Não há revolução sem teoria


Heleieth Saffioti

Na década de 1970, mas também nos fins da anterior, várias
feministas, especialmente as conhecidas como radicais, prestaram
grande serviço aos então chamados estudos sobre mulher, utilizando
um conceito de patriarcado cuja significação raramente mantinha
qualquer relação com o constructo mental weberiano. Rigorosamente,
muitas delas nem conheciam Weber, exceto de segunda mão, sendo sua
intenção bastante política, ou seja, a de denunciar a dominação
masculina e analisar as relações homem-mulher delas resultantes. Não
se mencionava a exploração que, na opinião da autora deste livro,
constitui uma das faces de um mesmo processo: dominação-exploração
ou exploração-dominação. Quando consta apenas o termo dominação,
suspeita-se de que a visão da sociedade seja tripartite – política,
econômica e social -, isto é, de filiação weberiana.

Por este lado, é possível, sim, estabelecer um nexo entre esta
vertente do pensamento feminista e Weber. Muito mais feministas
francesas cometeram o mesmo erro (COMBES e HAICAULT, 1984), situando
a dominação no campo político e a exploração no terreno econômico. A
hierarquia entre homens e mulheres, com prejuízo para as últimas,
era, então, trazida ao debate, fazendo face à abordagem
funcionalista, que, embora enxergasse as discriminações perpetradas
contra as mulheres, situava seus papéis domésticos e públicos no
mesmo patamar, atribuindo-Ihes igual potencial explicativo. Estudos
sobre família25, notadamente os de Talcott Parsons (1965), cuja
leitura de Weber foi realizada com categorias analíticas
funcionalistas, apresentavam este traço, assim como pesquisas
incidindo diretamente sobre mulheres. Neste último caso, estavam,
entre outros, Chombart de Lauwe (1964) e demais pesquisadores que
colaboraram em sua antologia.

Não foram tão-somente feministas radicais que contestaram esta
abordagem homogeneizadora dos papéis sociais femininos. Juliet
Mitchell, já em 1966, publicava artigo, ancorada em uma leitura
althusseriana de Marx, atribuindo distintos relevos às diferentes
funções das mulheres. Embora, mutatis mutandis26, reafirmasse velha
tese deste pensador, contestava o que, em seu entendimento, era
representado pelo privilégio desfrutado pela produção stricto sensu,
e mesmo lato sensu, no pensamento marxista. Considerava
imprescindível, para a liberação das mulheres, uma profunda mudança
de todas as estruturas das quais elas participam, e uma “unité de
rupture” (p. 30), ou seja, a descoberta, pelo movimento
revolucionário, do elo mais fraco na combinação.

As estruturas por ela discriminadas – produção, reprodução,
socialização e sexualidade -, contrariamente ao procedimento , são
percebidas como apresentando um desenvolvimento desigual, cuja
importância é ressaltada, inclusive para a estratégia de luta.
Mitchell estabeleceu instigantes interlocuçães com a Psicanálise e
com distintas correntes do pensamento marxista. O primeiro diálogo
continua muito vivo até hoje, tendo dado alguns frutos interessantes tanto para a Psicanálise quanto para outras ciências que se debruçam sobre a
questão de gênero. Não se pode afirmar o mesmo com relação à
interlocução estabelecida com o pensamento marxista. Na década de
1970, Hartmann (1979a) publicou artigo em que considerou os
conceitos marxistas sex-blind (cegos para o gênero), opinião que
prosperou e calou ampla e profundamente, fazendo-se presente até os
dias atuais. Nenhum(a) feminista interpelou desta forma o
positivismo e a Sociologia da compreensão, de Weber. E, no entanto,
os conceitos formulados por estas vertentes da Sociologia não
discernem o gênero, ou seja, também são sex-blind. É bem verdade que
o marxismo adquiriu muita evidência, tendo sido um dos pensamentos
dominantes do século xx, ao lado da Psicanálise.

Todavia, não obstante a misoginia de Freud e de muitos de seus
seguidores, não houve este tipo de interpelação de sua teoria. Note-
se – e isto faz a diferença – que o questionamento das categorias
marxistas deu-se no campo epistemológico, enquanto isto não ocorreu
com a Psicanálise. Freud tratou da filogênese27, mas jamais fez
qualquer referência à ontogênese28. Há, certamente, uma componente
ideológica importante nessas interlocuçães, a merecer menção. O
pensamento psicanalítico foi subversivo e conservador, ao passo que
ao marxista não se aplica o segundo termo. Neste sentido, havia
possibilidade de finalizar o enquadramento da Psicanálise no status
quo, por intermédio do que Foucault (1976) chama de edipianização do
agente social, ou seja, de sua sujeição à lei do pai. Um dos grandes
méritos deste último autor foi compreender a historicidade da
sexualidade. Com efeito, o exercício desta não se dá num vácuo
social, mas obedece às normas sociais do momento. Isto não significa
que a sexualidade esteja sempre vinculada à lei do pai. Sociedades
igualitárias do ângulo do gênero não são presididas por esta lei, o
que não equivale a dizer que não haja regras para o exercício da
sexualidade. Certamente, Freud foi, neste particular, o grande
inspirador de Foucault (1976).

Como o marxismo não se presta a cumplicidades com o status quo, as
críticas a ele dirigidas, no passado e no presente, são
superficiais, não atingindo sequer sua epistemologia. Não se conhece
nenhuma abordagem ontológica da obra de Freud, certamente em razão
da ausência de uma ontogênese. É o próprio conteúdo das categorias
do pensamento marxiano, responsáveis pelo processo de conhecimento,
que é posto em xeque. As assim denominadas suspeitas, e até mesmo
recusas veementes, com relação às explicações universais, não
justificam a acusação de que os conceitos marxistas são incapazes de
perceber o gênero. Weber está na base de porção significativa dos
pensadores pós-modernos, sem que seus porta-vozes mais proeminentes,
ou nem tanto, se interroguem a que conduzirá tão extremado
relativismo ou se seus tipos ideais podem ser corretamente
utilizados quando aplicados a situações distintas daquelas com base
nas quais foram formulados.

Grande conhecedora da obra de Weber (1964, 1965), Maria Sylvia de
Carvalho Franco (1972) mostra como o ordenamento dos fenômenos
sociais é feito com princípios a priori, não apenas pelo autor em
questão como também por outros idealistas filiados ao pensamento
kantiano. A autora detecta, no pensador em pauta, a presença de
uma “subjetividade instauradora de significados” como alicerce do
objeto, o que lhe permite afirmar, a respeito da tipologia da
dominação, que o sentido empírico específico das relações de
dominação é produzido pela atividade empírica de uma subjetividade.
Este mesmo sentido define o objeto e constitui a autojustificação por
meio da naturalização das desigualdades.Weber analisa, assim, as
bases da legitimidade recorrendo a fatos sempre redutíveis à
subjetividade, inscrevendo-se a autojustificação como processo pelo
qual se erige em lei universal o conceito subjacente à dominação.
A tradição opera como princípio teórico, constitutivo de uma das
formas de dominação. Tanto o método quanto o objeto encontram seu
sustentáculo no sentido. O rigor da interpretação é assegurado pela
identidade, no que tange à racionalidade, no objeto e no método.
Neste sentido, a ação racional com relação a fins permite a captação
da irracionalidade das ações dela discrepantes. Observam-se, ao lado
de um relativismo praticamente absoluto, outros pecados inaceitáveis
até mesmo para aqueles em cujo pensamento Weber penetrou. Na medida
em que o método e o objeto apresentam a mesma racionalidade, e a
subjetividade instaura sentido, o primeiro ganha primazia: a razão é
coextensiva à sociedade. Isto posto, não é difícil perceber as
dificuldades, ou a impossibilidade, de se utilizarem conceitos
weberianos em outros contextos. Segundo a autora em pauta, as
configurações históricas são únicas em termos conceituais e são
apreensíveis como formações de sentido fechadas sobre si mesmas.
Trata-se de formações não passíveis de fragmentação. Embora a
análise exija a decomposição dos fenômenos, é sempre presidida pelo
sentido, caracterizado por um princípio sintetizado no seio do qual
se situa a lógica substantiva do sistema.

A análise de Franco, que incide sobre o mau emprego dos constructos
mentais weberianos pelos teóricos da modernização, é, sem dúvida, de
alto nível e totalmente pertinente. Em outros termos, os tipos
ideais weberianos não se prestam ao exame de outras realidades
distintas daquelas que lhes deram origem. Efetivamente, o tipo ideal
é construído de maneira a atá-lo à especificidade do contexto social
no qual teve sua gênese. Trata-se de conceitos genéticos. O próprio
Weber define seu esquema de pensamento como um universo não-contraditório de relações pensadas. Como o pensamento opera uma acentuação unilateral de certos aspectos da realidade, os conceitos não correspondem exatamente a esta, sendo, neste sentido, uma utopia. O vínculo do constructo mental com a realidade é resumido pelo próprio autor como uma representação pragmática, elaborada segundo a intuição e a
compreensão, da natureza específica destas relações de acordo com um
tipo ideal.

A máquina do patriarcado

Esta incursão por Franco e por Weber, ainda que ligeira, deixa
patente a não-utilização do conceito weberiano de patriarcado por
parte de feministas29, sejam elas radicais (FIRESTONE, 1972; REED,
1969; KOEDT, LEVINE, RApONE, 1973; MILLETI, 1969, 1970, 1971) ou
marxistas (MILLETT, 1971; REED, 1969; DAWSON et alii, 1971;
EISENSTEIN, 1979; SARGENT, 1981). Certamente, todas as feministas
que diagnosticaram a dominação patriarcal nas sociedades
contemporâneas sabiam, não que os conceitos genéticos de Weber são
intransferíveis, mas que já não se tratava de comunidades nas quais
o poder político estivesse organizado independentemente do Estado3O.
Por que, então, não usar a expressão dominação masculina, como o tem
feito Bourdieu, ou falocracia ou, ainda, androcentrismo, falo-logo-
centrismo? Provavelmente, por numerosas razões, entre as quais cabe
mencionar: este conceito reformulado de patriarcado exprime, de uma
só vez, o que é expresso nos termos logo acima sugeridos, além de
trazer estampada de forma muito clara a força da instituição, ou
seja, de uma máquina bem azeitada, que opera sem cessar e, abrindo
mão de muito rigor, quase automaticamente. Como bem mostra Zhang
Yimou, no filme Lanternas Vermelhas, nem sequer a presença do
patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado,
levando à forca a terceira esposa, pela transgressão cometida contra
a ordem patriarcal de gênero.

Tão-somente recorrendo ao bom senso, presume-se que nenhum(a)
estudioso(a) sério(a) consideraria igual o patriarcado reinante na
Atenas clássica ou na Roma antiga ao que vige nas sociedades urbano-
industriais do Ocidente. Mesmo tomando só o momento atual, o poder
de fogo do patriarcado vigente entre os povos africanos e/ou
muçulmanos é extremamente grande no que tange à subordinação das
mulheres aos homens. Observam-se, por conseguinte, diferenças de
grau no domínio exercido por homens sobre mulheres. A natureza do
fenômeno, entretanto, é a mesma. Apresenta a legitimidade que lhe
atribui sua naturalização.

Por outro lado, como prevalece o pensamento dicotômico, procura-se
demonstrar a universalidade do patriarcado por meio da inexistência
de provas de eventuais sociedades matriarcais. Neste erro, aliás,
não incorrem apenas as pessoas comuns. Feministas radicais também
procederam desta forma. De acordo com a lógica dualista, se há
patriarcado, deve haver matriarcado. A pergunta cabível naquele
momento e ainda hoje é: houve sociedades com igualdade social entre
homens e mulheres? Esta interrogação teria, muito seguramente, dado
outro destino à valorização da importância do conceito de
patriarcado na descrição e na explicação da inferioridade social das
mulheres.

O filme Lanternas vermelhas apresenta imagens e trama reveladoras do
acima expresso. Além de o patriarcado fomentar a guerra entre as
mulheres, funciona como uma engrenagem quase automática, pois pode
ser acionada por qualquer um, inclusive por mulheres. Quando a
quarta esposa, em estado etílico, denuncia a terceira, que estava
com seu amante, à segunda, é esta que faz o flagrante e que toma as
providências para que se cumpra a tradição: assassinato
da “traidora”. O patriarca nem sequer estava presente no palácio no
qual se desenrolaram os fatos. Durante toda a película, não se vê o
rosto deste homem, revelando este fato que Zhang Yimou captou
corretamente esta estrutura hierárquica, que confere aos homens o
direito de dominar as mulheres, independentemente da figura humana
singular investida de poder. Quer se trate de Pedro, João ou Zé
Ninguém, a máquina funciona até mesmo acionada por mulheres. Aliás,
imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado, mulheres
desempenham, com maior ou menor freqüência e com mais ou menos
rudeza, as funções do patriarca, disciplinando filhos e outras
crianças ou adolescentes, segundo a lei do pai. Ainda que não sejam
cúmplices deste regime, colaboram para alimentá-Io.

Também há categorias profissionais cujo papel consiste em enquadrar
(BERTAUX, 1977) seus subordinados neste esquema de
pensar/sentir/agir. Estes três termos representam facetas de uma
unidade: o ser humano. Isto é importante para não se reduzir o
patriarcado a um mero adjetivo de uma ideologia. Não que esta não
tenha um substrato material. Ela o tem e ele assume enorme
importância quando não se opera por categorias dicotômicas,
separando corpo de mente, natureza de cultura, razão de emoção.
Embora haja profundas diferenças entre as três esferas ontológicas –
a inorgânica, a orgânica e o ser social -, uma não prescinde das
demais. Na primeira, não há vida e, por conseguinte, não há
reprodução. Há um processo de transformação de um estado em outro
estado, a rocha tornandose terra, por exemplo. Na segunda, há vida
e, portanto, reprodução. Uma mangueira produzirá sempre mangas,
jamais jacas. Na esfera propriamente social, a consciência
desempenha papel fundamental, permitindo a pré-ideação das
atividades e até, pelo menos parcialmente, a previsão de seus
resultados. Na verdade, as três esferas ontológicas constituem uma
unidade, como bem mostra Lukács (1976-81), sendo irredutíveis uma(s)
à(s) outra(s). O ser social, dotado de consciência, é responsável
pelas transformações da sociedade, permanecendo, entretanto, um ser
natural. A sociedade tem, pois, fundamento biológico.

O pensamento cartesiano separou radicalmente o corpo da psique, a
emoção da razão, gerando verdadeiro impasse. Efetivamente, se a
cultura dispõe de uma enorme capacidade para modelar o corpo, este é
o próprio veículo da transmissão das tradições. Como, entretanto,
restabelecer a unidade do ser humano sem recorrer a uma abordagem
ontológica? Entre as feministas, é extremamente raro este tipo de
aproximação. Whitbeck (1983) tenta, em interessante artigo,
apropriar-se do real em termos de uma ontologia feminista, capaz de
conter – e aí reside sua importância – o diferente e o análogo. Não
procede, contudo, em termos de uma ontogênese, a uma análise das
relações homem-mulher. Duas tentativas de tratar esta questão nestes
moldes foram realizadas, ao que se sabe, no Brasil (SAFFIOTI, 1991,
1997b). É preciso, ainda, trabalhar muito nesta direção, talvez
ligeiramente neste livro, ao analisar o conceito de gênero.

Não se trata de defender a tese de que os estudos sobre mulher(es)
devam ceder espaço, inteiramente, aos estudos de gênero. Há ainda
muita necessidade dos primeiros, na medida em que a atuação das
mulheres sempre foi pouquíssimo registrada e que, por via de
conseqüência, a maior parte de sua história está por ser estudada.
Historiadoras feministas (BRIDENTHAL e KONNZ, 1977; CARROLL, 1976;
FIGES, 1970; FISHER, 1979; GIMBUTAS, 1982; HARTMAN e BANNER, 1974;
JANEWAY, 1971, 1980; LERNER, 1979, 1986; THOMPSON, 1964) têm, é
verdade, realizado esforços nesta direção. Mas há, ainda, um longo
caminho a percorrer. E é absolutamente imprescindível que esta
trajetória seja descrita para que haja empoderamento, não de
mulheres, mas da categoria social por elas constituída. Há uma
tensão entre a experiência histórica contemporânea das mulheres e
sua exclusão dos esquemas de pensamento, que permitem a
interpretação desta experiência. A este fenômeno Lerner (1986) chama
de “a dialética da história das mulheres”.

Além de empoderar a categoria mulheres, e não apenas mulheres, o
conhecimento de sua história permite a apreensão do caráter
histórico do patriarcado. E é imprescindível o reforço permanente da
dimensão histórica da dominação masculina para que se compreenda e
se dimensione adequadamente o patriarcado. Considera-se muito
simplista a alegação de a-historicidade deste conceito. Primeiro,
porque este constructo mental pode, sim, apreender a historicidade
do patriarcado como fenômeno social que é, além do fato de o
conceito ser heurístico. Segundo, porque na base do julgamento do
conceito como a-histórico reside a negação da historicidade do fato
social. Isto equivale a afirmar que por trás desta crítica esconde-
se a presunção de que todas as sociedades do passado remoto, do
passado mais próximo e do momento atual comportaram/comportam a
subordinação das mulheres aos homens. Quem enxerga Weber no
conceito de patriarcado utilizado por feministas na verdade
incorre, no mínimo, em dois erros: 1) não conhece suficientemente
este autor; 2) imputa a estas intelectuais/militantes a ignorância
total de que este regime de relações homem-mulher tenha tido uma
gênese histórica posterior a um outro dele distinto, mas também
hierárquico. Ainda que não se possa aceitar a hipótese de sociedades
matriarcais nem prévias às patriarcais nem a estas posteriores, por
falta de comprovação histórica, há evidências apreciáveis, sobretudo
de natureza arqueológica, de que existiu outra ordem de gênero,
distinta da mantida pela dominação masculina. A fim de se adentrar
este difícil terreno, é preciso que se parta, explicitamente, de um
conceito de patriarcado e de um conceito de gênero. Apelar-se-á, no
momento, para Hartmann (1979), definindo-se patriarcado como um
pacto masculino para garantir a opressão de mulheres. As relações
hierárquicas entre os homens, assim como a solidariedade entre eles
existente, capacitam a categoria constituída por homens a
estabelecer e a manter o controle sobre as mulheres.

Há que se fazerem alguns comentários sobre este conceito de
patriarcado, a fim de aclarar certas nuanças importantes.
Seguramente, este regime ancora-se em uma maneira de os homens
assegurarem, para si mesmos e para seus dependentes, os meios
necessários à produção diária e à reprodução da vida.

Bastaria,presume-se, mencionar a produção da vida, na medida em que
ela inclui a produção antroponômica (BERTAUX, 1977). Há, sem dúvida,
uma economia doméstica, ou domesticamente organizada, que sustenta a
ordem patriarcal. Dentre os diferentes machos há, pelo menos, uma
hierarquia estabelecida com base nas distintas faixas etárias, cada
uma desempenhando suas funções sociais e tendo um certo significado.
A hierarquia apoiada na idade, entretanto, não é suficiente para
impedir a emergência e a manutenção da solidariedade entre os
homens. Tampouco o são, de forma permanente, as contradições
presentes nas classes sociais e no racismo. A interdependência
gerada por estas duas últimas clivagens e a solidariedade entre os
homens autorizam os especialistas a antecipar a determinação, em
maior ou menor grau, do destino das mulheres como categoria social.
Neste regime, as mulheres são objetos da satisfação sexual dos
homens, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas
reprodutoras. Diferentemente dos homens come categoria social, a
sujeição das mulheres, também como grupo. envolve prestação de
serviços sexuais a seus dominadores. Esta soma/mescla de dominação e
exploração é aqui entendida como opressão, discussão a ser retomada
mais adiante. Ou melhor, como não se trata de fenômeno quantitativo,
mas qualitativo, ser explorada e dominada significa uma realidade
nova. Também parece ser este, aproximadamente, o sentido atribuído
por Hartmann ao ambíguo termo opressão, embora ela afirme que as
mulheres são dominadas, exploradas e oprimidas, de forma
sistemática (1979a). Se a palavra oprimidas pode ser agregada às
palavras dominadas e exploradas, isto significa que tem sentido
próprio, independente do significado das outras.

Importante a reter é que a base material do patriarcado não foi
destruída, não obstante os avanços femininos, quer na área
profissional, quer na representação no parlamento brasileiro e
demais postos eletivos políticos. Se na Roma antiga o patriarca
tinha direito de vida e morte sobre sua mulher, hoje o homicídio é
crime capitulado no Código Penal, mas os assassinos gozam de ampla
impunidade. Acrescente-se o tradicional menor acesso das mulheres à
educação adequada à obtenção de um posto de trabalho prestigioso e
bem remunerado. Este fenômeno marginalizou-as de muitas posições no
mercado de trabalho. A exploração chega ao ponto de os salários
médios das trabalhadoras brasileiras serem cerca de 64% (IEGE) dos
rendimentos médios dos trabalhadores brasileiros31 embora, nos dias
atuais, o grau de escolaridade das primeiras seja bem superior ao
dos segundos. Desta sorte, a base econômica do
patriarcado não consiste apenas na intensa discriminação salarial
das trabalhadoras, em sua segregação ocupacional e em sua
marginalização de importantes papéis econômicos e político-
deliberativos, mas também no controle de sua sexualidade e, por
conseguinte, de sua capacidade reprodutiva. Seja para induzir as
mulheres a ter grande número de filhos, seja para convencê-las a
controlar a quantidade de nascimentos e o espaço de tempo entre os
filhos, o controle está sempre em mãos masculinas, embora elementos
femininos possam intermediar e mesmo implementar estes projetos.
Ainda que o conceito de Hartmann apresente inegáveis qualidades, é
necessário se fazerem certos acréscimos. O patriarcado, em presença
de – na verdade, enovelado com – classes sociais e racismo
(SAFFIOTI, 1996), apresenta não apenas uma hierarquia
entre as categorias de sexo, mas traz também, em seu bojo, uma
contradição de interesses. Isto é, a preservação do status quo
consulta os interesses dos homens, ao passo que transformações no
sentido da igualdade social entre homens e mulheres respondem às
aspirações femininas. Não há, pois, possibilidade de se considerarem
os interesses das duas categorias como apenas conflitantes. São, com
efeito, contraditórios. Não basta ampliar o campo de atuação das
mulheres. Em outras palavras, não basta que uma parte das mulheres
ocupe posições econômicas, políticas, religiosas etc.,
tradicionalmente reservadas aos homens. Como já se afirmou, qualquer
que seja a profundidade da dominação-exploração da categoria
mulheres pela dos homens, a natureza do patriarcado continua a
mesma. A contradição não encontra solução neste regime. Ela admite a
superação, o que exige transformações radicais no sentido da
preservação das diferenças e da eliminação das desigualdades, pelas
quais é responsável a sociedade. Já em uma ordem não-patriarcal de
gênero a contradição não está presente. Conflitos podem existir e
para este tipo de fenômeno há solução nas relações sociais de gênero
isentas de hierarquias, sem mudanças cruciais nas relações sociais
mais amplas.

25 Uma coletânea apresentando numerosas abordagens foi organizada
por Arlene S. SKOLNICK e Jerome H. SKOLNICK. (1971) Fami/y In
Transition – Rethinking Marriage, Sexuality, Chi/d Rearing, and
Fami/y Organization. usA/Canadá: Little, Brown & Company Limited.
26 O primeiro a afirmar que o desenvolvimento de uma sociedade se
mede pela condição da mulher foi o socialista utópico Charfes
Fourier, encampado posteriormente por Marx e, sobretudo, por Engels.
27 Filogênese significa o desenvolvimento, no caso do ser humano.
28 A ontogênese é exatamente a busca das origens do ser. Para Freud,
do ser humano. A ontologia busca compreender a natureza e a gênese,
a origem, para Marx, do ser social, ou seja, da sociedade. É isto
que Freud não faz.
29 Citam-se apenas algumas. Há feministas que entram em duas
categorias. Às vezes, como é o caso de Sargent, organizadora da
coletânea citada, trata-se de várias autoras com posições
metodológicas distintas e, inclusive, opostas. A classificação usada
é, portanto, precária. Todas, porém, utilizam o conceito de
patriarcado. Dispensa-se, aqui, a citação de Marx e Engels, cujo uso
do referido conceito é notório.
30 MEILLASSOUX, Claude (1975), mostra bem este fenômeno, analisando
comunidades domésticas.
31 Em outubro de 2001, quando foram coligidos os dados, pela
Fundação Perseu Abramo, da pesquisa “A mulher brasileira nos espaços
público e privado”, a situação era a seguinte: famílias recebendo
até 2 salários mínimos = 42% (então, 360 reais); mais de 2 a 5 =
34%; mais de 5 a 10 = 12%; mais de 10 a 20 = 6%; e acima de 20 SM
(3.600 reais), tão¬somente 2%.
32 A rigor, embora não haja formulado o conceito de gênero, Simone
de Beauvoir mostra que só lhe faltava a palavra, pois, em sua famosa
frase – “Ninguém nasce mulher, mas se toma mulher” – estão os
fundamentos do conceito de gênero. Lutando contra o essencialismo
biológico – “A anatomia é o destino” -, enveredou pela ação da
sociedade na transfor¬mação do bebê em mulher ou em homem. Foi, por
conseguinte, a precur¬sora do conceito de gênero (SAFFIOn, 1999b).”

Heleieth Saffioti– Gênero, Patriarcado e Violência.

http://migre.me/4a2zV

O que é feminismo mesmo, hein?!


Um movimento político e social que luta para acabar com as diferenças de gênero.

Um movimento que questiona as relações hierárquicas estabelecidas na sociedade.

Um movimento que trabalha para desnaturalizar as relações heteronormativas buscando a liberdade de orientação sexual, questionando o papel da mulher dentro desse padrão obrigatório de feminilidade e heterossexualidade, buscando o direito da mulher a seu corpo e prazer .

Um movimento que quer estabelecer  a igualdade social, política, econômica, cultural e sexual entre mulheres e homens.

Feminismo é odiado porque as mulheres são odiadas. Antifeminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres. Andrea Dworkin

Um movimento que almeja o fim da misoginia e sexismo.

Apesar de todos os avanços, a dupla moral segue qualificando as mulheres em santas ou putas.

Um movimento das mulheres, para as mulheres e pelas mulheres que prega a empatia, a solidariedade e lealdade entre as mulheres que unidas combaterão a opressão, a discriminação e a violência de que temos  sido vítimas ao longo de milênios de patriarcado.

O feminismo não baseia sua ação na busca pela superioridade feminina e sim na igualdade, na equiparação da mulher em direitos, em oportunidades e no tratamento que recebe da sociedade.

Um feminismo que busque resultados mas não mude as estruturas e que ainda preserve os estereótipos da feminilidade. Esse o modelo de feminismo que querem impor.

Feminismo quer o fim do patriarcado, porque é um sistema opressor, que prega, perpetua e impõe a dominação masculina em todas as áreas, em todos os lugares e em todas as culturas.

Feminismo provoca as mais diversas reações que vão da ridicularização ao repúdio. Mas como se sabe,  o feminismo não mata ninguém, mas o machismo mata todo dia. Pergunta respondida.

Essa dominação masculina reflete numa situação, onde as mulheres é que  são as mais discriminadas, oprimidas e exploradas com:  subemprego, com a perda do emprego em situações de crise, remuneração menor pelo mesmo trabalho,  são as que mais perdem quando os governos com a desculpa de combater crises  cortam benefícios sociais,  violência doméstica, maioria das crianças em idade escolar fora das  escolas e em conseqüência disso, somos a maioria dos analfabetos do mundo, estupros, estupros de guerra, incesto, assédio sexual nas ruas, no trabalho e  etc, mutilação genital, crimes por honra,  somos estigmatizadas por nossa vida sexual e não temos direito de escolha em casos de gravidez não desejada, prostituição, prostituição da pornografia, tráfico de seres humanos para escravidão, exploração sexual, tráfico de órgãos,  maioria dos refugiados de guerra são mulheres e crianças, o corpo da mulher aviltado de todas as formas na publicidade e em todas as mídias, jornada tripla de trabalho e também somos as que mais produzem alimentos e as que menos temos  a posse da terra. É pouco?

Misoginia. O desprezo pela condição feminina e redução da mulher a seu órgão sexual.

Por isso o feminismo é tão repudiado. Lutar pela liberdade das mulheres, para que elas deixem de ser o outro sexo, aquele sexo, o sexo inferior, o sexo que foi relegado a um papel de inferioridade e de exploração, que trabalha silenciosamente dentro dos lares, mantendo o capitalismo livre de assistir as crianças em todas as idades, os idosos, os inválidos, os doentes , pois é com o trabalho doméstico das mulheres que essas pessoas são cuidadas e a sociedade capitalista e patriarcal eximida de investir em creches, em hospitais ou mesmo prestar auxílio nas residências. E pela exploração e não qualificação das mulheres mantidas em casa, sempre serão mão-de-obra barata que pode ser acionada a qualquer momento e também descartada.

Nenhuma mulher almeja ser tratada como uma boneca inútil e frágil, por isso dispensamos o cavalheirismo. Preferimos respeito.

O feminismo denuncia a misoginia, o sexismo, a discriminação que faz com que sejamos tratadas como objeto sexual, como mão-de-obra barata e de segunda categoria, como escravas domésticas,  como reprodutoras da raça humana em que ao mesmo tempo em que nos querem restringir a essa função, nos discriminam por sermos mães e nos negam trabalho e  tratamento digno durante a gravidez.

Sempre existe um lugar onde a mulher tem que cumprir o seu papel de objeto submisso, passivo. Não há escapatória. Mulher assertiva sexualmente que impõe limites e sabe de seus desejos e se recusa a ser  usada não é aceito, é mesmo repudiado.

O feminismo ao denunciar e conscientizar as mulheres de sua opressão é que as instrumentaliza para reagir a esses condicionamentos, que são sim, mantidos para que o homem continue num patamar de superioridade em relação ás mulheres, pois um homem explorado e oprimido dentro do patriarcado capitalista sempre tem o consolo de oprimir as mulheres.

O sexismo discrimina, desvaloriza e demoniza a mulher. No patriarcado que valoriza a masculinidade só homens mijam em pé e seguram seus valorizados órgãos sexuais, às mulheres inferiores e femininas resta o sexo como obrigação porque sem tesão e por dinheiro, se  reivindicam estão brigando sem razão e por serem sempre categorizadas como putas são aquelas que se casam por interesse.

A opressão é um fato. Ela está em todas as sociedades do planeta. Não há sociedade no mundo onde as mulheres, só por serem mulheres, não sofram algum tipo de discriminação. Só a conquista do direito ao trabalho, a estudar,  não garante à mulher sua total emancipação. É preciso desconstruir TODOS os valores que contribuem para que a mulher seja tratada como sujeito inferior dentro  de uma sociedade que se  construiu a partir de premissas que colocaram os homens em situação privilegiada em relação às mulheres.

Feminismo denuncia que a perpetuação desses valores é que mantém a  opressão feminina e contribuem para a naturalização, geração após geração,  de toda forma de discriminação que as mulheres sofrem.

Ainda não entenderam que a eleição de uma mulher foi um marco político no Brasil, porque nunca houve uma presidentA antes dela, por isso fazemos questão de nomeá-la no feminino.

O feminismo muito fez pela mulheres e ainda tem muito o que fazer.

Enquanto abrimos novas frentes de luta, continuamos batalhando para solidificar aquilo que já conseguimos. Nossa luta é constantemente renovada e nunca nos faltam razões para sairmos em busca de melhorias para as mulheres, porque o patriarcado não deixou de existir, muito pelo contrário,  resiste e tenta a todo custo se manter. Mas nós não desistimos, seguiremos juntas até que tod@s sejamos livres!

Textos sobre a situação das mulheres:
Mulheres são maioria entre jovens fora da escola e do mercado de trabalho http://migre.me/3Pn5p
Hundreds of women die for “honour” each year http://bit.ly/i4sZSL
Mulher chefia apenas 5% das grandes empresas no Brasil http://migre.me/3LOZh
El aborto, un delito para mujeres pobres; la clandestinidad las mata http://bit.ly/fSZ4wg
Dez mulheres são mortas por dia no país, aponta Instituto Zangari http://bit.ly/cWPY0H
Estupro e proteção insuficiente http://migre.me/2mjFG
Tráfico de mulheres e prostituição  http://migre.me/8D6Bg
Existem sociedades onde meninas sofrem maus tratos por parte dos pais por não serem meninos http://migre.me/2oXCU
A imagem da mulher como atrativo na Propaganda http://www.partes.com.br/ed37/emquestao.asp
A mulher Negra Brasileira http://migre.me/3QrSh
Direitos, feminismo e opressão social http://migre.me/3QsC8
Trabalho doméstico continua feminino http://migre.me/3Rj51
Mulheres sofrem violência em maternidades públicas  http://migre.me/3Roiq
Muito pior para elas, negras e mulheres  http://migre.me/3Rooh

Do “cliente” ao proxeneta, a banalização da prostituição


TANIA NAVARRO SWAIN

9 anos é a idade de uma das meninas prostituídas na Ceagesp, na zona oeste de SP.
Jornal da tarde

O Brasil sediou,  em novembro 2008, o 30 Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes; na ocasião, o presidente brasileiro assinou uma lei criminalizando a exploração sexual de crianças na internet, hoje um dos campos mais propícios ao incentivo das práticas da pedofilia. A subsecretária de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmen Oliveira, afirmou que “um dos maiores problemas em relação à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil é a impunidade: quando o explorador sexual faz parte da elite é difícil que ele seja condenado. É importante que o Judiciário aplique as leis independentemente de sua classe social”.[1]

Um  total de 228 crianças são exploradas por hora na América Latina e no Caribe, denunciou  Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Nils Kastberg, diretor regional do Unicef para a América Latina e o Caribe, diz que a maioria absoluta de vítimas  de abuso sexual  são meninas e  que na metade dos casos os agressores  são parentes próximos que convivem com elas.  “Quando o abusador tem as chaves de casa, a sociedade não pode permanecer indiferente”, diz ele.[2] O turismo sexual prolifera no Brasil, principalmente no Nordeste e na Amazônia e a repressão pontual não tem repercussões sobre a venda e tráfico de meninas, que continua a crescer.[3]

Se a luta contra a pedofilia é extremamente importante, congregando vozes dissonantes, as análises não tem mostrado a ligação estreita entre  abuso sexual e exploração sexual, entre pedófilos e “clientes” das redes de prostituição. Estas meninas utilizadas como orifícios, como depósitos de secreções serão provavelmente as prostitutas adultas do futuro, para as quais se prega uma ” profissão”: “as profissionais do sexo”, como são catalogadas pelo Código Brasileiro de Profissões sob o número  5198-05.

Prostituição nas ruas da Espanha

Neste código, as características desta “profissão”, áreas de atividade, competências pessoais, recursos são  divulgados no site do Ministério do Trabalho brasileiro [4] , que contém um “manual da prostituição”; mas afinal, ( sejamos justas!),  indicam também os perigos:

“Trabalham por conta própria,( sic!) na rua, em bares, boates, hotéis, porto, rodovias e em garimpos. Atuam em ambientes a céu aberto, fechados e em veículos, em horários irregulares. No exercício de algumas das atividades podem estar expostos à inalação de gases de veículos, a intempéries, a poluição sonora e a discriminação social. Há ainda riscos de contágios de DST, e maus-tratos, violência de rua e morte.” [5]

Para que servem a legislação trabalhista, os dispendiosos Tribunais do Trabalho com suas cortes superlotadas de reclamações, se nesta “profissão” tudo é permitido? Insalubridade, periculosidade, a morte, maus tratos, discriminação, que espécie de trabalho é este que escapa às leis brasileiras? A quem serve esta definição e

Como complemento, são indicadas as atividades e seus desdobramentos, entre outras numerosas indicações:


“BATALHAR PROGRAMA

Agendar a batalha; Produzir-se visualmente; Aguardar no ponto (esperar por quem não ficou de vir); Seduzir com o olhar;Abordar o cliente; Encantar com a voz; Seduzir com apelidos carinhosos; Conquistar com o tato; Envolver com o perfume; Oferecer especialidades ao cliente; Reconhecer o potencial do cliente; Dançar para o cliente; Dançar com o cliente; Satisfazer o ego do cliente; Elogiar o cliente

ATENDER CLIENTES

Preparar o kit de trabalho (preservativo,acessórios, maquilagem);Especificar tempo de trabalho; Negociar serviços eróticos;Negociar preço;Realizar fantasias eróticas;Cuidar da higiene pessoal do cliente;Fazer streap-tease;Fazer carícias;Relaxar o cliente com massagens;Representar papéis; Inventar estórias;Manter relações sexuais;Dar conselhos a clientes com carências afetivas; Prestar primeiros socorros; Fazer compras para o garimpo (rancho);Lavar roupas dos garimpeiros; Cuidar dos enfermos no garimpo; Posar para fotos.”[6]

É aconselhado também o planejamento do futuro, com poupança e  economias e sobretudo o pagamento do Instituto Nacional de Seguridade Social. Este é o Estado brasileiro, recebendo sua parte, que neste site do Ministério de Trabalho revela sua  face proxeneta,. Além de ter seu corpo usado, as mulheres prostituídas devem também ser psicólogas, enfermeiras, atrizes, velando sobre o bem estar total do homem que a compra. Ao comprar seu sexo, compra assim, todo o ser humano, escravidão agora transformada em profissão.

Esta paródia de um aconselhamento profissional tenta revestir de uma roupagem de “deveres” profissionais , institucionalizar e justificar a exploração e a indignidade  que é a transformação do humano em um objeto de compra e venda.  Disponível em todos os sentidos possíveis, feita para o prazer e para agradar, a mulher prostituída deve, sobretudo,  valorizar o “cliente”.

Marcha Mundial das Mulheres _intervenção contra a legalização da prostituição realizada em Mossoró, Rio Grande do Norte: ” Punição para os usuários de prostituição já!! ” 

A prostituição, ou seja, a venda de corpos, forçada ou não, é uma violência social paroxística cometida contra as mulheres prostituídas e contra todas as mulheres. Esta violência é agudizada por sua total banalização; mais ainda, a profissionalização da prostituição, que acolhe adeptos mesmo entre as feministas, define a apropriação e a “mercantilização” total das mulheres como um trabalho, que seria tão estatutário e dignificante quanto qualquer outro.

A simples classificação como  “trabalho” promove a compra de mulheres – momentânea ou permanente, como no caso das meninas raptadas, violentadas, leiloadas e prostituídas – a um nível de mercado, de justificação monetária, de inserção nos mecanismos de produção e reprodução do social.

Para Marie-Victoire Louis a prostituição é um sistema e neste sentido, a meu ver, compreende aspectos físicos e representacionais, pois fundam no corpo das mulheres a imagem de seres “naturalmente” desfrutáveis. Para esta autora, o sistema prostitucional  nunca poderia ser legalizado, pois transforma em empresários o Estado-proxeneta e os próprios em empresários, cujas  indústrias produzem… mulheres. Diz ela:

« É indigno pois legitima o sistema de dominação que considera como normal que o sexo de certos seres humanos é um território de seus corpos estranhos a eles mesmos.[…] É indigno pois toma como princípio que certos seres humanos não seriam um fim neles mesmo, mas meios para outros.[…] É indigno pois subscreve o princípio pelo qual certos seres humanos são alienáveis.[…] * É indigno pois funda o direito de tirar proveito da remuneração da exploração da prostituição de seres humanos.[…] É indigno pois transforma o sexo em objeto legítimo de mercado.”[7]


De fato, o “trabalho” do sexo não produz , mas transforma o agente em mercadoria, realiza a  cisão entre o corpo- objeto/ valor de mercado-  e o humano- agente/produtor dos serviços . Se a legislação trabalhista brasileira vem, há décadas, tentando promover a dignidade do trabalho e os direitos a ele inerentes, esta classificação de “profissionais do sexo” é uma violência: não se trata aqui de conquistar o cliente para a venda de produtos ou para a promoção de uma empresa, mas sim de conquistá-lo para o uso e abuso da própria pessoa transformada em corpo, em orifícios, em servidão, que supostamente se oferece por livre escolha.

Assim, não paira sequer a questão: para quem as mulheres são colocadas à disposição, corpos e ouvidos complacentes, perpétuos sorrisos enganchados no rosto, caricaturas de uma relação de encontro? Esta é a questão política: a quem serve a prostituição, o tráfico de mulheres, a pedofilia? Para que servem os congressos, os debates contra a exploração de menores, se o princípio é o mesmo, a satisfação do “cliente”? A prostituição é um abuso contra o humano e sua banalização ou profissionalização é a porta aberta a todas as exações cometidas contra as mulheres, apropriáveis, desfrutáveis. Isto fica claro em situações de guerra, onde o estupro é  norma e regra.

Meninas e mulheres são consideradas, no imaginário social masculino, presas a serem colhidas, corpos a serem utilizados, carne a ser consumida. A impunidade é total, pois as mulheres e também as meninas “estão lá para isto”. Ricos ou pobres, seja qual for a profissão, os  homens dispõe do direito à apropriação social das mulheres e não parecem dispostos a abrir mão deste poder de desfrute, ainda mais se isto é rentável.

De fato, a prostituição é um agenciamento social onde a classe dos homens, como bem definiu Christine Delphy (1998), se apropria e usa a classe das mulheres.[8]

Aspirar à dignidade de um trabalho, enquanto prostituta, é totalmente compreensível, sobretudo quando não existem condições materiais para uma transição ou o abandono de tal atividade. Afinal, quem não deseja o respeito e a consideração social? Entretanto, mesmo se a legislação confere um status trabalhista à prostituição, a linguagem popular mostra seu lugar na escala social. Ser “filho da puta” não é ainda o insulto maior?

Diversas asserções tentam justificar a violência da transformação de pessoas em orifícios, como por exemplo, “a prostituição é a mais antiga profissão do mundo”. Esta frase é dita e escrita à exaustão, criando sentidos sobre o vazio de sua enunciação. De fato, em História, nada existiu “desde sempre e para sempre”, a não ser em uma história positivista, enredada em premissas essencialistas e datadas, para a qual é “natural” a presença de prostitutas no social. Ao contrário, a pesquisa histórica vem mostrando que a prostituição é uma criação do social, em momentos épocas específicas; esta denominação encobre, inclusive, no discurso histórico, a presença de mulheres no social que destoam da norma representacional sobre as mulheres.(Rossiaud, 1988)

Esta proposição – a mais antiga profissão do mundo –  cria e reproduz a idéia da existência inexorável da prostituição, ligada à própria existência das mulheres, parte de seu destino biológico; nesta asserção é mantida, no senso comum, a noção da essência maléfica e viciosa das mulheres, que através dos tempos se concretiza na figura da prostituta, o lado sombrio e negativo da representação construída sobre a mulher-mãe na historicidade discursiva ocidental. Por outro lado, fica materializada e generalizada a idéia da condição inferior das mulheres ao longo da história, despossuídos de seus corpos e de sua condição de sujeito, no social e no político.

Delimitada pela noção de essência e permanência, a prostituição vai perdendo sua historicidade e a própria variação semântica da palavra desaparece sob generalizações no mínimo insustentáveis. Por exemplo, a “prostituição sagrada” na antiguidade dos povos orientais é uma interpretação anacrônica, pois insere em valores do presente – o sexo mercantilizado – a realização de um ritual simbólico de renovação da vida (Stone, 1979)

hierogamos – união sagrada  entre a grande sacerdotisa e o futuro rei, ou entre uma sacerdotisa e um visitante do templo – era uma celebração do ritual místico da vida, reproduzindo, na Suméria,  a união de Inana / Damuzi ou de Ishtar/Tamuzi, na Babilônia – fundamentou a idéia de  “prostituição sagrada”, ou seja, uma interpretação etnocêntrica, que confere ao rito uma desqualificação incompatível com a importância e o sentido conferido à cerimônia.

Assim, a questão que se coloca é igualmente: o que é uma prostituta? Cada época tem sua definição e seus limites que vão desde a mulher que não é casada, daquela que tem um amante até a profissão que ela exerce, como até pouco tempo, no Brasil, as aeromoças, as cantoras, as mulheres que trabalhavam fora de casa. Se o termo contém uma suposta relação mercantil, a representação da prostituta atinge todas aquelas que não se enquadram às normas de seu tempo / espaço.

Julgamento de valor, valores criadores de sentidos, sentidos instauradores do real na senda do imaginário social: assim se constrói a prostituição como atemporal, Se “o que a História não diz, não existiu”, como costumo afirmar, o que a história diz é certamente justificação para determinadas relações sociais. Nesta perspectiva, à asserção “prostituição, a mais velha profissão do mundo”, corresponde: “as mulheres sempre foram dominadas pelos homens”, proposições construídas pelas representações sociais binárias e hierarquizadas dos historiadores, destituídas de fundamento histórico.  Mas isto assegura, no discurso  e às condições de imaginação social, a representação das mulheres enquanto prostitutas e como seres dominados / inferiores, desde a aurora dos tempos conhecidos.

Sentidos múltiplos

Simone de Beauvoir, que marcou a visibilidade dos feminismos no século XX com a publicação do “Segundo Sexo” (1949), assim analisa a condição da prostituta: “[…]a prostituta é um bode expiatório; o homem descarrega nela sua torpeza e a renega “(Idem,376) e continua […]  a prostituta não tem direitos de uma pessoa, nela se resumem , ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina”.(idem) A pertinência desta análise nos aponta para a inversão que institui e classifica a prostituição no mais baixo nível social, que pune e persegue a prostituta e não o cliente. A violência simbólica desta inversão não pune ou rejeitado socialmente os agentes da violência, os criadores de mercado: os clientes. A  quem serve afinal, a legalização da prostituição?.

Simone de Beauvoir considera que é na  prostituição, onde: “[…]a mulher oprimida sexualmente e economicamente, submetida ao arbítrio da polícia, à uma humilhante vigilância médica, aos caprichos dos clientes, destinada aos micróbios e à doença, é realmente submetida ao nível de uma coisa”(idem,389). Estas frases contém um sem-número de questões: a prostituição como o resultado de relações sociais hierárquicas de poder; como resultado igualmente de uma situação moral; como objetificação total do feminino nas instâncias sexual e econômica, submetido  à ordem masculina ; como instituição partícipe do funcionamento do sistema patriarcal; como uma forma de violência e apropriação social das mulheres/ meninas/ crianças pela classe dos homens.

De Beauvoir comenta ainda a respeito da prostituição: “[…] gostaríamos de saber a influência psicológica que esta brutal experiência teve sobre seu futuro; mas não se psicanalisa “as putas”, elas não sabem se descrever e se escondem sob os clichês”(idem, 380).

Esta questão é bem ilustrativa da banalização e naturalização da prostituição: as mulheres violentadas são usualmente encaminhadas para um acompanhamento psicológico; mas e as prostitutas? Ou elas realizam a improvável operação da separação de seus corpos e mentes quando exercem esta atividade, ou são apenas robôs, destituídas de psique, de sentimentos, de emoções.

Dizer que a prostituição é um trabalho e ainda, voluntário, é, no mínimo, um insulto às mulheres, é um insulto ao trabalho, é o menosprezo total das condições que levaram tais mulheres a se submeter e mesmo defender a “profissão” que exercem. O que poderia levar uma criança, uma adolescente, uma mulher a este aviltamento senão a força, o poder, o estupro, a violência social que aceita a figura do “cliente” como senhores de corpos profanados, usados e abusado, assujeitados, escravizados? Basta lembrar que o tráfico de mulheres só é superado em lucratividade pelo comércio das armas. Estariam todas estas mulheres e meninas nos bordéis e nas ruas, por sua livre vontade, presas de sua “natureza” perversa?

A naturalização e a profissionalização da prostituição não é também uma forma de convencimento para as meninas / adolescentes? Porque não ser prostituta, “trabalho” “fácil”, para se ganhar muito dinheiro? Não se explica a elas o que vão constatar: a perda de sua condição de sujeito, de ser humano, entre surras e pancadas, na total insegurança, sem falar nesta intimidade, nesta troca de fluidos corporais, de odores, texturas, hálitos, suores, a invasão e a despossessão  de seus  corpos por qualquer indivíduo do sexo masculino? Como se ousa dizer que alguém quer ou gosta de ser prostituta?  De fato, a prostituição é a banalização do estupro.

No estupro e na violência  material e psicológica encontram-se raízes da prostituição; no aliciamento para o mundo artístico, inumeráveis jovens desaparecem no tráfico  internacional de mulheres onde são vendidas e confinadas em bordéis; no apelo ao consumo e na falta de oportunidades de trabalho, na ausência de capacitação profissional e mesmo de alfabetização, outras passam a vender seus corpos, já que, afinal, não é este um destino “natural” para as mulheres?. Mas não só a ausência de condições materiais estimula a venda de corpos: são as representações sociais sobre as mulheres, são as condições de imaginação social que asseguram a existência da prostituição, como algo banal e natural.

Estas são situações de fato, levadas em conta pelos feminismos quando se debruçam sobre a experiência singular das mulheres, colocando-se em sua defesa e proteção, denunciando que, sob a égide da legalização da prostituição encontra-se um imenso mercado que mal disfarça seus interesses.


Pequena questão final

A materialidade das relações sociais apela para um posicionamento político e a análise crítica é um dos vetores que pode rasgar as tramas dos discursos e suas práticas.  De fato, do que menos se fala, o que menos se aponta é o papel desta imensa demanda por corpos femininos. Não existiriam proxenetas, nem mulheres prostituídas se não fosse “o cliente”, esta figura “misteriosa”, protegida, mimada, acalentada, aquele que faz funcionar as engrenagens, os consumidores das meninas, das mulheres, neste grande festim de carne humana. Ninguém especial, não é um assassino, um  monstro desnaturado, é o homem que atravessa a rua, o colega de trabalho, o marido, o irmão, o ancião, o jovem adolescente, o operário, o deputado. É a classe dos homens, em seu conjunto, que continua a usufruir de um feminino transformado em corpo. De fato, é a criminalização, a exposição pública do “cliente”  que reduziria, talvez, a demanda e o tráfico. O opróbrio social que circunda a pedofilia, entretanto, cessa com a maioridade. Afinal, a quem serve a expansão e legalização da prostituição a não ser à exaltação do masculino, centrado no falo, à ordem hierárquica do humano, a um patriarcado que não cessa de se reproduzir?

referencias bibliográficas

DE BEAUVOIR, Simone. Le Deuxième Sexe. L’expérience vécue, Paris: Gallimard, 1966. (1a edição em 1949)

DELPHY, Christine. L´ennemi pprincipal. vol 1. Paris : Ed. Syllepse, 1998

GROULT, Benoite. Cette mâle assurance. Paris : Albin Michel, 1993

GUILLAUMIN, Colette. 1978.Pratique du pouvoir et idée de Nature, 2.Le discours de la Nature, Questions féministes, n.3, mai, p.5-28,

STONE, Merlin. Quand Dieu était femme. Quebec: Etincelle, 1979.

RICH, Adrienne. La contrainte à l’hétérosexualité et l’existence lesbienne, Nouvelles Questions Féministes, Paris, mars , n.1, p.15-43, 1981.

ROSSIAUD, Jacques. 1988. La prostitution médiévale, Paris, Flammarion

JODELET, Denise.  Les représentations sociales, un domaine en expansion. In :___ (dir)  Représentations sociales. Paris : PUF,  1989.


[1] Ver http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/11/24/ult5772u1710.jhtm

[2] http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2008/11/19/ult1766u28781.jhtm

[3] Ver http://www.chicoterra.com/index.php?option=com_content&view=article&id=80&Itemid=57

[4] http://www.mtecbo.gov.br/busca/descricao.asp?codigo=5198

Seguir os links para melhores informações

[5] http://www.mtecbo.gov.br/busca/condicoes.asp?codigo=5198

[6] Ver os detalhes em http://www.mtecbo.gov.br/pdf/template_5198.pdf

[7] http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys13/prostitution/marievict3.htm

[8] Na linguagem  marxista de relações de classes, Delphy (1998) identifica na associação dos homens uma classe, que como tal se apropria das mulheres, também enquanto classe

8 em cada dez prostitutas detidas na Espanha são brasileiras http://www.ehelpcarolina.com/oito-de-cada-dez-prostitutas-detidas-na-espanha-em-2009-eram-brasi/

O turismo sexual http://migre.me/3pfoJ

Turismo sexual atinge crianças http://migre.me/3pfwr

In http://tanianavarroswain.com.br/brasil/mora.htm

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