Feminismo, ontem e hoje


Depois de relevantes conquistas e com novos desafios pela frente, quais os rumos do feminismo hoje? Para relembrar a trajetória do movimento brasileiro desde os anos 1970 e discutir o seu papel nos dias atuais, o Feminino conversou com mulheres ligadas ao tema. Uma delas, a antropóloga e socióloga Lia Zanotta Machado, autora do livro Feminismo em Movimento (Editora Francis), fez um balanço dos momentos decisivos no Brasil. Aqui, por causa da ditadura, afirma Lia, a luta foi politicamente mais de esquerda do que as campanhas francesa e americana (consideradas mais liberais ):

– Em 1975 houve, no Rio de Janeiro, o Seminário sobre o Papel e o Comportamento da Mulher na Sociedade Brasileira. Foi o primeiro ato público em que as questões principais eram a condição da mulher no País, o trabalho, a saúde física e mental, a discriminação racial e a homossexualidade feminina, além do posicionamento a favor da democracia. Dois anos depois, foi aprovada a emenda do senador Nelson Carneiro, instituindo o divórcio. Foi uma espera de 27 anos.

Lia relembra, ainda, a forte repercussão, em 1976, do assassinato da milionária Ângela Diniz, praticado por seu namorado, Doca Street. Num primeiro julgamento, em 1979, ele foi inocentado sob o argumento de “legítima defesa da honra”. Um ano depois, porém, após entrar no fórum sob vaias de feministas, foi condenado a 15 anos de prisão. O caso se tornou símbolo de uma virada histórica.

Anos depois, surgiram os grupos de SOS, com serviços de atendimento às mulheres vítimas da violência. “Seria a semente da criação, em 85, das Delegacias Especializadas das Mulheres, uma invenção brasileira cujo modelo foi copiado por países da América Latina”, diz Lia.

A década de 80 foi fundamental, ainda, na luta das brasileiras em relação à saúde. Segundo a antropóloga, as propostas do Estado quanto ao controle de natalidade e à esterilização das mulheres sem acesso à informação recebiam duras críticas. Em resposta, movimentos feministas e profissionais da área médica propuseram o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM) – um contraponto ao então atendimento quase exclusivo da mulher como mãe.

No período pré-Constituição, o CNDM articulou, junto com os conselhos estaduais e municipais e a Bancada Feminina no Congresso, estratégias que visavam a inclusão dos direitos humanos das mulheres na Constituição de 1988. A campanha “Constituinte para valer tem que ter palavra de mulher” e o lobby do batom resultaram na “Carta das Mulheres aos Constituintes”. Em 1988, a nova Constituição incorporou a maioria das reivindicações.
Antes da promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, a agressão doméstica era considerada uma violência contra os costumes e não contra a pessoa. “Com a lei, o homem que é denunciado deixa de ser réu primário”, comenta Lia.

Entre os desafios atuais do movimento está a questão do aborto. “Existe um pensamento comum, nas classes média e baixa, de que quando se trata de uma pessoa próxima e cujas razões são conhecidas, o aborto é aceito. Mas é preciso pensar nas demais mulheres que, por circunstâncias afetivas, sociais e econômicas, não podem levar a gestação adiante”, pondera a antropóloga.
Outra discussão é a participação das mulheres na política. Segundo a organização internacional União Interparlamentar, num ranking de 188 nações, o Brasil ocupa o 104º lugar em relação à presença feminina nos parlamentos. “Nesse âmbito, o fato histórico de termos uma mulher na presidência e mais ministras produz um efeito de desnaturalização do espaço masculino no poder”, diz Lia.

A conclusão da estudiosa é que ainda há muito a fazer. “Um dos caminhos para promover profundas mudanças seria intensificar os debates sobre gênero e raça nas escolas, o que é feito hoje de forma periférica, através de livros paradidáticos.”

Seriam as mulheres do campo mais organizadas do que as dos centros urbanos? Segundo a psicóloga Nalu Faria, coordenadora geral da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e integrante da Secretaria Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, realmente as trabalhadoras rurais constroem grandes articulações. “Mas há pontos de união em comum, como o trabalho, a soberania alimentar, a violência e a saúde.”

Contraste. Por outro lado, um abismo divide as mulheres: na base estão as mais pobres e, no topo, as que ganham altos salários. “O acesso aos direitos não chegou a todas as camadas. No Brasil, as mulheres são as mais pobres, em particular as negras e rurais. Temos só 52 mulheres em cada 100 que estão no trabalho assalariado. Um dos pilares da Marcha é a luta por um salário mínimo mais digno, que impacte de forma positiva a vida dessas mulheres”, afirma Nalu.

A violência, pauta do movimento desde os primórdios, ainda é um problema grave. “A cada 15 segundos, uma mulher é vítima de agressão no Brasil. Embora a Lei Maria da Penha tenha tornado o tema mais público, é importante trabalhar no âmbito da prevenção”, afirma a psicóloga. “A violência, fruto da relação de poder, não acontece de uma hora para outra. Começa com o controle, o isolamento e a desqualificação da mulher, que se sente fragilizada, com baixa autoestima e economicamente dependente.”
Nalu também destaca a questão do aborto. Apesar da criminalização no Código Penal, um número estimado de 1 milhão de procedimentos do tipo ocorrem anualmente no País. “O aborto inseguro é a terceira causa de morte materna. Somos a favor da descriminalização e legalização do aborto, mas é importante criar condições de a mulher não chegar até ele.”

Outra plataforma forte da Marcha, explica Nalu, é o posicionamento contra a mercantilização do corpo feminino. O movimento rechaça a prostituição e o uso do corpo como um produto, ao considerar os sistemas de aliciamento da indústria da prostituição cada vez mais poderosos no turismo sexual e no tráfico de mulheres.

In http://migre.me/40eI4

O que é feminismo mesmo, hein?!


Um movimento político e social que luta para acabar com as diferenças de gênero.

Um movimento que questiona as relações hierárquicas estabelecidas na sociedade.

Um movimento que trabalha para desnaturalizar as relações heteronormativas buscando a liberdade de orientação sexual, questionando o papel da mulher dentro desse padrão obrigatório de feminilidade e heterossexualidade, buscando o direito da mulher a seu corpo e prazer .

Um movimento que quer estabelecer  a igualdade social, política, econômica, cultural e sexual entre mulheres e homens.

Feminismo é odiado porque as mulheres são odiadas. Antifeminismo é uma expressão direta de misoginia; é a defesa política do ódio às mulheres. Andrea Dworkin

Um movimento que almeja o fim da misoginia e sexismo.

Apesar de todos os avanços, a dupla moral segue qualificando as mulheres em santas ou putas.

Um movimento das mulheres, para as mulheres e pelas mulheres que prega a empatia, a solidariedade e lealdade entre as mulheres que unidas combaterão a opressão, a discriminação e a violência de que temos  sido vítimas ao longo de milênios de patriarcado.

O feminismo não baseia sua ação na busca pela superioridade feminina e sim na igualdade, na equiparação da mulher em direitos, em oportunidades e no tratamento que recebe da sociedade.

Um feminismo que busque resultados mas não mude as estruturas e que ainda preserve os estereótipos da feminilidade. Esse o modelo de feminismo que querem impor.

Feminismo quer o fim do patriarcado, porque é um sistema opressor, que prega, perpetua e impõe a dominação masculina em todas as áreas, em todos os lugares e em todas as culturas.

Feminismo provoca as mais diversas reações que vão da ridicularização ao repúdio. Mas como se sabe,  o feminismo não mata ninguém, mas o machismo mata todo dia. Pergunta respondida.

Essa dominação masculina reflete numa situação, onde as mulheres é que  são as mais discriminadas, oprimidas e exploradas com:  subemprego, com a perda do emprego em situações de crise, remuneração menor pelo mesmo trabalho,  são as que mais perdem quando os governos com a desculpa de combater crises  cortam benefícios sociais,  violência doméstica, maioria das crianças em idade escolar fora das  escolas e em conseqüência disso, somos a maioria dos analfabetos do mundo, estupros, estupros de guerra, incesto, assédio sexual nas ruas, no trabalho e  etc, mutilação genital, crimes por honra,  somos estigmatizadas por nossa vida sexual e não temos direito de escolha em casos de gravidez não desejada, prostituição, prostituição da pornografia, tráfico de seres humanos para escravidão, exploração sexual, tráfico de órgãos,  maioria dos refugiados de guerra são mulheres e crianças, o corpo da mulher aviltado de todas as formas na publicidade e em todas as mídias, jornada tripla de trabalho e também somos as que mais produzem alimentos e as que menos temos  a posse da terra. É pouco?

Misoginia. O desprezo pela condição feminina e redução da mulher a seu órgão sexual.

Por isso o feminismo é tão repudiado. Lutar pela liberdade das mulheres, para que elas deixem de ser o outro sexo, aquele sexo, o sexo inferior, o sexo que foi relegado a um papel de inferioridade e de exploração, que trabalha silenciosamente dentro dos lares, mantendo o capitalismo livre de assistir as crianças em todas as idades, os idosos, os inválidos, os doentes , pois é com o trabalho doméstico das mulheres que essas pessoas são cuidadas e a sociedade capitalista e patriarcal eximida de investir em creches, em hospitais ou mesmo prestar auxílio nas residências. E pela exploração e não qualificação das mulheres mantidas em casa, sempre serão mão-de-obra barata que pode ser acionada a qualquer momento e também descartada.

Nenhuma mulher almeja ser tratada como uma boneca inútil e frágil, por isso dispensamos o cavalheirismo. Preferimos respeito.

O feminismo denuncia a misoginia, o sexismo, a discriminação que faz com que sejamos tratadas como objeto sexual, como mão-de-obra barata e de segunda categoria, como escravas domésticas,  como reprodutoras da raça humana em que ao mesmo tempo em que nos querem restringir a essa função, nos discriminam por sermos mães e nos negam trabalho e  tratamento digno durante a gravidez.

Sempre existe um lugar onde a mulher tem que cumprir o seu papel de objeto submisso, passivo. Não há escapatória. Mulher assertiva sexualmente que impõe limites e sabe de seus desejos e se recusa a ser  usada não é aceito, é mesmo repudiado.

O feminismo ao denunciar e conscientizar as mulheres de sua opressão é que as instrumentaliza para reagir a esses condicionamentos, que são sim, mantidos para que o homem continue num patamar de superioridade em relação ás mulheres, pois um homem explorado e oprimido dentro do patriarcado capitalista sempre tem o consolo de oprimir as mulheres.

O sexismo discrimina, desvaloriza e demoniza a mulher. No patriarcado que valoriza a masculinidade só homens mijam em pé e seguram seus valorizados órgãos sexuais, às mulheres inferiores e femininas resta o sexo como obrigação porque sem tesão e por dinheiro, se  reivindicam estão brigando sem razão e por serem sempre categorizadas como putas são aquelas que se casam por interesse.

A opressão é um fato. Ela está em todas as sociedades do planeta. Não há sociedade no mundo onde as mulheres, só por serem mulheres, não sofram algum tipo de discriminação. Só a conquista do direito ao trabalho, a estudar,  não garante à mulher sua total emancipação. É preciso desconstruir TODOS os valores que contribuem para que a mulher seja tratada como sujeito inferior dentro  de uma sociedade que se  construiu a partir de premissas que colocaram os homens em situação privilegiada em relação às mulheres.

Feminismo denuncia que a perpetuação desses valores é que mantém a  opressão feminina e contribuem para a naturalização, geração após geração,  de toda forma de discriminação que as mulheres sofrem.

Ainda não entenderam que a eleição de uma mulher foi um marco político no Brasil, porque nunca houve uma presidentA antes dela, por isso fazemos questão de nomeá-la no feminino.

O feminismo muito fez pela mulheres e ainda tem muito o que fazer.

Enquanto abrimos novas frentes de luta, continuamos batalhando para solidificar aquilo que já conseguimos. Nossa luta é constantemente renovada e nunca nos faltam razões para sairmos em busca de melhorias para as mulheres, porque o patriarcado não deixou de existir, muito pelo contrário,  resiste e tenta a todo custo se manter. Mas nós não desistimos, seguiremos juntas até que tod@s sejamos livres!

Textos sobre a situação das mulheres:
Mulheres são maioria entre jovens fora da escola e do mercado de trabalho http://migre.me/3Pn5p
Hundreds of women die for “honour” each year http://bit.ly/i4sZSL
Mulher chefia apenas 5% das grandes empresas no Brasil http://migre.me/3LOZh
El aborto, un delito para mujeres pobres; la clandestinidad las mata http://bit.ly/fSZ4wg
Dez mulheres são mortas por dia no país, aponta Instituto Zangari http://bit.ly/cWPY0H
Estupro e proteção insuficiente http://migre.me/2mjFG
Tráfico de mulheres e prostituição  http://migre.me/8D6Bg
Existem sociedades onde meninas sofrem maus tratos por parte dos pais por não serem meninos http://migre.me/2oXCU
A imagem da mulher como atrativo na Propaganda http://www.partes.com.br/ed37/emquestao.asp
A mulher Negra Brasileira http://migre.me/3QrSh
Direitos, feminismo e opressão social http://migre.me/3QsC8
Trabalho doméstico continua feminino http://migre.me/3Rj51
Mulheres sofrem violência em maternidades públicas  http://migre.me/3Roiq
Muito pior para elas, negras e mulheres  http://migre.me/3Rooh

Construindo a convergência feminista – o CADTM no Senegal


Encontro pré-FSM aponta as dificuldades para uma mulher africana reivindicar seu pertencimento ao movimento de luta das mulheres, sem ser objeto de zombarias e de se ver desvalorizada. Hoje, é muito difícil dizer-se feminista na África e no Senegal sem somar a essa postura um “mas” ou um “se”.

Christine Vanden Daelen – CADTM*

A sede da Aprofes (Associação para a Promoção das Mulheres Senegalesas) recebe, desde a última quinta-feira (3 de fevereiro), delegados e delegadas da rede internacional CADTM (Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), reunidos para o encontro nacional sobre o feminismo, organizado no bojo do Fórum Social Mundial 2011.

A Aprofes é uma organização que integra o CADTM desde 1999, e participam do atual encontro em sua sede integrantes de diversas outras entidades e movimentos, como a Marcha Mundial de Mulheres, Mulheres de Negro e Liga Internacional das Mulheres pela Paz, entre diversas outras.
Os primeiros debates do encontro focaram no próprio conceito de feminismo e de sua evolução, assim como sobre a necessidade de o CADTM reforçar seu compromisso feminista.

Em sua apresentação, Françoise Mulfinger, do CADTM Bélgica, afirmou alguns dos desafios das lutas feministas, como a busca por assegurar a igualdade de tratamento entre homens e mulheres em todos os âmbitos da vida pública e privada, além de sua atuação constante para permitir às mulheres o acesso à Justiça, tanto social como econômica, bem como participar ativamente dos processos de decisão, e não ter que suportar nunca mais a violência – qualquer que seja a sua natureza.

Em resumo, Françoise Mulfinger destacou a importância de a mulher ver seus direitos humanos reconhecidos e respeitados em todo planeta. Se por um lado já se percorreu um longo caminho desde que as mulheres se organizaram para conseguir sua emancipação, Françoise nos faz lembrar que nada está dado ainda. A exploração econômica e sexual das mulheres continua – e inclusive se fortalece, em função dos ataques constantes da globalização neoliberal.

O tráfico de mulheres, suas migrações para garantir a sobrevivência de suas famílias, o crescimento exponencial da “feminização” da pobreza e da ampliação do trabalho informal e forçado das mulheres nos demonstra tais dificuldades e desafios a cada dia. A desigualdade entre os sexos, de classe e de raça se reforçam incessantemente em tal contexto.

Mesmas raízes

O CADTM, como movimento de luta pela emancipação dos seres humanos – homens e mulheres – compreende que, já que todos os sistemas de opressão estão intimamente imbricados e têm as mesmas raízes, não se pode combater o sistema de dominação capitalista sem atacar os fatores que subjugam as mulheres. A organização desta jornada de debates do CADTM, antecedendo ao Fórum das Lutas Feministas Africanas, integra todo um processo iniciado no interior da rede, a fim de reforçar seus compromissos, análises e práticas feministas.

A pesquisadora e militante feminista senegalesa Codou Bop compartilhou com os presentes alguns dos problemas e realidades da militância feminista na África. Codou apontou as dificuldades para uma mulher africana reivindicar seu pertencimento ao movimento de luta das mulheres, sem ser objeto de zombarias e de se ver desvalorizada. E destacou o conflito do feminismo frente a aspectos de identidade. De acordo com Codou, é muito difícil dizer-se feminista na África e no Senegal sem somar a essa postura um “mas” ou um “se”.

O Fórum Feminista Africano, do qual Codou participou da criação, realiza um trabalho de análise dos temas e de apontamento dos laços entre a globalização neoliberal e a exacerbação das discriminações e violências frente às mulheres. As feministas reunidas no seio deste Fórum denunciam a invisibilidade das mulheres tanto na esfera produtiva (não possuem acesso à terra, tão pouco aos meios de produção e de financiamento), como na esfera pública e na política.

Da cozinha à porta de entrada

Neste sentido, tudo está posto para que as mulheres permaneçam confinadas no lugar em que se encontram e na esfera privada. “A maior distância que nos permitem percorrer é da cozinha à porta de entrada para receber alguns convidados”, resumiu Codou.

Ela convocou as mulheres a organizar espaços de intercâmbio e de convergência totalmente independentes das instituições governamentais e internacionais – assim como o Fórum Feminista busca fazer, e conforme já vem ocorrendo nos últimos dias no Senegal. De acordo com a pesquisadora, com muita freqüência o movimento tem dificuldades para reunir-se em espaços que não se encontrem monopolizados e controlados pelo Banco Mundial.

Durante os debates, foi destacada a necessidade de se lutar por serviços públicos que ajudem as mulheres em suas diversas tarefas e responsabilidades, pelo acesso das mulheres aos recursos em geral, assim como à educação, que permite às mulheres conhecer e exigir a aplicação de seus direitos.

Reconheceu-se, de modo unânime, que é necessário, antes de tudo, modificar os próprios costumes, comportamentos e atitudes, com vistas a uma verdadeira igualdade entre os sexos no âmbito das relações mais próximas, da família e das redes sociais.

A intevenção de Christine Vanden Daelen trouxe para o debate as estratégias do Banco Mundial a fim de instrumentalizar e controlar o movimento de luta das mulheres. Longe se ser um sinal de avanços progressistas no interior do Banco Mundial, a integração do tema de gênero nos discursos e ações do banco está diretamente ligada a interesses econômicos.

Para o Banco Mundial, a igualdade de gênero tem valor somente se for dada como uma fonte de eficiência econômica, se é rentável do ponto de vista do capital e se for integrada ao projeto político do banco. Protegido pelo discurso de que implementa políticas supostamente favoráveis às mulheres, o Banco Mundial com isso prossegue em sua política de desregulamentação do mercado de trabalho, da promoção da informalidade e de mecanismos de microcrédito que empobrecem as mulheres em lugar de ajudá-las.

No decorrer dos debates, as participantes e os participantes abordaram a necessidade e urgência de se reforçar as estruturas associativas de poupança e crédito, que, baseadas em uma solidariedade desprovida de interesses financeiros, podem oferecer uma verdadeira autonomia econômica às mulheres, constituindo-se assim como uma alternativa às estruturas de microcrédito baseadas no sistema do Banco Mundial.

Ao som de buzinas e da percussão

Ainda no dia 3, se uniram aos debates as mulheres do CADTM de Benin, da Costa do Marfim, do Mali, de Níger e de Burkina Faso. Os debates passaram então a tratar da necessidade de se manter uma atitude crítica frente aos costumes, tradições e práticas religiosas que impõem travas e restrições aos direitos e liberdades das mulheres.

Embora seja muito difícil registrar toda a riqueza dos debates e do intercâmbio ocorrido, podemos sem hesitação alguma afirmar que, de todas as muitas análises, vivências e depoimentos trazidos, fica estabelecida uma exigência comum a todo o conjunto de feministas (mulheres e homens) presentes. Todas e todos queremos que as mulheres tenham a possibilidade de desenvolverem-se segundo seus interesses e que não sejam vítimas de discriminações sistemáticas em função de seu sexo, independentemente dos costumes e do contexto cultural e religioso em que estiverem inseridas.

Luta-se, assim, pelo respeito à dignidade das mulheres. Luta-se contra o neoliberalismo que reforça e se alimenta das desigualdades de sexo e que é a fonte da degradação das condições de vida do conjunto da humanidade.

Ao final do dia 3, uniram-se aos debates, progressivamente, as e os militantes das caravanas que chegavam ao ritmo das buzinas dos automóveis e dos instrumentos de percussão, convergindo na região de Kaolack, no Senegal. À noite, aproximadamente 800 pessoas haviam chegado para participar do restante da programação.

Na sexta-feira (4 de fevereiro), teve início o Fórum de Lutas Feministas Africanas. Tudo nos leva a pensar que a palavra sem censura, os depoimentos compartilhados e as alternativas propostas durante esta primeira jornada encontrarão neste Fórum um novo espaço para se consolidarem e para que se torne possível compartilhar outras experiências, vivências e debates.

(*Christine Vanden Daelen, CADTM – Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo)

http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17366&editoria_id=6

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