Como as ações feministas e as ações antiprostituição estão realmente interligadas?


Veja, a maioria das que se declaram feministas são contra o que é frequentemente referido como “cultura do estupro”, que quer dizer a cultura em que as mulheres estão sendo constantemente ameaçadas de estupro e relações sexuais normais são deformadas para que os homens procurando mulheres para estuprar seja considerado a norma. Cultura do estupro é uma cultura em que homens são encorajados a tomar sexo de suas parceiras independentemente de consentimento e as mulheres a serem objetos sexuais passivos para estes homens. Mulheres são valorizadas por nada além de sua capacidade de serem adequados brinquedos de foder  para homens no comando.

Em uma cultura do estupro, se uma mulher tentar estabelecer seu próprio valor quando ela quiser, seja saindo vestida do modo que bem entender, à noite e indo a um boteco onde planeja beber sozinha, é ameaçada e mantida na linha com a possibilidade de um estupro. Em uma cultura do estupro, um homem é tratado como se sempre tivesse direito ao sexo quando e como ele quiser, com a implicação de que se alguém não lhe oferecer o que quer agora, ele vai e toma.

Prostituição é uma parte intrínseca desse sistema. É o dispositivo pelo qual homens dizem que na verdade, eles sempre tem o direito ao sexo e nunca deveriam ficar sem. É o paliativo que se oferece aos homens na esperança de que sua poderosa e inconveniente virilidade não estuprará a nós, mulheres indefesas. E esse paliativo é oferecido aos homens porque é impensável que eles sejam ensinados a não ser sádicos e odiar as mulheres na expressão de sua sexualidade.

Não só a prostituição apóia o “satisfaça-nos ou vamos estuprar você” enquanto aspecto da cultura patriarcal, como confirma a visão de mundo dos homens que acreditam que esta é a maneira correta de viver. Mulheres são objetos que você pode  comprar da mesma forma que você compra um tupperware. Mulheres são brinquedos de foder _ você pode até dizer-lhes isso e vão concordar (porque você paga). As mulheres sempre querem isso (porque você paga para que finjam isso também). É impossível estuprar algo que é menos do que plenamente humano e que sempre vai querer fazer sexo com você de qualquer maneira. Isso é o que os homens estão pagando para ser a regra quando saem com uma garota de programa, stripper ou qualquer uma que venda a ilusão de sexo.

Eles pagam para fingir que uma mulher nunca pode dizer não. E ainda imaginam que nenhuma mulher pode recusá-los quando  entram em seus carros para encontrar algumas universitárias para assediar. Eles pagam pelas mulheres para confirmar e em conformidade com a cultura patriarcal do estupro. A eliminação da indústria do sexo, eliminaria uma das maneiras em que a cultura do estupro se perpetua. A eliminação da indústria do sexo poderia e deveria ser o caminho feminista acordado para que as mulheres fossem tratadas como mais do que mercadoria e os homens entendessem que não é o fim do mundo, se eles não conseguem encontrar alguém para se envolver em sexo consensual com eles.

http://whyihatefunfaq.blogspot.com/2008/03/how-are-feminist-attitudes-and-anti-sex.html

Tradução:  Arttemia Arktos

Profissional do sexo? Nunca conheci uma!


By Trisha Baptie

Eu fui uma prostituta por 15 anos e eu nunca conheci uma profissional do sexo. O nome deriva do filme Pretty Woman _ e das pessoas que apóiam e se beneficiam da mercantilização da mulher. Conheço mulheres prostituídas _ e eu mesma fui uma _ e estavam ali para fugir da pobreza, do racismo, do classismo, do sexismo e do abuso sexual.

Naquele tempo, eu lhes teria dito que era emponderador e libertador _ como eu poderia me olhar no espelho de outra forma? No entanto, meu coração se partia sempre que eu via cada nova garota entrando no “comércio”. E nenhum de nós quer que sua filha entre para essa indústria de sugadores de alma.

Eu sou contra o sexo como trabalho porque não afeta sós as mulheres envolvidas mas todas as mulheres e nossa interação com o mundo. Aqui e em todo lugar,  mulheres _ quase todas empobrecidas e vítimas do racismo _ são obrigadas, coagidas, agredidas e levadas a esta indústria. É porque eu quero que TODAS sejam livres _ que eu sou contra a nossa venda como brinquedos de masturbação.

As pessoas, ás vezes, dizem: “Ela tem que pagar as contas”. Que tal oferecer-lhes educação, oportunidade, dignidade e um salário garantido que lhes permita viver bem? E se déssemos apoio ás crianças e fizéssemos uma rede de segurança, assegurando cuidados governamentais quando esse cuidado lhes faltasse? Existem outras maneiras de ajudar as mulheres sem oprimi-las.

Minhas amigas que ainda estão nas ruas, sabem o que faço e todas elas me apóiam. Por elas não quero que ninguém mais entre nessa vida. Assim, elas trabalham para colocar-se fora de perigo, e eu para ter certeza de que os homens serão presos antes de comprá-las.

Redução de danos? Você não pode fazer a prostituição “mais segura”, a prostituição é violência em si. É estupro, o dinheiro apenas propicia o alívio da culpa nos homens. Nós realmente acreditamos que eles não podem viver sem a necessidade de sair à procura de orgasmos frequentemente? E também, por que as mulheres são as únicas requisitadas a fazer exames de saúde para se certificarem de que estão “apropriadas” para o abuso deles? Por que não forçam os homens aos exames de saúde para a segurança das mulheres?

Por que institucionalizar o pior na humanidade? Nossa cultura impõe uma visão patriarcal da mulher, exigindo de nós a ter sexo sob demanda, arrancar nossos pelos, submeter-nos à cirurgia plástica… E se as mulheres fossem autorizadas a serem mulheres consideradas belas em suas diferenças? Fico triste de ver o quanto a sociedade influencia mulheres e garotas a agir como prostitutas.

Quanto à assim chamada “escolha” para ter relações sexuais muitas vezes por dia, com homens anônimos, minha experiência pessoal, pinta um quadro bastante diferente. Onde existe a prostituição, há tráfico humano, crime organizado, drogas e uma infinidade de outras atividades criminosas que nenhum país conseguiu se desvencilhar. Por que nós permitimos que uma parcela nos imponha seu individualismo, quando sabemos que a sociedade como um todo vai sofrer e serão as mulheres pobres e as mulheres negras, cujos direitos serão pisoteados para manter a oferta de sexo para os homens se perpetuando?

______________________________________
Trisha Baptie é uma ex-prostituta que vive em Vancouver. Livrou-se do vício das drogas e da rua há oito anos. Uma jornalista abolicionista, mãe e independente, que recentemente cobriu o julgamento do assassino de Robert Pickton para várias mídias.

http://www.wifp.org/ViolenceAgainstWomen.html

Tradução:  Arttemia Arktos

A pornografia é uma questão da esquerda


Gail Dines e Robert Jensen

Feministas anti-pornografia se acostumaram com os insultos da esquerda. Mais e mais somos informadas de que somos anti-sexo, pudicas, simplistas, politicamente ingênuas, diversionistas e tacanhas. Os críticos mais rudes, não hesitam em sugerir que a cura para esses males está em, como digamos, uma sólida experiência sexual.

Além dos insultos, nós constantemente enfrentamos uma pergunta: Por que  perdemos o nosso tempo com a questão da pornografia? Uma vez que somos anti-capitalistas e esquerdistas anti-imperialistas, bem como feministas, não devemos nos concentrar  nas muitas crises políticas, econômicas e ecológicas (guerra, pobreza, aquecimento global, etc)? Por que gastaríamos parte de nossas energias intelectuais e de organização ao longo das últimas duas décadas prosseguindo na crítica feminista à pornografia e à indústria da exploração sexual?

A resposta é simples: Nós somos contra a pornografia precisamente porque somos de esquerda, bem como feministas.

Como  esquerdistas, rejeitamos o sexismo e o racismo que satura o mercado de massa  contemporânea da pornografia. Como esquerdistas, rejeitamos a mercantilização capitalista de um dos aspectos mais básicos de nossa humanidade. Como esquerdistas, rejeitamos a dominação das empresas de mídia e cultura. Feministas anti-pornografia não estão pedindo que a esquerda aceite uma nova maneira de olhar o mundo, mas em vez disso, argumentando por  consistência na análise e aplicação de  princípios.

Sempre pareceu-nos estranho que muitos da esquerda de forma consistente,  se recusam a se envolver em uma crítica sustentada e ponderada da pornografia. Tudo isso é particularmente desastroso num momento em que a esquerda está se debatendo para encontrar adesão por parte do público,  uma critica da pornografia baseada em uma análise feminista radical de esquerda que se contraponha aos direitistas moralistas, poderia ser parte de uma estratégia de organização eficaz.

Análise da mídia pela esquerda

Esquerdistas examinam a mídia como um local onde a classe dominante cria e impõe definições  e explicações do mundo. Sabemos que  notícias não são  neutras, que os programas de entretenimento são mais do que apenas diversão e jogos. Estes são lugares onde a ideologia é reforçada, onde o ponto de vista dos poderosos é articulado.Esse processo é sempre uma luta, as tentativas de definir o mundo pelas classes dominantes podem ser, e são, combatidos. O termo “hegemonia” é geralmente usado para descrever este sempre contestado processo, a maneira pela qual a classe dominante tenta assegurar controle sobre a construção de sentido.

A crítica feminista da pornografia é consistente com – e, para muitos de nós,  se origina de – uma análise amplamente aceita na esquerda ,  da ideologia  hegemônica  dos meios de comunicação, levando à observação de que a pornografia está para o patriarcado assim como os comerciais de tv para o capitalismo. No entanto, quando a pornografia é o tema, muitos na esquerda parecem esquecer-se da teoria de Gramsci da hegemonia e aceitar o argumento de auto-defesa do pornógrafo de que a pornografia é mera fantasia.

Aparentemente, a percepção comum da esquerda de que as imagens da mídia podem ser ferramentas para a legitimação da desigualdade, vale para uma análise da CBS ou  CNN, mas evapora-se quando a imagem é de uma mulher tendo um pênis enfiado em sua garganta com tanta força que engasga. Nesse caso, por razões inexplicáveis, não devemos tomar a sério as representações pornográficas ou visualizá-los como produtos cuidadosamente construídos  dentro de um sistema mais amplo de gênero, raça e desigualdade de classe. O  valioso trabalho realizado pela crítica sobre a política da mídia de produção, aparentemente, não tem valor para a pornografia.

A pornografia é fantasia, de uma espécie. Assim como programas policiais na tv  que afirmam a nobreza da  polícia e promotores como protetores do povo são fantasia.  Assim como as histórias de Horatio Alger de que trabalho duro são recompensados no capitalismo são fantasias. Assim como os filmes onde o elenco árabe são todos terroristas, são uma fantasia.

Todos esses produtos da mídia são criticados pela esquerda, precisamente porque o mundo de fantasia que eles criaram é uma distorção do mundo real em que vivemos. A polícia e promotores fazem, por vezes, a busca pela justiça, mas também reinforçam o regime dos poderosos. Os indivíduos no capitalismo prosperam  algumas vezes como resultado de seu trabalho árduo, mas o sistema não fornece a todos os que trabalham duro uma vida decente. Um pequeno número de árabes são terroristas, mas isso fica obscurecido na América branca quanto à humanidade da grande maioria árabe.

Tais fantasias também refletem como os detentores do poder querem que as pessoas subordinadas se sintam. Imagens de negros felizes nas plantações fazem brancos se sentirem satisfeitos na sua opressão aos escravos. Imagens de trabalhadores satisfeitos acalmam os receios capitalistas de uma revolução. E homens lidam com seus complexos sentimentos sobre a masculinidade contemporânea e sua tóxica mistura de sexo e agressão, buscando imagens de mulheres que gostam de dor e humilhação.

Por que tantos na esquerda parecem assumir que pornógrafos  operam num universo diferente do de outros capitalistas? Por que a pornografia seria a única forma de representação produzida e distribuída por empresas que não seria um veículo para legitimar a desigualdade? Por que os  pornógrafos  seriam os capitalistas rebeldes à procura de subverter o sistema hegemônico?

Por que os pornógrafos são, frequentemente, os únicos com livre acesso na esquerda?

Depois de anos enfrentando a hostilidade da esquerda em público e na imprensa, nós acreditamos que a resposta é óbvia: o desejo sexual pode restringir a capacidade das pessoas para a razão crítica – especialmente em homens no patriarcado, onde o sexo não é só prazer, mas sobre o poder.

Esquerdistas – especialmente os homens à esquerda – precisam superar a obsessão com escapismo.

Vamos analisar  a pornografia não como sexo,  mas como mídia. Onde é que se ligam?

A mídia corporativa

Críticas ao poder corporativo da mídia comercial são onipresentes na esquerda. Esquerdistas com diferentes projetos políticos podem se unir para condenar o controle dos conglomerados sobre notícias e entretenimento. Devido à estrutura do sistema, é um dado que estas corporações criam programas que vão de encontro aos interesses dos anunciantes e elites, não das pessoas comuns.

No entanto, ao discutir a pornografia, esta análise voa para fora da janela. Ouvindo muitos na esquerda defendendo a pornografia, poderíamos pensar que o material está sendo feito por artistas batalhadores que incansavelmente trabalham em sótãos só para nos ajudar a compreender os mistérios da sexualidade. Nada poderia estar mais longe da realidade.  A indústria da pornografia é apenas isso _uma indústria dominada por empresas de produção de pornografia que criam o material mainstream que corporações lucram distribuindo.

É fácil entender isso em troca de idéias entre os pornógrafos  _eles tem uma revista comercial  Adult Video News.  As discussões nela não tendem a se concentrar sobre o potencial transgressor da pornografia polissêmica dos textos sexualmente explícitos. Trata-se  _ que surpresa! _ de lucros. As histórias da revista não refletem uma consciência crítica sobre muita coisa, especialmente gênero, raça e sexo.

Andrew Edmond – presidente e CEO da Flying Crocodilo, uma empresa de pornografia de US $ 20 milhões  – coloca sem rodeios: “Um monte de gente arranja distração do modelo de negócios (o sexo). É tão sofisticado e multifacetado quanto qualquer outro tipo de mercado. Operamos como qualquer empresa da Fortune 500.”

As empresas de produção – a partir de grandes produtores, como Larry Flynt Productions aos pequenos operadores fly-by-night –  atuam como corporações no capitalismo, buscando maximizar a sua cota de mercado e o seu lucro. Eles não consideram as necessidades das pessoas ou os efeitos dos seus produtos, mais do que outros capitalistas. Romantizar a pornografia faz tanto sentido quanto romantizar os executivos da Viacom ou da Disney.

Pornografia incrementa igualmente o lucro das grandes corporações de mídia. Hugh Hefner e Flynt tiveram que lutar par ganhar credibilidade dentro dos salões do capitalismo, mas hoje muitos das corporações lucram com a pornografia através da propriedade de empresas de distribuição a cabo e internet.  As grandes empresas que distribuem pornografia também distribuem mídia. Um exemplo é o NewsCop de Rupert Murdoch.

NewsCop é o grande proprietário da DirectTv,  que vende mais filmes pornográficos do que Flynt.  Em 2000, o New York Times relatou que cerca de US$200 milhões de dólares é gasto por ano pelos 8,7 milhões de assinantes com a DirectTV. Entre News Corp  e outras explorações de mídia estão a Fox e redes de TV a cabo, a Twentieth Century Fox, o New York Post e TV Guide. Bem-vindo à  sinergia:  Murdoch também é proprietário da HarperCollins, que publicou o best seller  pornográfico de Jenna Jameson “How To Make Love Like a Porn Star”.

Quando Paul Thomas aceitou o prêmio de melhor diretor na cerimônia de premiação  da indústria da pornográfica de 2005, ele comentou sobre a empresarialização do setor, brincando: “Eu costumava receber o pagamento em dinheiro dos italianos.  Agora eu sou pago com um cheque de um judeu… ” Ignorando as  cruas referências étnicas  (Thomas trabalha principalmente para a Vivid, cujo dono é judeu), o seu ponto era que o que antes era em grande parte uma multidão de negócios financiados agora é apenas uma outra empresa corporativa.

Como a esquerda se sente  acerca de empresas corporativas? Queremos executivos ávidos por lucros corporativos construindo a nossa cultura?

Mercantilização

Há muito que se compreendeu que um dos aspectos mais insidiosos do capitalismo é a mercantilização da tudo. Não há nada que não possa ser vendido no jogo capitalista de acumulação infinita.

Na pornografia os riscos são ainda maiores, o  que está a ser mercantilizado é crucial para nosso sentido de self. Qualquer que seja a sexualidade ou pontos de vista sobre a sexualidade, praticamente todos concordam que é um aspecto importante da nossa identidade. Na pornografia e na indústria do sexo em geral, a sexualidade é mais um produto para ser embalado e vendido.

Quando essas preocupações são levantadas, os esquerdistas pró-pornografia, muitas vezes correm para explicar que as mulheres da pornografia escolheram esse trabalho. Embora qualquer discussão sobre a escolha deva levar em consideração as condições em que se escolhe, não contestamos que as mulheres escolhem, e como feministas respeitamos a escolha e tentamos compreendê-la.

Mas, no melhor de nosso entendimento, ninguém na  esquerda defende a mídia capitalista – ou qualquer outra empresa capitalista -apontando  os trabalhadores como tendo consentido em fazer o seu trabalho. As pessoas que participam da produção de conteúdo de mídia ou qualquer outro produto, consentem em trabalhar em tais empresas. E daí? A crítica não é sobre os trabalhadores, mas sobre os proprietários e estrutura.

Olhe para a maior estrela da indústria Jenna Jameson, que parece controlar a sua vida empresarial. No entanto, em seu livro, ela relata que foi estuprada na adolescência e descreve as maneiras pelas quais os homens que passavam por sua vida a cafetinavam. Seu desespero por dinheiro também vem à tona quando ela tentava conseguir um emprego como stripper, mas parecia muito jovem _ela entrou num banheiro e tirou o aparelho dos dentes com um alicate. Ela também descreve o abuso de drogas e lamenta os muitos amigos na indústria que perdeu para as drogas. E esta é a mulher que se diz a mais poderosa da indústria.

Entendemos que numa análise da esquerda, o foco não está nas decisões individuais sobre como sobreviver em um sistema que transforma tudo em mercadoria e retira-nos oportunidades significativas para controlar nossas vidas. É sobre a luta contra um sistema.

 Racismo

Como as formas mais gritantes e repelentes de racismo desapareceram da mídia, a esquerda tem salientado que as formas sutis sustentam o racismo, e que sua constante reprodução através da mídia é um problema. Raça importa e representações raciais da mídia, importam.

A pornografia é o único gênero de mídia em que o racismo declarado é aceitável.  Não é racismo sutil, codificado, mas o antiquado racismo americano _representações estereotipadas do garanhão negro do sexo masculino, a animalesca mulher negra, a latina quente, a gueixa asiática recatada. Fornecedores  de pornografia tem uma categoria especial, “inter-racial”, que permite aos consumidores exercer várias combinações de características raciais e cenários racistas.

O racismo do setor é tão abrangente que passa despercebido. Numa entrevista com o produtor do DVD “Black Bros and Asian Ho’s”, um de nós perguntou se ele já foi criticado pelo racismo da tais filmes. Ele disse: “Não, eles são muito populares.” Repetimos a pergunta: “Popular sim, mas as pessoas nunca criticam o racismo?” Ele olhou incrédulo; a questão aparentemente nunca passou pela sua cabeça.

Num tour por lojas de material pornográfico fica claro que justiça racial não é central para a indústria. É típica a declaração em filmes do tipo “Black Attack Gang Bang”: “Minha missão é encontrar lindas bonequinhas brancas para serem metidas com força  por alguns grandes e duros paus negros .” Seria interessante ver esquerdistas pró-pornografia argumentando para um público não-branco que estes filmes não estão relacionados com a política de raça e supremacia branca.

O mercado de produtores como Vivid utilizam principalmente mulheres brancas, o rosto oficial da pornografia é predominantemente branco. No entanto, paralelamente a este gênero existe um material mais agressivo em que as mulheres negras aparecem com mais freqüência. Como uma mulher negra na indústria nos disse: “Este é um negócio racista”, de como ela é tratada pelos produtores no dia-a-dia recebendo pagamento diferenciado nas negociações que ela tem no set.

Sexismo

O mercado de massa contemporâneo da pornografia heterossexual _ a maior parte de mercado de material sexualmente explícito _ é um local onde um significado particular de sexo e gênero é criado e distribuído. A mensagem central da pornografia não é difícil de discernir: mulheres existem para o prazer sexual dos homens, de qualquer forma que os homens quiserem o prazer, não importando as conseqüências para as mulheres. Não se trata apenas das mulheres existirem para o sexo, mas elas existem para o sexo que os homens querem.

Apesar de ingênuas (ou falsas) as alegações sobre a pornografia como um veículo para a liberação sexual das mulheres, a maior parte da pornografia de massa é extremamente sexista. A partir da linguagem ofensiva usada para descrever as mulheres, do  papel subordinado, à própria prática dos atos sexuais _pornografia é implacavelmente misógina. Como a indústria “amadurece” o mais popular gênero desses filmes _chamado “gonzo”, continua a empurrar os limites da degradação e crueldade para com as mulheres. Diretores reconhecem que não tem certeza até onde isso vai chegar a partir do nível atual.

Esta misoginia não é uma característica popular de alguns tipos de filmes, com base em três estudos sobre o conteúdo dos vídeos mainstreams/DVDs pornográficos dos últimos 10 anos, concluímos que o ódio à mulher é fundamental na pornografia contemporânea. Tire todos os vídeos em que uma mulher é chamada de vadia, puta, piranha ou prostituta, e as prateleiras estariam quase vazias. Tire todos os DVDs em que uma mulher se torna o alvo do desprezo de um homem e não sobraria muito com o que sair. Mercado de massa da pornografia não celebra as mulheres e sua sexualidade, mas manifesta o desprezo pelas mulheres e celebra o ponto de vista de expressar sexualmente esse desprezo.

Os de esquerda, normalmente rejeitam as análises biológicas deterministas para a desigualdade. Mas a história do sexo na pornografia é a história do determinismo biológico. O tema principal da pornografia é que as mulheres são diferentes dos homens e gostam de dor, humilhação, degradação, pois elas não merecem a mesma humanidade que os homens porque elas são um tipo diferente de seres. Na pornografia, não é apenas que elas queiram ser  fodidas de modo degradante, mas que elas necessitam.

Pornografia em última análise, conta historias sobre o lugar que pertence ás mulheres _abaixo dos homens.

A maioria da esquerda critica o patriarcado e rejeita o sistema de dominação masculina. Sexo é uma das arenas dessa luta contra a dominação e, portanto, uma arena de luta ideológica. Coloque a percepção da mídia junto com argumentos feministas sobre a igualdade sexual, e você terá um argumento antipornografia.

A necessidade de uma análise consistente do poder

Esquerdistas que de outra forma se orgulham dos sistemas de análise de estruturas do poder, se transformam em individualistas libertários extremistas quando o assunto é pornografia. O sofisticado pensamento crítico que subjaz a melhor das políticas da esquerda pode dar lugar a uma análise simplista, politicamente ingênua e diversionista que deixa a esquerda brincando de cheerleader para uma indústria exploradora. Nestes termos, não devemos analisar a ideologia da cultura e de como ela molda as percepções das pessoas sobre suas escolhas, e devemos ignorar as condições em que as pessoas vivem, pois tudo diz respeito a escolhas individuais.

Uma crítica da pornografia não implica que a liberdade enraizada na capacidade do indivíduo de escolher não é importante, mas argumenta ao contrário, que estas questões não podem ser reduzidas a esse momento de escolha de um indivíduo. Em vez disso, temos que perguntar:  O que é liberdade significativa dentro de um sistema capitalista que é racista e sexista?

Esquerdistas têm sempre desafiado  a argumentação dos poderosos de que a liberdade consiste em aceitar um lugar em uma hierarquia. As feministas têm destacado que um dos sistemas de poder que nos constrange é o gênero.

Defendemos que esquerdistas que tomam a sério o feminismo devem reconhecer que a pornografia, juntamente com outras formas de exploração sexual  _principalmente de mulheres, meninas e meninos, pelos homens _ no capitalismo é incompatível com um mundo em que pessoas comuns podem assumir o controle dos seus próprios destinos.

Essa é a promessa da esquerda, do feminismo, da teoria racial crítica, do humanismo radical – de todos os movimentos libertadores na história moderna.

Gail Dines is a professor of American Studies at Wheelock College in Boston. She can be reached at gdines@wheelock.edu.

Robert Jensen is a professor of journalism at the University of Texas at Austin. He can be reached at rjensen@uts.cc.utexas.edu.

They are co-authors with Ann Russo of Pornography: The Production and Consumption of Inequality. Both also are members of the interim organizing committee of the National Feminist Antipornography Movement.  For more information, contact feministantipornographymovement@yahoo.com  or go to http://feministantipornographymovement.org/

In http://www.hustlingtheleft.com/CRAPP_E_LIB/leftissue.html

Tradução Arttemia Arktos

Textos relacionados:

Pornografia e Prostituição – Uma breve história dos mecanismos de opressao dos machos

Pornografia – enciclopédia sexual dos machos

Publicidade e pornografia simbólica

Pornografia e capitalismo

Sexualidade humana e pornografia industrial

Pornografia é arte feminista? 

Liberdade sexual, pornografia e feminismo

A história de Linda Susan Boreman – de atriz pornõ a militante feminista

Devemos nos preocupar se a pornografia sequestrou nossa sexualidade?

Sim, pornografia é racista

Todo mundo tem problemas sexuais

O meu brainstorm da pornografia

O lado negro da pornografia

Myths of porn

Homens e meninos _ excerto de Pornografia, homens se apossando de mulheres

Pornografia celebra violência contra mulher

Pornografia torna o mundo mais violento

Efeitos da Pornografia

Manifesto antipornografia

Como as políticas do orgasmo sequestraram o movimento feminista

Chamada pelo fim da pornificação da sociedade

Combo sobre exploração sexual de mulheres na pornografia

Entradas Mais Antigas Anteriores Próxima Entradas mais recentes

%d blogueiros gostam disto: