“Regulamentar a prostituição é legalizar a exploração do corpo das mulheres”, afirma dirigente da CUT


Para secretária da Central, projeto no Congresso ignora fatores sociais, como a pobreza, que levam à atividade

Escrito por: Luiz Carvalho

No último dia 3, o Coletivo Nacional de Mulheres da CUT reuniu-se em São Paulo para debater o terma da prostituição e discutir o Projeto de Lei (PL) 4.221/2012, do deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ), que descriminaliza a exploração da atividade no país por casas e figuras como o cafetão.

Após os depoimentos e análises da ex-prostituta e hoje militante da Marcha Mundial de Mulheres Cleone Santos e da professora e filósofa Iolanda Ide, as dirigente fizeram um amplo debate e defenderam que o PL favorece apenas  quem lucra com o corpo de mulheres e homens.

Em resposta à reportagem do Portal da CUT, o deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ) publicou um artigo no site da revista Carta Capital em que crítica a posição da Central, classificando-a como moralista e conservadora e leva a discussão para o campo da disputa entre PT e PSOL.

A Secretária Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, Rosane Silva, rebate o parlamentar  e aponta que o projeto não ataca o cerne da questão: os fatores econômicos que levam as mulheres à exploraçãoe a forma como a sexualidade das mulheres é encarada. “Regulamentar a prostituição é como legalizar o trabalho infantil simplesmente porque existe e é uma forma de levar renda às famílias”, ressalta.

Portal da CUT – O deputado Jean Wyllis alega que o Projeto de Lei 4.221/2012 foi construído com participação de diversas entidades de prostitutas organizadas e, portanto, representa a vontade delas. A CUT concorda com essa posição?
Rosane Silva – A discussão vai muito além de quem representa quem, mas precisamos perguntar quais associações ouviu, porque a companheira Cleone Santos, que viveu a realidade de prostituição durante 15 anos, apontou que, conforme a discussão sobre o projeto foi avançando, a grande maioria das prostitutas se colocaram contra. O que podemos afirmar com certeza é que entidades feministas, em sua maioria, são contra: a Marcha Mundial de Mulheres, a SOS Corpo, de Pernambuco. E várias organizações de prostitutas também, sem contar inúmeras pesquisadoras e feministas históricas. Nós não somos contrárias às prostitutas, somos contrárias a um sistema de exploração que coloca nosso corpo a disposição do desejo dos homens.

O deputado afirma no artigo que há uma disputa eleitoral, de militantes do PT contra o PSOL, porque o segundo faz oposição à presidenta Dilma e que a posição tem fundo eleitoral. É disso que se trata?
Rosane –Primeiro, o deputado precisaria se informar sobre o Coletivo de Mulheres para saber que é um grupo heterogêneo de trabalhadoras organizadas no interior da CUT, não necessariamente filiadas ao PT, que construiu sua posição democraticamente, inclusive, ouvindo quem é a favor da regulamentação. Não caímos de paraquedas nessa discussão, militamos há muito tempo e tomamos nossa posição em cima de um debate programático sobre o que representa a prostituição para as mulheres. Nunca esteve em jogo a posição dos deputados, mas sim o que a lei significa para nós.

Ele alega ainda que as mulheres da CUT não o procuraram para discutir o tema, ao contrário do que aconteceu em relação ao debate sobre outros temas defendidos pelas trabalhadoras cutistas, como é o caso da legalização do aborto. As trabalhadoras já conversaram com o parlamentar?
Rosane –Quando definimos nossa posição, deixamos claro que o debate não acabou. Nós ainda não o procuramos, mas também não o fizemos no debate sobre a legalização do aborto, ao contrário do que diz. Para nós, porém, o que precisa ficar claro é que esse projeto não protege as prostitutas, mas os donos das casas de prostituição que as exploram. E não trata das prostitutas que estão na rua. A proposta reproduz um modelo machista e patriarcal, no qual os homens continuam enriquecendo com base na exploração dos nossos corpos e nos consideram como mercadorias com corpo e alma à venda.

O artigo do deputado classifica como lamentável a postura da CUT porque não respeita a liberdade das mulheres prostitutas que querem continuar sendo prostitutas e ter seus direitos reconhecidos.A CUT é contra esses direitos?
Rosane –Mas quais direitos que ainda não são reconhecidos passaram a ser? Hoje a prostituta pode pagar a Previdência e contribuir para o INSS, porque a legislação já ampara. Ele precisa determinar quais direitos seriam. A pressa em aprovar o projeto nos parece uma tentativa de proteger a exploração e a indústria do turismo sexual e os homens que virão ao Brasil durante a Copa em busca disso.  A mulher brasileira é retratada no exterior  como fácil, fogosa, exótica, e é a venda desse estereótipo que interessa a esse mercado. Dizer que a regulamentação é necessária simplesmente porque a prostituição existe é o mesmo que dizer que é necessário legalizar o trabalho infantil ou escravo simplesmente porque existem e é uma forma de levar renda às famílias.

Para o parlamentar há uma parte da esquerda e do feminismo que tem uma posição conservadora e moralista sobre o uso do corpo e sobre a sexualidade. Para o coletivo, as mulheres poderiam exercer a prostituição livremente?
Rosane –A primeira pergunta que precisamos fazer é: quais condições levaram as mulheres para à prostituição? Foi mera vontade própria? É falso dizer que mulheres exercem essa atividade porque querem. As que desejam formam um grupo seleto, que ganha grande projeção na mídia e que pouco retrata verdadeira realidade das mulheres prostitutas, bem distante do glamour das novelas e dos filmes. Mas a quase totalidade quer mesmo sair da prostituição e nunca mais voltar. Para a maioria, a venda do corpo é uma condição imposta como forma de ter condições mínimas de sobrevivência. A prostituição não dá liberdade às mulheres, mas escraviza, porque quem, em sã consciência, gosta de fazer sexo por obrigação. O que nós feministas defendemos é que as mulheres possam exercer livremente sua sexualidade, sem precisar seguir um modelo de comportamento imposto pela sociedade. Ser livre é ter autonomia sobre o seu corpo e não ser obrigado a utilizá-lo como forma de sobrevivência. 

In http://www.cut.org.br/acontece/24019/galeria-de-fotos

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– Virginia Lee Barnes, antropóloga americana, morreu em 1990, antes de terminar o trabalho que daria origem a Aman.
– Janice Boddy é professora-adjunta de Antropologia na Universidade de Toronto.

Seu primeiro livro, “Wombs and Alien Spirit” foi recomendado para o prêmio Governor General.

Capítulo 5 O dia da circuncisão de Aman

“…Convidaram todo mundo.Mataram um boi, duas cabras e um carneiro, e cozinharam a noite toda.

Na manhã seguinte mamãe foi tirar leite das vacas. Minhas tias e suas amigas haviam passado a noite em nossas casas, e tinham acordado cedo para fazer chá, café, e um grande café da manhã para para toda essa gente que haviam convidado.

Foi quando me acordaram. Estavam dando banho nas minhas primas e me mandaram tomar banho também. Perguntei por que e elas me perguntaram se eu também queria ser circuncidada. Eu disse sim, queria – todas as meninas da minha idade queriam, porque é uma vergonha não fazer – mas tinha medo. e além disso minha mãe não queria que fosse naquele dia.

Elas falaram comigo com jeitinho e me avisaram que seria feito quer eu gostasse ou não, portanto eu deveria ser boazinha, tomar meu banho e voltar…

…Disseram que não haveria dor e que tinhamos de ser boazinhas, e que nos dariam muito ouro e muito dinheiro, e que aquela que seria melhor ganharia mais. Você sabe, estavam nos enganando. Mas falavam principalmente para mim, porque eu seria a primeira – pois tinha 9 anos, era a mais velha. Então eu disse que estava tudo bem. Do lado de fora as mulheres e crianças estavam cantando e dançando.

A circuncisão é feita do lado de fora da casa, com muito canto e as mulheres batendo palmas, para que ninguém ouça os gritos.

Elas faziam “lululululululu” e cantavam o nome de meu pai e da minha linhagem, dizendo que eram os melhores.

Eu fiquei tão orgulhosa ao ouvir aquilo! Então eu disse a mim mesma: “é, por que não?”

Elas colocavam ouro e dinheiro sobre mim, e me levaram para fora, debaixo de uma das grandes árvore do quintal.

Havia uma mulher forte que segurava as garotas enquanto eram circuncidadas. Ela se sentava num banquinho baixo. Havia outra mulher bem alta, magra e negra, chamada Fátima, que fazia a circuncisão.

A mulher grande me agarrou pela mão e me segurou, e eu disse a ela: “você não precisa me segurar forte, não vou fugir”.

E ela disse: “ah, você é uma boa menina! Nunca vi uma como você. Você é uma grande garotinha, não é? É, sim. Tem certeza que não vai fugir?” Eu respondi: “tenho, e não vou chorar também, e você não vai me amarrar” – eu sabia que elas costumavam amarrar as pernas das meninas. Ela me fez sentar no chão, sobre um pouco de grama seca que tinha colocado ali. Disse-me para tirar o pano que vestia. Sentou-se no banquinho e abriu as pernas, colocando-me no chão com as costas viradas para ela e minhas pernas próximas ás dela. Normalmente ela amarraria as pernas da menina junto ás dela, e quando abrisse as pernas, as da menina se abririam também; além disso, seguraria os braços da menina para que ela não se movesse. Mas eu disse que não precisaria me amarrar, porque queria que todos tivessem orgulho de mim. Se me amarrasse, seria sinal de que eu estava com medo, e eu não queria que fosse assim. Ela confiou em mim, de verdade. Não me amarrou, mas prendeu minhas pernas com as suas e apenas me segurou, para que eu não pulasse.

Fiquei ali sentada e ela me disse o que iria acontecer. “não é nada demais; não dói tanto assim”, ela disse, e me pediu para ser forte como eu havia prometido: “não decepcione a sua família. Não decepcione a si mesma. Se chorar hoje, amanhã as crianças vão rir de você”. Eu repeti que não iria chorar, que seria forte. E fui.

Ela colocou um pequeno recipiente branco com cinzas de carvão na minha frente, entre as minhas pernas. E depois a outra mulher, Fátima – era uma mulher muito bonita – veio na minha direção. Disse-me o seu nome e o quanto estava calma. Falava comigo com delicadeza para que eu não sentisse dor. Disse que se eu fosse ruim, ela também poderia ser ruim – e enquanto falava comigo assim, tirava as facas e os outros instrumentos e os limpava. Depois pegou um pouco das cinzas entre o polegar e o indicador e começou a brincar com meu clitóris, puxando-o para que se tornasse maior, e continuava falando, e eu respondendo e fazendo perguntas – quando ela iria fazer aquilo? – e ela me respondia, embora estivesse mentindo. Depois de tudo pronto, ela me mandou fechar os olhos. Eu perguntei: “é só isso?” E ela disse: “é só isso, é só isso, não vai demorar nem um segundo. Feche os olhos. Quando você abrir, a dor e seu clitóris terão indo embora”. E eu disse: “está bem!”

Então ela pegou a faca – uma pequena faca, com um gancho na ponta. Puxou meu clitóris com mais força, e aí eu virei o rosto e disse para a outra mulher: “abrace-me forte”, e cerrei os dentes. Então, meu Deus, Rahima, tudo aconteceu. Meu corpo foi cortado num segundo, do jeito que Fátima havia dito. Eu pude ouvir um shhhh…como o som de que quando se corta carne. Foi assim que cortaram o meu corpo. Ela cortou tudo – não os grandes lábios, mas cortou o meu clitóris e os dois pequenos lábios, que eram haram (impuros); tudo foi cortado como se se tratasse de um simples pedaço de carne. Minha nossa, Rahima! Eu pensei que fosse morrer. Abri os olhos e olhei para baixo, e o sangue estava jorrando. Uma parte de onde ela havia retirado a carne sangrava muito, e a outra parte estava branca.

Rahima, meu Deus, aquilo era só o começo. Perguntei se havia terminado , e ela disse que não, que iria fazer de novo, e disse outra vez: “só vai levar um minuto”, e eu acreditei.

E todos que assistiam jogavam ouro e dinheiro sobre mim – nas minhas pernas, na cabeça – e cantavam.

Toda vez que eu queria chorar, olhava em volta para ver se alguém me ajudaria, mas só via sorrisos, então ficava constrangida, abria a boca e fingia rir, mas por dentro estava morrendo.

Ela cortou as bordas dos grandes lábios, e depois, com espinhos parecidos com agulhas, costurou sobre a vagina para fechá-las. Colocou sete espinhos, e cada vez que colocava um, ela o apertava com um fio. Ao terminar, colocou uma pasta negra para cessar o sangramento e apressar a cicatrização, e depois gema de ovo para refrescar. Embrulharam as minhas pernas com um pedaço de pano, do tornozelo aos quadrís, vestiram-me novamente e me carregaram para um quarto que tinham preparado para nós. O mesmo foi feito com as outras garotas.

Eu fiquei doente e tive febre. E quando urinava, parecia que ia morrer. Queimava como fogo, como álcool derramado sobre um ferimento aberto. A urina era quente, e eu gritava de dor. Elas tiveram de me cobrir; meus dentes batiam e meu corpo todo tremia quando minha mãe chegou.

…Os espinhos ficaram em mim por três dias, quando a mulher que fez a circuncisão voltou para retirá-los. Todo esse tempo as suas pernas ficam amarradas, mesmo quando vc urina. Você não toma muito líquido para não precisar urinar muito. Também não come quase nada, para não precisar fazer cocô; elas lhes dão apenas sopa de legumes e pão seco, porque querem que seu corpo fique seco rapidamente. Quanto mais líquido você bebe, mais faz xixi e mais o lugar da operação fica molhado, e elas querem evitar isso. Toda vez que você faz xixi arde muito, então elas jogam água morna com sal sobre os genitais enquanto você está fazendo xixi. O sal é desinfetante, e a água morna ameniza a dor. Depois que vc faz xixi, elas secam a ferida e levam você lá pra fora. Lá fora no daash, elas cavam um buraco no chão e enchem de carvão incandescente coberto com cinzas. Colocam incenso sobre ele e fazem você sentar sobre o buraco, apoiada numa mulher sentada num banquinho. A fumaça com o incenso faz você cheirar bem, e o calor faz o ferimento secar. Depos de fazer isso por três dias, de manhã, á tarde e todas as vezes que fizer xixi, você fica curada.

Quando a mulher que fez a operação volta para tirar os espinhos, ela examina a circuncisão para ver se o buraco ficou pequeno ou grande. Ela pega um palito do tamanho de um palito de dente e o introduz em você. Se o seu buraco fou muito mais largo do que um palito de dente – talvez porque você tenha feito xixi rápido demais – ela dá mais um ponto com espinho para fechar novamente. Se não, se o buraco estiver bom, você só descansa por mais sete dias com as pernas amarradas, porém um pouco mais soltas. Elas lhe dão uma bengala, então você anda devagar e senta devagar e deita com as pernas amarradas. Em seis ou sete dias você já está boa e pode ir aonde quiser.

Eu fiquei boa em sete dias, mas uma das meninas que foi circuncidada comigo – aquela que tinha quase a minha idade – teve de fazer tudo de novo, pois quando fez xixi pela primeira vez sentiu muita dor, e não fez mais xixi por três dias. Aí, quando a mulher veio para tirar os pontos, ela fez cocô e xixi tudo ao mesmo tempo, e isso fez o buraco abrir todo. Fátima teve de dar pontos de novo – a menina sofreu mais e teve de ficar em casa quase um mês.

O motivo de ás vezes se precisar dar aquele ponto extra é que, quando você se casa, seu marido pode saber se você é virgem. Se ele vir que você tem um buraco um pouco maior, vai pensar que você andou aprontando. Assim, as mulheres – sua mãe e as mulheres que fazem a circuncisão – têm de garantir que o seu buraco tenha o tamanho certo. É por isso que dão todos aqueles pontos e costuram tudo.

…Uma menina costurada não vai se divertir por aí, pois tem medo da dor e de que a família descubra quando a examinar – o que é feito todas as semanas.

Recebi por e-mail esse texto e não tenho o link. Mas é um relato impactante da violência, que ainda hoje muitas meninas sofrem no mundo, pelo simples fato de terem nascidos mulheres.

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A exploração do corpo feminino e sua sexualização começam bem cedo. Desde que nascemos somos empurradas para a preocupação com nossa aparência e com a maneira como apresentamos nosso corpo perante o olhar alheio. Algumas tem essa preocupação exarcebada pela imposição de suas famílias em participar de concursos de beleza infantil.

Nenhuma menina deveria ser tratada dessa maneira e muito menos ter sua infância prejudicada pela imposição desses estereótipos do que é ser feminino, desse treinamento para ser mulher e futura consumidora de produtos de beleza e etc.  Essas crianças que vivem o dia a dia dos concursos de beleza tem essa vivência multiplicada a níveis que dificilmente não afetarão suas vidas no futuro e no modo como se enxergam como pessoas.

A pergunta que fica é: qual a necessidade disso para uma menina? A não ser pela obrigação que os pais lhes impõe de realizar seus sonhos e expectativas, não há justificativa para que crianças participem de eventos desse tipo. A vida dessas meninas é denunciada nessa reportagem e no vídeo abaixo.

Biquíni, salto alto e tiara: por dentro dos concursos de beleza infantil nos EUA

Ópera MundiUsando biquíni, salto alto e plumas vermelhas ao redor do pescoço, uma menina de seis anos faz poses sobre um banco ao ritmo de cabaré, animada pela mãe e cerca de 200 espectadores que abarrotam a sala. Logo surge outra garota, um pouco mais velha, que estende sua toalha ao som da banda Beach Boys, tira o vestido e põe-se a tomar sol quase nua, enquanto três jurados, sentados a uma mesa diante do palco, fazem anotações freneticamente. A tensão é palpável no ambiente.Bem-vindo a um dos concursos de beleza infantil mais importantes dos Estados Unidos, o 2010 Miss Elite Miss Pageant, o evento estadual da Carolina do Norte no qual duas dezenas de meninas de 2 a 18 anos lutam para conquistar a coroa e participar da competição nacional, ou “nationals”, no ano seguinte. O lugar escolhido: um salão de baile no terceiro andar de um hotel na pequena vila rural de Hickory.

O negócio dos concursos de beleza infantis, famosos depois do filme Pequena Miss Sunshine, movimenta cerca de cinco bilhões de dólares por ano nos EUA e conta com mais de 100 mil participantes. Os pais, a maioria de classe média, gastam centenas de dólares com taxas de inscrição, maquiagem e aulas para as meninas. Um fenômeno que se expande na Europa, incluindo o Reino Unido, onde no início do ano foi realizado o primeiro concurso Mini Miss UK.

A indústria voltou ao centro das atenções recentemente, com a reabertura da investigação do misterioso caso de estupro e assassinato da rainha da beleza infantil JonBenet Ramsey, de seis anos, no Natal de 1996. A polícia planeja usar nova tecnologia de DNA para identificar o assassino.

“O caso JonBenet me afetou muito. Quando eu era criança – hoje estou com 24 anos –, só havia semi-glitz e high glitz [concursos de beleza infantis radicais]. Quando o caso JonBenet irrompeu na TV, todos disseram: ‘Esperem, o que estamos fazendo?’, e pisaram no freio”, comenta Katie-Britt Greenway, atual Miss South Miami USA e preparadora de uma competidora de quatro anos. “Desde então, surgiram concursos de beleza mais normais, como este, que promovem a beleza natural, sem meninas usando dentes e cabelos falsos.”

Apesar de este concurso ser considerado mais natural que os outros, observando o clima competitivo entre candidatas e parentes, percebe-se que o negócio não é brincadeira. “Nem se atreva a tirar o vestido!”, grita uma mãe no corredor do hotel à filha de cinco anos, com belos cachos ruivos. A menina reclama que o vestido irrita sua pele, mas, no fim, aos prantos, concorda em usá-lo quando lhe prometem vendê-lo no eBay depois do concurso.

Em um dos quartos do hotel, seis meninas sentam-se em cadeiras no lugar onde ficavam as camas, enquanto suas mães se apressam para dar os últimos retoques. O lugar é uma bagunça, com frascos de esmalte, rímel, potes de maquiagem e vestidos por todo lado, enquanto a TV exibe o desenho animado Tom e Jerry. “Me pego chorando, não posso evitar. Quero que ela pareça uma moça e fique bonita”, diz Melissa Shuford, mãe da candidata Emily, de 11 anos, que em 2010 participou de uma dúzia de concursos.

– Sente-se como uma mocinha?

– Sim, responde Emily, tímida.

– O que quer ser quando crescer?

– Veterinária.

– Qual será sua fantasia?

– Serei uma borboleta.

“Haverá um baile lírico”, interrompe a mãe. “Ela adora usar vestidos, é minha menina mais nova, brincamos de Cinderela o tempo todo. Gastamos uns 1.500 dólares neste concurso, não é muito dinheiro comparado com outras garotas. Financiamos os gastos vendendo anúncios a empresas de nossa cidade que aparecem no catálogo do concurso.”

Muitos denunciam que esses concursos fomentam a exploração sexual das meninas, que, movidas pelo delírio de seus pais, são vestidas, maquiadas e penteadas para parecer adultas, alcançar a fama e ser contratadas como modelos por algum produtor ou revista. E advertem para danos psicológicos nas crianças pelo estresse dos eventos.

Mas Melissa garante que os concursos transformaram a vida de sua filha para melhor. “Era uma menina muito tímida, só brincava com bichos de pelúcia, mal se socializava. Nos concursos, você faz entrevistas com três jurados. Em alguns lugares, ensinam-lhe boas maneiras, como arrumar os talheres, como comer, é maravilhoso. Agora estou colocando um pouco de maquiagem e unhas postiças, mas nunca fazemos glitz, jamais.”

O concurso se divide em cinco categorias – beleza, roupa esportiva e traje de banho, roupa favorita, pijama e atuação com música –, e as meninas têm de correr para o quarto depois de participar de cada etapa para trocar o vestido e voltar a desfilar. Por isso, durante o concurso, é comum topar com garotinhas correndo pelos corredores do hotel, seguidas de perto pelas mães, algumas histéricas.

Kisha Sain, uma dona de casa, criou o concurso há quatro anos. Sobre o efeito da reabertura do caso JonBenet Ramsey, afirma, categórica: “Não, é a crise econômica que nos afetou. As pessoas estão endividadas e já não podem dar-se ao luxo de vir aqui. Um sistema como este conta com 50, 60 participantes, mas neste ano há apenas 21. Isso diz tudo.” O que ela acha das críticas segundo as quais os concursos ‘sexualizam’ as menores? “Alguns realmente o fazem, mas nós, não. Esses outros concursos fazem com que as meninas pareçam adultas, é terrível.”

De volta ao salão de baile, as últimas meninas desfilam. Ava Reese, a discípula de Miss South Miami USA, não se contém: “Quero a coroa, vou ganhar a coroa maior?”, pergunta, em meio a risadas dos parentes. Usa um vestido azul brilhante e senta-se no colo da avó, assistindo atenta na primeira fila.

Logo os desfiles terminam e, depois de um breve recesso, começam a ser anunciados os nomes das misses. Miss Melhor Traje de Banho, Miss Vestido de Noite, Miss Originalidade… Os prêmios caem um a um e as ganhadoras, emocionadas – algumas chorando –, sobem ao palco para recolher os imensos troféus brilhantes, às vezes maiores que elas.

“Sou a rainha de todas as rainhas, não é, mamãe?”

Uma enorme expectativa toma a sala quando a apresentadora se prepara para anunciar o grande prêmio. Abre um envelope, aproxima-se do microfone e lê devagar: “E a vencedora Miss Elite North Carolina 2010 para menores de nove anos é… Ava Reese!” A menina quase salta no ar, diante do júbilo da família e da preparadora.

“Sou a rainha de todas as rainhas, não é, mamãe?”, pergunta a menina à mãe, Lisa. “É claro”, responde ela sorridente e, voltando-se para mim, acrescenta: “Ela quer desfilar e coroar outras meninas. Passa meses treinando duas vezes por semana. A professora lhe ensina como desfilar no palco, como maquiar-se. Participou de quatro concursos antes, outras de sua idade fizeram muitos mais, é uma surpresa maravilhosa.” Nem todos ficaram tão contentes. Alguns pais reclamam que suas filhas foram tratadas injustamente, enquanto uma menina chora desconsolada do lado de fora.

Falta ainda o mais importante, o nome da miss infantil maior de nove anos que representará o estado nos “nationals” do próximo ano. Emily Shuford é a felizarda, um anúncio recebido com gritos de alegria de sua mãe Melissa e outros parentes. “Estou felicíssima por minha filha, ela é bonita, lutou muito para ganhar isso”, diz-me a mãe pouco depois, emocionada, enquanto Emily e as ganhadoras das diferentes categorias posam para a foto coletiva num quarto do hotel transformado em estúdio, onde o fotógrafo é um veterano da Guerra do Vietnã.

“Ela usará sua coroa para levantar verbas para crianças que sofrem de doenças renais e muitas outras causas. Quer arrecadar 15 mil dólares em festas beneficentes, com certeza conseguirá.” E agora conseguirá um contrato de modelo? “Bom, isso veremos. Que felicidade, olhe, lá vêm elas!”

In Diário Liberdade


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