que manipulem nossos ciclos e nossa saúde pelo lucro.

%d blogueiros gostam disto: