Os dilemas da mulher numa cultura patriarcal na visão de uma menina somali _ Mutilação Genital Feminina


– Virginia Lee Barnes, antropóloga americana, morreu em 1990, antes de terminar o trabalho que daria origem a Aman.
– Janice Boddy é professora-adjunta de Antropologia na Universidade de Toronto.

Seu primeiro livro, “Wombs and Alien Spirit” foi recomendado para o prêmio Governor General.

Capítulo 5 O dia da circuncisão de Aman

“…Convidaram todo mundo.Mataram um boi, duas cabras e um carneiro, e cozinharam a noite toda.

Na manhã seguinte mamãe foi tirar leite das vacas. Minhas tias e suas amigas haviam passado a noite em nossas casas, e tinham acordado cedo para fazer chá, café, e um grande café da manhã para para toda essa gente que haviam convidado.

Foi quando me acordaram. Estavam dando banho nas minhas primas e me mandaram tomar banho também. Perguntei por que e elas me perguntaram se eu também queria ser circuncidada. Eu disse sim, queria – todas as meninas da minha idade queriam, porque é uma vergonha não fazer – mas tinha medo. e além disso minha mãe não queria que fosse naquele dia.

Elas falaram comigo com jeitinho e me avisaram que seria feito quer eu gostasse ou não, portanto eu deveria ser boazinha, tomar meu banho e voltar…

…Disseram que não haveria dor e que tinhamos de ser boazinhas, e que nos dariam muito ouro e muito dinheiro, e que aquela que seria melhor ganharia mais. Você sabe, estavam nos enganando. Mas falavam principalmente para mim, porque eu seria a primeira – pois tinha 9 anos, era a mais velha. Então eu disse que estava tudo bem. Do lado de fora as mulheres e crianças estavam cantando e dançando.

A circuncisão é feita do lado de fora da casa, com muito canto e as mulheres batendo palmas, para que ninguém ouça os gritos.

Elas faziam “lululululululu” e cantavam o nome de meu pai e da minha linhagem, dizendo que eram os melhores.

Eu fiquei tão orgulhosa ao ouvir aquilo! Então eu disse a mim mesma: “é, por que não?”

Elas colocavam ouro e dinheiro sobre mim, e me levaram para fora, debaixo de uma das grandes árvore do quintal.

Havia uma mulher forte que segurava as garotas enquanto eram circuncidadas. Ela se sentava num banquinho baixo. Havia outra mulher bem alta, magra e negra, chamada Fátima, que fazia a circuncisão.

A mulher grande me agarrou pela mão e me segurou, e eu disse a ela: “você não precisa me segurar forte, não vou fugir”.

E ela disse: “ah, você é uma boa menina! Nunca vi uma como você. Você é uma grande garotinha, não é? É, sim. Tem certeza que não vai fugir?” Eu respondi: “tenho, e não vou chorar também, e você não vai me amarrar” – eu sabia que elas costumavam amarrar as pernas das meninas. Ela me fez sentar no chão, sobre um pouco de grama seca que tinha colocado ali. Disse-me para tirar o pano que vestia. Sentou-se no banquinho e abriu as pernas, colocando-me no chão com as costas viradas para ela e minhas pernas próximas ás dela. Normalmente ela amarraria as pernas da menina junto ás dela, e quando abrisse as pernas, as da menina se abririam também; além disso, seguraria os braços da menina para que ela não se movesse. Mas eu disse que não precisaria me amarrar, porque queria que todos tivessem orgulho de mim. Se me amarrasse, seria sinal de que eu estava com medo, e eu não queria que fosse assim. Ela confiou em mim, de verdade. Não me amarrou, mas prendeu minhas pernas com as suas e apenas me segurou, para que eu não pulasse.

Fiquei ali sentada e ela me disse o que iria acontecer. “não é nada demais; não dói tanto assim”, ela disse, e me pediu para ser forte como eu havia prometido: “não decepcione a sua família. Não decepcione a si mesma. Se chorar hoje, amanhã as crianças vão rir de você”. Eu repeti que não iria chorar, que seria forte. E fui.

Ela colocou um pequeno recipiente branco com cinzas de carvão na minha frente, entre as minhas pernas. E depois a outra mulher, Fátima – era uma mulher muito bonita – veio na minha direção. Disse-me o seu nome e o quanto estava calma. Falava comigo com delicadeza para que eu não sentisse dor. Disse que se eu fosse ruim, ela também poderia ser ruim – e enquanto falava comigo assim, tirava as facas e os outros instrumentos e os limpava. Depois pegou um pouco das cinzas entre o polegar e o indicador e começou a brincar com meu clitóris, puxando-o para que se tornasse maior, e continuava falando, e eu respondendo e fazendo perguntas – quando ela iria fazer aquilo? – e ela me respondia, embora estivesse mentindo. Depois de tudo pronto, ela me mandou fechar os olhos. Eu perguntei: “é só isso?” E ela disse: “é só isso, é só isso, não vai demorar nem um segundo. Feche os olhos. Quando você abrir, a dor e seu clitóris terão indo embora”. E eu disse: “está bem!”

Então ela pegou a faca – uma pequena faca, com um gancho na ponta. Puxou meu clitóris com mais força, e aí eu virei o rosto e disse para a outra mulher: “abrace-me forte”, e cerrei os dentes. Então, meu Deus, Rahima, tudo aconteceu. Meu corpo foi cortado num segundo, do jeito que Fátima havia dito. Eu pude ouvir um shhhh…como o som de que quando se corta carne. Foi assim que cortaram o meu corpo. Ela cortou tudo – não os grandes lábios, mas cortou o meu clitóris e os dois pequenos lábios, que eram haram (impuros); tudo foi cortado como se se tratasse de um simples pedaço de carne. Minha nossa, Rahima! Eu pensei que fosse morrer. Abri os olhos e olhei para baixo, e o sangue estava jorrando. Uma parte de onde ela havia retirado a carne sangrava muito, e a outra parte estava branca.

Rahima, meu Deus, aquilo era só o começo. Perguntei se havia terminado , e ela disse que não, que iria fazer de novo, e disse outra vez: “só vai levar um minuto”, e eu acreditei.

E todos que assistiam jogavam ouro e dinheiro sobre mim – nas minhas pernas, na cabeça – e cantavam.

Toda vez que eu queria chorar, olhava em volta para ver se alguém me ajudaria, mas só via sorrisos, então ficava constrangida, abria a boca e fingia rir, mas por dentro estava morrendo.

Ela cortou as bordas dos grandes lábios, e depois, com espinhos parecidos com agulhas, costurou sobre a vagina para fechá-las. Colocou sete espinhos, e cada vez que colocava um, ela o apertava com um fio. Ao terminar, colocou uma pasta negra para cessar o sangramento e apressar a cicatrização, e depois gema de ovo para refrescar. Embrulharam as minhas pernas com um pedaço de pano, do tornozelo aos quadrís, vestiram-me novamente e me carregaram para um quarto que tinham preparado para nós. O mesmo foi feito com as outras garotas.

Eu fiquei doente e tive febre. E quando urinava, parecia que ia morrer. Queimava como fogo, como álcool derramado sobre um ferimento aberto. A urina era quente, e eu gritava de dor. Elas tiveram de me cobrir; meus dentes batiam e meu corpo todo tremia quando minha mãe chegou.

…Os espinhos ficaram em mim por três dias, quando a mulher que fez a circuncisão voltou para retirá-los. Todo esse tempo as suas pernas ficam amarradas, mesmo quando vc urina. Você não toma muito líquido para não precisar urinar muito. Também não come quase nada, para não precisar fazer cocô; elas lhes dão apenas sopa de legumes e pão seco, porque querem que seu corpo fique seco rapidamente. Quanto mais líquido você bebe, mais faz xixi e mais o lugar da operação fica molhado, e elas querem evitar isso. Toda vez que você faz xixi arde muito, então elas jogam água morna com sal sobre os genitais enquanto você está fazendo xixi. O sal é desinfetante, e a água morna ameniza a dor. Depois que vc faz xixi, elas secam a ferida e levam você lá pra fora. Lá fora no daash, elas cavam um buraco no chão e enchem de carvão incandescente coberto com cinzas. Colocam incenso sobre ele e fazem você sentar sobre o buraco, apoiada numa mulher sentada num banquinho. A fumaça com o incenso faz você cheirar bem, e o calor faz o ferimento secar. Depos de fazer isso por três dias, de manhã, á tarde e todas as vezes que fizer xixi, você fica curada.

Quando a mulher que fez a operação volta para tirar os espinhos, ela examina a circuncisão para ver se o buraco ficou pequeno ou grande. Ela pega um palito do tamanho de um palito de dente e o introduz em você. Se o seu buraco fou muito mais largo do que um palito de dente – talvez porque você tenha feito xixi rápido demais – ela dá mais um ponto com espinho para fechar novamente. Se não, se o buraco estiver bom, você só descansa por mais sete dias com as pernas amarradas, porém um pouco mais soltas. Elas lhe dão uma bengala, então você anda devagar e senta devagar e deita com as pernas amarradas. Em seis ou sete dias você já está boa e pode ir aonde quiser.

Eu fiquei boa em sete dias, mas uma das meninas que foi circuncidada comigo – aquela que tinha quase a minha idade – teve de fazer tudo de novo, pois quando fez xixi pela primeira vez sentiu muita dor, e não fez mais xixi por três dias. Aí, quando a mulher veio para tirar os pontos, ela fez cocô e xixi tudo ao mesmo tempo, e isso fez o buraco abrir todo. Fátima teve de dar pontos de novo – a menina sofreu mais e teve de ficar em casa quase um mês.

O motivo de ás vezes se precisar dar aquele ponto extra é que, quando você se casa, seu marido pode saber se você é virgem. Se ele vir que você tem um buraco um pouco maior, vai pensar que você andou aprontando. Assim, as mulheres – sua mãe e as mulheres que fazem a circuncisão – têm de garantir que o seu buraco tenha o tamanho certo. É por isso que dão todos aqueles pontos e costuram tudo.

…Uma menina costurada não vai se divertir por aí, pois tem medo da dor e de que a família descubra quando a examinar – o que é feito todas as semanas.

Recebi por e-mail esse texto e não tenho o link. Mas é um relato impactante da violência, que ainda hoje muitas meninas sofrem no mundo, pelo simples fato de terem nascidos mulheres.

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Já dissemos que no Dia Internacional de Luta da Mulher, dispensamos a rosa


Se querem mesmo nos homenagear, deveriam saber que a melhor homenagem no dia da mulher é:

  •  mesmo salário pelo mesmo trabalho;
  • creches e escolas em período integral;
  • maior representatividade na política e nos partidos;
  • fim da criminalização do aborto, pelos direitos reprodutivos;
  • melhoria no atendimento às grávidas nos hospitais públicos e privados;
  • mais abrigos e delegacias especializadas no atendimento a mulher vítima da violência;
  • em julgamentos de estupro, a vítima deixar de ser culpabilizada;
  • publicidade e mídia deixando de tratar mulher como objeto sexual ou do lar;
  • mulheres não sendo preteridas em altos cargos em empresas públicas ou privadas;
  • mulheres se sentirem seguras e respeitadas em todos os ambientes;
  • mulheres cientistas sendo tão valorizadas quanto os cientistas;
  • mulheres cineastas, redatoras, escritoras, diretoras, atrizes tendo a mesma visibilidade;
  • a opinião das mulheres especialistas sendo tão requisitada quanto a dos homens em política, economia etc nos meios de comunicação;
  • homens tomando posse da sua parte nos serviços domésticos;
  • homens dividindo os cuidados com os filhos;
  • fim da exploração sexual de mulheres na prostituição e pornografia;
  • combate efetivo ao tráfico de seres humanos e turismo sexual; 
    A melhor homenagem: respeito e igualdade.

No Dia Internacional da Mulher, dispensamos rosas e parabéns, nossa luta continua.

Algumas Reflexões sobre o Separatismo e o Poder


Marilyn Frye

Tenho estado a tentar escrever algo sobre o separatismo quase desde o principiar da minha consciência feminista; contudo tal sempre foi para mim de alguma forma um assunto difícil, o qual, logo que o tentava agarrar, suavemente se esvaía tomando a forma de outros assuntos tais como a sexualidade, o ódio-aos-homens, a chamada discriminação inversa, o utopismo apocalíptico, etc.

Na minha vida e dentro do feminismo tal como o compreendo, o separatismo não é uma teoria ou uma doutrina, nem uma exigência de certos comportamentos específicos por parte das feministas, embora esteja inegavelmente ligado ao lesbianismo. O feminismo parece-me ser caleidoscópico – algo cujas formas, estruturas e padrões se alteram com cada movimento da criatividade feminista; e um elemento que se encontra presente através de todas as mudanças é um elemento de separação. Este elemento tem diferentes papéis e relações em diferentes movimentos do espelho – esse elemento assume sentidos diferentes, torna-se diferentemente conspícuo, diferentemente determinado ou determinante, dependendo de como os pedaços caem e quem está a observar.

O tema da separação, nas suas variações múltiplas, está presente em tudo desde o divórcio às comunidades exclusivas de separatistas lésbicas, desde os abrigos para mulheres espancadas a círculos de bruxas, desde os programas de Estudos sobre as Mulheres aos bares de mulheres, desde a expansão de centros de cuidados à infância ao aborto livre e dependente da vontade das mulheres. A presença deste tema é vigorosamente obscurecida, trivializada, mistificada e totalmente negada por muitas apologistas feministas, que parecem achá-lo tema embaraçoso, enquanto que é aceito, explorado, expandido e ramificado pela maioria das teóricas e ativistas mais inspiradoras. O tema da separação está visivelmente ausente ou severamente limitado da maioria das coisas que eu entendo como sendo soluções pessoais e projetos penso-rápido, tal como a legalização da prostituição, contratos de casamento liberais, a melhoria do tratamento de vítimas de violação e ação afirmativa. A natureza antagônica da assimilação e do separatismo parece-me ser uma das principais coisas que guia ou determina a avaliação de várias teorias, ações e práticas como sendo reformistas ou radicais, como indo à raiz da questão ou sendo relativamente superficial. Assim a minha questão é esta: O que contém a separação, em qualquer ou todas as suas muitas formas e graus, que a torna tão basilar e tão sinistra, tão excitante e tão repelente?

A separação feminista é, como se sabe, uma separação de vários graus os modos dos homens e das instituições, relacionamentos, papéis e atividades que são definidas-pelos-homens, dominadas-pelos-homens e que operam para o benefício dos machos e a manutenção do privilégio macho – sendo que esta separação é iniciada ou mantida, de acordo com a sua vontade, por mulheres (O separatismo masculinista é a segregação parcial das mulheres dos homens e dos domínios machos pela vontade dos homens. Esta diferença é crucial.). A separação feminista pode assumir várias formas. O terminar ou evitar relações íntimas ou de trabalho, proibir alguém de entrar na sua casa; excluindo alguém da sua companhia, ou da sua reunião; retirar-se da participação nalguma atividade ou instituição, ou evitar essa participação; evitar a comunicação e a influência vindas de certos quadrantes (não ouvir músicas com letras sexistas, não ver televisão); recusar empenho ou apoio; rejeitar ou ser malcriada para com indivíduos ofensivos. Algumas separações são subtis realinhamentos de identificação, prioridades e empenhos, ou o trabalho com agendas/programas que apenas por acaso coincidem com as agendas/programas da instituição para a qual se trabalha. A cessação da lealdade para com algo ou alguém é uma separação; e a cessação do amor. As separações da feminista são rarissimamente procuradas ou mantidas diretamente como finalidades últimas, pessoais ou políticas. O que de tal mais se aproxima, penso, é a separação que representa a repulsa instintiva e auto-perservante da misoginia sistemática que nos rodeia.

Geralmente as separações ocorrem e são mantidas com vista a alguma outra coisa tal como a independência, a liberdade, o crescimento, a invenção, a irmandade, a segurança, a saúde, ou a prática de costumes novos ou hereges. Frequentemente as separações em questão evoluem, sem premeditação, à medida que seguimos o nosso caminho e achamos que várias pessoas, instituições, ou relacionamentos são inúteis, obstrucionistas ou incomodativos, e os pomos de lado ou os deixamos para trás. Por vezes, as separações são planeadas conscientemente e cultivadas enquanto pre requisitos ou condições necessários para dar continuidade aos nossos assuntos. Por vezes, as separações são conseguidas ou mantidas facilmente, ou com um sentimento de alívio, ou mesmo de alegria; por vezes, são conseguidas ou mantidas com dificuldade, à custa de vigilância constante ou com ansiedade, dor ou desgosto.

A maioria das feministas, provavelmente todas, praticam alguma separação dos machos e das instituições por eles dominadas. Uma separatista pratica a separação conscientemente, sistematicamente, e provavelmente de uma maneira mais geral do que as outras, e advoga a completa separação como parte da estratégia consciente da libertação. E, contrariamente à imagem da separatista como covarde escapista, a vida desta é a vida e o programa que inspira a maior hostilidade, depreciação, insulto e confrontação, e geralmente ela é aquela contra quem as sanções econômicas operam mais concludentemente.

A penalização pela recusa de trabalhar com ou para os homens costuma ser a fome (ou no mínimo, viver sem assistência médica); e se a nossa política de não-cooperação é mais subtil, o nosso meio de subsistência está constantemente ameaçado, uma vez que não somos uma leal partidária, um membro adequado da equipe, ou seja, o que for. As penalidades reservadas à lésbica são o ostracismo, o assédio, e a insegurança de emprego ou o desemprego. A penalização reservada à rejeição dos avanços sexuais dos homens é frequentemente a violação, e talvez ainda mais frequentemente, a perda de coisas tais como oportunidades profissionais ou no emprego. E a separatista vive com o peso adicional de ser tomada por muitos como uma preconceituosa moralmente depravada que odeia homens. Mas aqui encontramos uma pista: se estamos a fazer algo tão rigorosamente proibido pelos patriarcas, devemos estar a fazer algo de certo.

Há uma idéia a flutuar, quer na literatura feminista, quer na anti-feminista, segundo a qual as mulheres e os homens vivem numa relação de parasitismo, um parasitismo do homem sobre a mulher… que é, regra geral, a força, energia, inspiração e apoio psíquico das mulheres que mantém os homens em atividade, e não a força, agressão, espiritualidade e caça dos homens que mantêm as mulheres em atividade.

Por vezes diz-se que o parasitismo é contrário, que a mulher é a parasita. Mas só se consegue imaginar a aparência da mulher como parasita se se tiver uma visão muito estreita da vivência humana – historicamente provinciana, estreita em relação à classe e à raça, e limitada na concepção daquilo que são os bens necessários. Geralmente, o contributo da mulher para o seu bem estar material é e sempre foi substancial; em muitas épocas e lugares tem sido independentemente suficiente.

Podemos e devemos distinguir entre uma dependência material parcial e contingente criada por uma certa economia de dinheiro e estrutura de classe, e a quase ubíqua dependência espiritual, emocional e material dos homens face às mulheres. Presentemente, os homens providenciam, umas vezes sim outras vezes não, uma parcela do apoio material das mulheres, em circunstâncias aparentemente feitas para tornar difícil às mulheres o providenciar por si próprias. Mas as mulheres providenciam e geralmente têm providenciado aos homens a energia e o espírito necessários à vida; os homens são apoiados psiquicamente pelas mulheres. E isto é algo que os homens, ao que parece, não podem fazer por si próprios, nem parcialmente.

O parasitismo dos homens face às mulheres é demonstrado pelo pânico, raiva e histeria gerados em tantos deles só de pensarem que vão ser abandonados pelas mulheres. (…)

Se é verdade que um aspecto fundamental das relações entre os sexos é o parasitismo masculino, tal poderá ajudar a explicar por que é que certas questões são particularmente excitantes para os supremacistas patriarcais. Por exemplo, dadas as óbvias vantagens do aborto facilitado para o controle populacional e diminuição dos custos da segurança social, e para assegurar o acesso sexual dos homens às mulheres, é um pouco surpreendente que os supremacistas se lhe oponham tão inabalavelmente. Mas vejamos…

O feto vive parasiticamente. É um animal distinto que vive da vida (o sangue) de outra criatura animal. É incapaz de sobreviver por si próprio, de nutrição independente; é incapaz mesmo de simbiose. Se é verdade que os homens vivem parasiticamente das mulheres, parece razoável supor que muitos deles e daquelas que lhes são leais são de alguma forma sensíveis ao paralelo entre a sua situação e a do feto. Poderiam facilmente identificar-se com o feto.

A mulher que se sente livre para ver o feto como um parasita poder-se-á sentir livre para ver o homem como parasita. A vontade da mulher em cortar a linha-de-vida a um parasita sugere uma vontade de cortar a linha-de-vida a outro parasita. A mulher que é capaz (legal, psicológica e fisicamente) de rejeitar um dos parasitas decisivamente, no seu próprio interesse, independentemente, é capaz de rejeitar, com a mesma decisão e independência, o fardo semelhante do outro parasita. Os olhos do outro parasita, a imagem do aborto inteiramente decidido pela mulher, sem sequer uma submissão ritual ao poder masculino do veto, é a imagem especular da morte. (…)

Há outros motivos que levam os supremacistas patriarcais a sentirem-se perturbados pelo aborto segundo a decisão da mulher, sendo um dos principais que tal se tornaria um modo significativo de controle das mulheres sobre a reprodução, e pelo menos visto de certos ângulos, parece que o progresso do patriarcado é o progresso em direção ao controle masculino da reprodução, começando com a propriedade de mulheres e continuando através da invenção da obstetrícia e a tecnologia de gestação extra-uterina. Desistir desse controle seria desistir do patriarcado. A histeria em torno do aborto explica-se em termos de um pressentimento muito imediato e pessoal de rejeição do útero-mulher.

Estou a discutir o aborto porque me parece ser o campo mais publicamente emocional e mais fisicamente dramático onde atualmente se joga o tema da separação e do parasitismo masculino. Mas há outros campos. Por exemplo, as mulheres que recentemente assumiram uma nova visão da sua realidade tendem a deixar casamentos e famílias, quer completamente através do divórcio, quer parcialmente, negando os seus serviços domésticos e sexuais. Muitas mulheres que estão a acordar tornam-se celibatárias ou lésbicas, e as outras tornam-se muito mais exigentes na escolha de quando, onde e em que relacionamentos terão sexo com homens.

E os homens afetados por estas separações geralmente reagem com hostilidade defensiva, ansiedade, e culpabilização da mulher, para não falar quando descem ao nível de argumentos ilógicos que equivalem e excedem as suas próprias imagens fantasiosas da irracionalidade das mulheres. O meu argumento é que eles têm muito medo porque dependem em demasia dos bens que recebem das mulheres, e estas separações negam-lhes acesso a esses bens.

O parasitismo masculino significa que os homens têm de ter acesso às mulheres; é o Imperativo Patriarcal. Mas o dizer-não feminista é mais do que uma remoção (re-direção, re-colocação) substancial de bens e serviços porque o Acesso é uma das faces do Poder. A negação das mulheres ao acesso masculino às mulheres corta substancialmente uma série de benefícios, mas tem também a forma e o pleno portento do assumir do poder.

As diferenças de poder manifestam-se sempre em acesso assimétrico. O presidente da república tem acesso a quase todos para qualquer coisa que possa querer deles, e quase ninguém tem acesso a ele. Os super-ricos têm acesso a quase todos; quase ninguém tem acesso a eles. Os recursos do empregado estão à disposição do patrão de uma forma que os recursos do patrão não são acessíveis ao empregado. O pai e a mãe têm incondicional acesso ao quarto da criança; a criança não tem esse acesso ao quarto dos pais. A criança não tem licença para mentir; o pai e a mãe têm a liberdade de excluir a criança com as mentiras que lhes apetecer. O escravo é incondicionalmente acessíveis ao senhor. O poder total é o acesso incondicional; a impotência total é ser incondicionalmente acessível. A criação e manipulação do poder constitui-se pela manipulação e controle do acesso.

Os grupos, encontros, projetos exclusivamente de mulheres parecem feitos para causar controvérsia e confrontos. Muitas mulheres ofendem-se com eles; muitas têm medo de ser aquela que anuncia a exclusão dos homens; é visto com um instrumento cuja utilização carece de muita justificação complicada. Penso que isto é porque a exclusão consciente e deliberada dos homens pelas mulheres, seja do que for, é insubordinação aberta, e gera nas mulheres um medo do castigo e da represália (medo frequentemente justificado). A nossa própria timidez e desejo de evitar confrontos geralmente impede-nos de ter muito a ver com grupo e encontros exclusivamente para mulheres. (…) O encontro para mulheres exclusivamente é um desafio fundamental à estrutura do poder. É sempre privilégio do senhor entrar na cabana do escravo. O escravo que resolve excluir o senhor da sua cabana está a declarar-se não-escravo. A exclusão dos homens do encontro de mulheres não só lhes retira certos benefícios (sem os quais poderiam sobreviver); é um controle pelo acesso, daí um assumir de poder. Não é apenas mesquinho, é arrogante.

Torna-se agora claro porque há sempre uma aura de negatividade em torno do separatismo – uma aura que ofende a Pollyanna em cada uma de nós e que soa a uma atitude puramente defensiva àquilo que há de teórica política que há em nós. É o seguinte: Primeiro, quando aqueles que controlam o acesso nos tornaram totalmente acessíveis, o nosso primeiro ato de tomada de controle tem de ser a negação do acesso, ou tem de ter como um dos seus aspectos a negação do acesso. Isto não se dá porque estamos carregadas de negatividade (não-feminina ou politicamente incorreta); trata-se da lógica da situação. Quando começamos de uma posição de total acessibilidade tem de haver um aspecto de dizer-não, que é o princípio do controle, em cada ato ou estratégia efetiva, sendo os atos e as estratégias efetivos precisamente aqueles que deslocam o poder, isto é, atos e estratégias que envolvem a manipulação e o controle do acesso. Segundo: quer digamos “não” ou não, ou negamos ou rejeitamos, nesta ou noutra ocasião, a capacidade de dizer “não” (efetivamente) é logicamente necessária ao controle. Quando estamos em controle do acesso a nós próprias haverá algum dizer-não, e quando estivermos mais acostumadas, quando for mais comum, uma parte vulgar da vida, não parecerá tão óbvio ou esforçado… não pareceremos a nós próprias ou aos outros como sendo particularmente negativas. Neste aspecto de nós próprias e das nossas vidas, parecermos aos nossos próprios olhos agradavelmente, como seres ativos com movimento próprio, com suficiente forma e estrutura, com suficiente integridade para gerar fricção. A nossa experiência de dizer-não será um aspecto da nossa experiência, da nossa definição.

Quando os nossos atos ou práticas feministas têm um aspecto de separação estamos a adquirir poder por meio do controle do acesso, e simultaneamente por meio da aquisição da definição. A escrava que exclui o senhor da sua cabana está por esse meio a declarar-se não-escrava. E a definição é uma outra face do poder.

Os poderosos costumam determinar aquilo que é dito e dizível. Quando os poderosos rotulam ou batizam algo, esse algo torna-se o que os poderosos lhe chamaram. Por exemplo, quando o Ministro da Defesa chama a algo uma negociação de paz, então seja o que for que ele chamou uma negociação de paz é uma situação de negociação de paz. Se a atividade em questão incidia sobre os termos da troca de reatores nucleares e redistribuições territoriais, incluindo acordos para os resultantes refugiados, isso é negociar a paz. As pessoas aplaudem, e aos negociadores é dado o Nobel da Paz. Por outro lado, quando eu chamo a determinado ato da fala uma violação, o meu “chamá-lo” não o torna violação. Na melhor das hipóteses, tenho de explicar e justificar e tornar claro exatamente o que é que neste ato da fala é agressão e exatamente de que maneira, e então os outros concordam em dizer que o ato foi como uma violação ou poderia em sentido figurado chamar-se uma violação. O meu contra-ataque não será aceito como simples ato de auto defesa. E aquilo a que eu chamei rejeição do parasitismo, eles chamam a perda das virtudes mulheris da compaixão e do “amor”. E geralmente quando as mulheres rebeldes chamam algo a uma coisa e os supremacistas patriarcais chamam-lhe outra coisa, os supremacistas ganham.

Regra geral as mulheres não são as pessoas que definem, e, a partir do nosso isolamento e impotência, não podemos simplesmente começar a dizer coisas diferentes das que os outros dizem e fazer com que os nossos nomes prevaleçam. Mas, se reformularmos o acesso, podemos definirmo-nos. Ao assumir o controle do acesso, desenhamos novas fronteiras e criamos novos papéis e relacionamentos. Isto, embora cause tensão, estranheza e hostilidade, está em larga medida dentro das possibilidades de indivíduos e pequenos grupos, contrariamente à redefinição verbal declarada.

Podemos ver o acesso como sendo de 2 tipos, “natural” e humanamente organizado. Um urso num parque tem aquilo a que se pode chamar acesso natural ao cesto da merenda do humano desarmado. O acesso do patrão aos serviços pessoais da secretária é um acesso humanamente organizado; o patrão exerce um poder institucional. Olhadas de determinado ângulo parece-me que as instituições são padrões de acesso humanamente organizadas – acesso às pessoas e aos seus serviços. Mas as instituições são artefatos de definição. No caso de instituições intencional e formalmente organizadas, isso se torna muito claro, pois as definições relevantes encontram-se explicitadas em constituições, regulamentos e regras. Quando se define o termo “presidente”, está-se a definir presidentes nos termos daquilo que podem fazer e daquilo que lhes é devido por outras instituições, e “aquilo que eles podem fazer” é uma questão do acesso que têm aos serviços dos outros. De modo semelhante, as definições de reitor, estudante, juiz, e polícia classificam padrões de acesso, e as definições de escritor, criança, proprietário e, naturalmente, marido, esposa, e homem e mulher.

Quando mudamos o padrão de acesso, impomos novas utilizações de palavras àqueles/as afetados/as pelas mesmas. O termo “homem” tem de ter uma deslocação de significado quando a violação já não é possível. Quando tomamos controle do acesso sexual a nós próprias, do acesso ao nosso apoio psíquico e à nossa função reprodutiva, acesso ao ser-mãe e ao ser-irmã, redefinimos a palavra “mulher”. A deslocação da utilização da palavra é imposta aos outros por uma mudança na realidade social; não aguarda o seu reconhecimento da nossa autoridade de definir. Quando as mulheres separam (se retiram, se reagrupam, transcendem, empurram para o lado, migram, dizem não), estamos simultaneamente a controlar o acesso e a definir. Somos duplamente insubordinadas, uma vez que nem uma nem outra destas coisas é permitida. E o acesso e a definição são ingredientes fundamentais na alquimia do poder, portanto somos duplamente, e radicalmente insubordinadas.

Assim, se estas são algumas das maneiras em que a separação se encontra no cerne da nossa luta, isso ajuda-nos a explicar porque é que a separação é um tópico tão quente. Se há algo que as mulheres temem é a tomada de poder. Desde que nos fiquemos aquém desse ponto, os patriarcas terão, na maioria dos casos uma atitude indulgente. Temos medo daquilo que nos acontecerá quando realmente os assustarmos. Este não é um medo irracional. É nossa experiência no movimento de mulheres que o elemento defensivo, violento, hostil e irracional da reação ao feminismo tende a corresponder com o grau de ostentação do elemento de separação na estratégia ou projeto que despoleta a reação.

As separações que advêm quando as mulheres deixam casa, casamentos e namorados, separações de fetos, e a separação do lesbianismo são todas bastante dramáticas. Isto é, são dramáticas e ostensivas quando percebidas de dentro da estrutura erigida pela mundivisão patriarcal e pelo parasitismo masculino. Os assuntos ligados ao casamento e ao divórcio, ao lesbianismo, e ao aborto tocam homens individuais (e suas simpatizantes) porque eles sentem a relevância em relação a si próprios desses assuntos – eles sentem a ameaça de que poderão ser os próximos. Assim, a heterossexualidade, o, casamento, e a maternidade, que são as instituições que mais obvia e individualmente mantêm a acessibilidade das mulheres pelos homens formam a tríade central da ideologia anti-feminista, e os espaços, organizações, encontros, aulas exclusivamente para mulheres são ilegalizadas, suprimidas, assediadas, ridicularizadas e punidas, em nome dessa outra bela e duradoura instituição patriarcal, a Igualdade Sexual.

Para algumas de nós estas questões poderão parecer quase alheias… questões estranhas para estarem no centro das atenções. Nós estamos empenhadamente ocupadas naquilo que nos parece as nossas insubordinações ostensivas: vivendo as nossas próprias vidas, tomando conta de nós próprias e de cada uma, fazendo o nosso trabalho, e em particular, dizendo a verdade que vemos. Todavia, o pecado original é a separação que essas atividades pressupõem, e será por elas, não pela nossa arte ou filosofia, não pelos nossos discursos, não pelos nossos “atos sexuais” (ou abstinências), que seremos perseguidas, quando o pior der no pior.

Tradução de Maria Josefina Silva in Lilás nº10, do texto de Marilyn Frye “Some Reflections on Separatism and Power” retirado de Sarah Lucia Hoagland e Julia Penelope (ed.) (1988) For Lesbians Only — A separatist anthology (Para lésbicas apenas — uma antologia separatista), Londres: Onlywomen Press

Fiz alguns ajustes na tradução, pois estava em português de Portugal.

In http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=26646467&tid=2589404081729949244

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