A vida de uma prostituta: “Se fere ou não a mulher, os homens não se importam.”


 

Soco na cara, empurradas de escadas, mordidas, famintas e espancadas – mulheres envolvidas na prostituição em Portugal estão cada vez mais em risco de violência. Será que este aumento da agressão sexual pode significar  uma ligação entre a degradação da mulher e a disponibilidade universal da pornografia?

A notícia de que a demanda por serviços de prostitutas tem sido afetada pela recessão foi surpreendente. Mas, como muitos negócios, isso não impediu que a indústria exigisse  maior produtividade de suas trabalhadoras, então o fato de que as mulheres na prostituição são forçados a assumir maiores riscos é de surpreender qualquer um.

O lançamento semana passada do relatório anual da Ruhama, instituição para as mulheres afetadas pela prostituição, desencadeou uma onda suave de curiosidade sobre a vida de um dos grupos mais controversos da sociedade.

No ano passado, essas mulheres, ”relataram níveis terríveis de abuso sexual, físico e emocional”, disse a executiva principal da instituição, Sarah Benson. Houve relatos de socos na cara, no estômago, foram empurradas escadas abaixo, espancadas  por se recusar a ter relações sexuais com homens, foram trancadas, foi recusado alimentos, foram queimadas e mordidas.

As mulheres foram informadas pelos compradores que eram “feias”, “não muito boas”, que “deveria pelo menos tentar parecer que você está gostando”, enquanto seus corpos foram usadas da maneira que o comprador queria, disse Benson . O que significa “transformar-se em um banheiro público”, nas palavras de uma ex-prostituta, esta semana.

A noção de uma transação mutuamente prazerosa, sem dano – como os promovidos pela indústria e os apoiantes da legalização – assenta-se totalmente em desacordo com a realidade dessas situações. Se não fosse pelos destroços que deixam para trás, a auto-ilusão do comprador médio de sexo seria risível.

Uma olhada em um site de acompanhantes, onde os homens irlandeses usando pseudônimos tais como , “Mountdick” e “BigLad” expõe  “opiniões” da mercadoria humana, as contradições inerentes são alucinantes.  “Ela é massa em minhas mãos”,  exulta  “Scankman”.

Outro escreve: “a partir do segundo que eu a  conheci, ela estava em cima de mim me beijando apaixonadamente”.

Um homem que tinha “reservado um par de vagabundas safadas”, acabou por encontrar duas mulheres parecendo  normais  e estava prestes a sair, até que “elas me garantiram que eu estava no lugar certo, e ambas queriam que as usásse como nojentos pedaços de sujeira “.

Uma carreira que todo pai quer para sua filha com certeza, não?!

Em algum um nível, estes homens – alguns dos quais pagam por sexo até 10 vezes por mês, de acordo com as suas próprias mensagens – iludem-se que as mulheres acham que são irresistíveisl. Em outro,  também parecem acreditar que as mesmas mulheres são sub-humanas: “Aconteceu isso alguns meses atrás. Ela me deu  um nome diferente. . . Ela odeia seus clientes, odeia o trabalho, odeia o mundo. Fique bem longe dessa. “

Outro cliente, cujo objeto humano não conseguiu satisfazê-lo como queria, escreve: “A janela não abriu, e a sala estava muito quente, e Amanda tomou uma atitude sobre o quanto eu estava suando.  Eu queria enfiar meu pau para dentro de sua garganta até que ela ficasse engasgada,  mas ela insistiu em fazê-lo do seu jeito. . .

Certamente não é a experiência que eu esperava, como já  me aconteceu  com algumas senhoras acolhedoras  Checas e da Eslováquia que engasgaram e engoliram meu pau. . .”  Para ser 100% honesto e justo com outros postadores, que listam algumas coisas em seu perfil do que eles realmente não fazem [enumeram diligentemente] como nos filmes pornô.

Sr. Loneranger reclamou que em sua visita à “Sweet Rebeka”, nem banho foi oferecido e que “por via oral foi  com preservativo”.

Excepcionalmente, Rebeka respondeu no site: “se eu lhe pedisse  para ir no banheiro, você talvez achasse  que eu insinuo que  você não está limpo, e eu não querio ofendê-lo, se você realmente quisesse um banho, poderia pedir. Mas agora eu percebi que eu deveria pedir-lhe para ir para o chuveiro, que era a razão para oral com preservativo, minha saúde  é mais importante que uma crítica ruim. “

Em um único parágrafo, Rebeka revela  a vida quotidiana de uma mulher na prostituição: o medo de ofender ao cliente, apesar de repulsivo, malcheiroso ou degradante, o risco contínuo com sua própria saúde, e – de maneira menos óbvia – uma preocupação constante com a reação de seu cafetão com  as opiniões dos “pobres” clientes e a consequente necessidade de se defender. Acredita-se que as mensagens de ambos os lados são freqüentemente colocadas e / ou fiscalizadas por aqueles que controlam as mulheres e as suas receitas.

Neste mundo de fantasia,  de negação em  massa e de auto-ilusão – onde as queixas de muitos compradores  são sobre fotografias enganosas, mau conhecimento do  Inglês, a recusa de participar de beijo francês (apesar da variedade de outros serviços profundamente degradante em oferta) ou em atos sem preservativo – uma resposta mais típica de uma mulher mal analisado é aquele que diz: “obrigada por  seus conselhos. Espero que um dia você me dê outra chance. “

O que é óbvio após este arrasto deprimente, é que as 527 supostas “fêmeas irlandesas” em oferta esta semana neste unico website – com sede em Londres, para os usuários da Irlanda – eram quase exclusivamente não-irlandesas. Muitas delas declararam-se disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, oferecendo uma variedade de “serviços” para a qual a maioria das pessoas  necessitariam  de um glossário. É um longo caminho até a  Pretty Woman.

Descrevendo a sua vida na prostituição “indoor”, “Marie”, uma cliente Ruhama, descreve a natureza móvel dos negócios agora.

“Os cafetões levam  as mulheres a sul do país para qualquer coisa de uma semana a duas semanas, a única comunicação humana que você tem é com os clientes. Você está sentada no apartamento para qualquer coisa de 6 a 13 dias, sozinha, e você deve estar disponível para 12 a  16 horas por dia de trabalho, em um apartamento com as cortinas sempre fechadas, sem nunca ver a luz natural “.

Os homens estão cada vez mais jovens, ela diz, e muito mais fisicamente agressivos. “Eles vêm em grupos de dois e três e incitam-se mutuamente para atos mais agressivos e violentos”.

As histórias sobre homens solitários que só queriam conversar, são um mito em sua experiência. Todos os homens mostram uma disposição violenta, uma vez que estão com uma prostituta, ela diz: “Quer chamá-la de ‘vagabunda’, ‘suja’, penetrando bem fundo e agressivamente. . . Ele só quer ejacular e se dói o corpo da mulher ou não, ele não se importa. “

O uso de prostitutas na Irlanda é agora tão normalizado, diz Marie “, que os homens vão sentar e conversar abertamente sobre algumas das coisas que eles fizeram. É uma coisa aceite agora para os homens assumir que irão receber oral sem camisinha, e algumas mulheres têm medo de recusar,porque poderão perder os clientes e o dinheiro para o cafetão.

E o cafetão, é claro, é muito temido.

Marie concorda que há mulheres que livremente escolhem a prostituição por dinheiro. O problema para as mulheres, ela diz, é que elas descobrem só anos mais tarde o quão degradadas e quebradas, tornaram-se devido à sua escolha: “Estas mulheres não estão satisfeitas com o que estão fazendo, mas felizes com o dinheiro que recebem.”

A realidade, porém, é que enquanto uma mulher na prostituição é considerado de valor superior a 100.000 € por ano, a maior parte dele vai para o seu cafetão e os operadores do website.

A ligação entre o aumento da agressividade e demandas mais degradante de homens mais jovens com a disponibilidade universal de pornografia, é impossível de ignorar.

“Esta é a dessensibilização em massa que se constata”, diz Ellen O’Malley Dunlop do Rape Crisis Centre Dublin.

Em julho, a linha de apoio ao Rape Crisis Centre Dublin ouviu  62 chamadas pela primeira vez em relação a estupros recentes, três relatórios de  estupros conjugais, quatro relacionadas com “drogas” de estupro e 11 agressões sexuais recentes.

Claramente, a ampla disponibilidade de sexo para venda em toda a Irlanda rural – cada vez mais em países como Longford, Roscommon, Monaghan e Wexford – não têm reduzido a criminalidade sexual na população em geral.

Dez anos atrás, o governo sueco cortou  as sutilezas sobre “redução de danos” para as mulheres que trabalham na prostituição e à distinção entre prostituição voluntária e não voluntária. Partindo da premissa de que a prostituição implica um prejuízo grave para os indivíduos e a sociedade, e que, sem demanda, não haveria prostituição, tornou-se o primeiro país no mundo a introduzir a legislação que criminaliza a aquisição, mas não a venda, de serviços sexuais.

Desde então, a prostituição de rua foi cortado pela metade, de acordo com um relatório do Ministério da Justiça sueca, em Julho, enquanto na vizinha Noruega e Dinamarca aumentou dramaticamente.

Embora a prostituição pela  Internet aumentou nos três países, não há nada que indique que o problema de Portugal é maior do que qualquer dos outros. Em outras palavras, a proibição não resulta  em uma mudança por atacado de prostituição de rua para a internet. E a prostituição não foi para a clandestinidade, como se temia.

“As pessoas que trabalham com a questão da prostituição  não consideram que tenha havido um aumento desde que a proibição foi introduzida”, diz o ministério. “Segundo o Instituto Nacional de Polícia Criminal, é claro que a proibição. . . age como uma barreira para traficantes de seres humanos e compradores, considerando que se estabeleçam na Suécia. “

O resultado mais dramático, talvez, é a mudança radical de atitude que tem vindo sobre a população sueca nestes 10 anos. Mais de 70 por cento agora tem  uma visão positiva da proibição, em nítido contraste com a Noruega e a Dinamarca. Quanto às mulheres que trabalham na prostituição, o padrão diz sua própria história. “É claro, e parece lógico”, diz o relatório, “que aquelas que se livraram da prostituição tem uma visão positiva da criminalização, enquanto que aquelas que ainda são exploradas na prostituição são críticas da proibição.”

Get help

  • Rape Crisis Centre Call the National Helpline on 1800 77 88 88 or see drcc.ie
  • Ruhama Call 01-836 0292 or see ruhama.ie

http://www.irishtimes.com/newspaper/features/2010/0830/1224277854132.html

Tradução Arttemia Arktos

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