Livros Feministas


O que é feminismo

O segundo sexo I Simone de Beauvoir

O segundo sexo II Simone de Beauvoir

A Mistica feminina Betty Friedan

A vindication of the rights of women Mary Wollstonecraft

Memórias da transgressão Glora Steinem

Teoria feminista Andrea Nye

Politica Sexual Kate Millet

A mulher eunuco

Um amor conquistado Elisabeth Badinter

O mito da beleza Naomi Wolf

Gordura é uma questão feminista Susie Orbach

Backlash Susan Faludi

O feminismo mudou a ciencia Londa Schienbinger

Genero corpo conhecimento Jaggar e Bordo

Genero sexualidade e educação Guacira Lopes

Corpo feminino em debate Matos e Soihet

Genero e ciencias humanas Neuma Aguiar

Marcadas a ferro vários autores

Olhares feministas vários autores

Luta, substantivo feminino

Genero feminismos e ditaduras no cone sul

Reflexoes feministas sobre informalidade e trabalho doméstico

Os monólogos da vagina Eve Ensler

Mulheres de Cabul

Pão e Rosas Andrea D’atri

Eu nem imaginava que era estupro Robin Warshaw

Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil Rose Marie Muraro

The Industrial Vagina:  The political economy of the global sex trade  Sheila Jeffreys

Feminismo e luta das mulheres

Creches públicas garantir o direito das mulheres ao trabalho e ao estudo

Por uma vida sem violência

Where We Stand Class Matters – bel hooks

We Real Cool Black Men Masculinity – bell hooks

Feminism is for Everybody bell hooks 

Against pornography _ 1 of 5

Against pornography _ 2 of 5

Against pornography _ 3 of 5

Against pornography _ 4 of 5

Against pornography _ 5 of 5

Our Blood – Andrea Dworkin

Andrea Dworkin I

Andrea Dworkin II

Andrea Dworkin III

Andrea Dworkin IV

Andrea Dworkin V

Against Our Will

Feminist Thought a More Comprehensive Intro

Theorizing Patriarchy – Sylvia Walby

A dialética do sexo – parte I e parte II

Textos interessantes:

O cálice e a espada Riane Einsler

F.A.Q. Feminista

O Dilema do Homem Branco – A procura do que deve ser destruído – Maria Mies

Quando feministas tomam conta de homens

Mulher, Povo Colonizado

Feminilidade, Heterossexualidade e a Síndrome de Estocolmo

Adeus a Tudo Isso de Robin Morgan

Lei Maria da Penha

Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher

Prostitution is sexual violence

Coletânea de textos sobre feminismo

Igualdade de oportunidades para as mulheres Eva Alterman Blay

As guerras religiosas contra as mulheres _excerto de A guerra contra as mulheres de Marilyn French

A origem da família da propriedade privada e do estado Engels

O que acontece com a vida das mulheres que tiveram um aborto negado?

28/09 _ Dia Latinoamericano pela legalização do aborto na América Latina e Caribe

Mitos e fatos sobre violência sexual

Como as ações feministas e as ações antiprostituição estão realmente interligadas?

A pornografia é uma questão da esquerda

Legalização da Prostituição ou Institucionalização da Escravatura Sexual?

Prostituição e tráfico de seres humanos

8 de março, dispensamos a rosa. Preferimos respeito e igualdade!

Mulheres negras recebem até 172% menos

Sexismo na linguagem: algumas notas

Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Do “cliente” ao proxeneta, a banalização da prostituição

Sim, pornografia é racista

A violência contra a mulher e o capitalismo

Prostituição: Direitos das Mulheres ou Direitos SOBRE as Mulheres?

O que é machismo?

Por que feminismo radical?

A dominação masculina

Infiel Ayaan Ali

Um teto todo seu

Uma Conversa Sobre Questão Trans

Uma Crítica Feminista ao Cisgênero – Elizabeth-Hungerford1-1

Tradução – Introdução de “Radical Feminism Today”

Feminismo Radical História Política Ação – Robyn-Rowland-e-Renate-Klein-parte

Carta aberta aos homens no movimento


DAN SPALDING
Cale a Boca! ou como agir melhor em reuniões
“Mesmo com minha máscara eu sempre falei a tirania do poder. Meu primeiro dever era cultivar um silêncio revolucionário”.  Subcomandante Marcos
INTRODUÇÃO:
Ser um/a ativista nesses dias significa lutar por um milhão de coisas diferentes- direitos indígenas, florestas, corporações, etc. Apesar dessa diversidade de campanhas, parece haver algum acordo no tipo de sociedade que queremos criar. É uma sociedade que não é baseada na supremacia branca, na exploração de classes, ou no patriarcado.
Este texto é sobre como os homens agem em reuniões. Os homens reproduzemo patriarcado dentro do movimento e se beneficiam dele. Por patriarcado quero dizer sistema de valores, comportamentos e relacionamentos que mantém os homens no poder. É baseado na dominação, reivindicação de autoridade e beligerância. Por movimento, quero dizer o movimento anti-globalização corporativa dos EEUU, do qual sou parte.
Para ser mais claro, esses homens são quase sempre brancos e de classe média ou provenientes de ambientes mais ricos. Como alguém que se identifica como homem negro, minha experiência mostra que os homens negros dominam as reuniões basicamente do mesmo jeito que outros homens.
Mas percebo que homens que não falam inglês fluentemente tendem a não fazer isso com freqüência. E eu até queria poder pensar em mais exceções.
Quem se importa com reuniões?
Boa pergunta. Na maioria das reuniões em organizações grandes (com mais de 30 pessoas) nas quais estive, o trabalho real – fazer pesquisas, envolver pessoas, organizar protestos e ações, arrecadar fundos, trabalho com mídia – é realizado por grupos de trabalho ou indivíduos. Reuniões são apenas falatórios, certo?
Sim e não. Na pior das hipóteses, as reuniões forçam muitas pessoas a se encontrarem e, geralmente, discutirem tudo o que tem sido feito, o que está acontecendo, e o que precisa ser feito. Mas com uma boa facilitação, todo mundo contribui para a reunião, sem que ninguém tenha o controle sobre ela. As pessoas fazem críticas construtivas, e tentam incorporar as questões levantadas em suas propostas. E, uma vez que todos contribuem com idéias para o processo, as decisões tomadas não apenas são as melhores possíveis, mas também as em que as pessoas estarão investindo mais. Desde que todo mundo se sinta parte das decisões, é mais provável que assumam responsabilidades pelos projetos.
Se você leva a sério o processo de consenso, tem de se preocupar com as reuniões. Este é o único lugar onde um grupo pode, democraticamente, decidir o que e como fazer. A outra alternativa é um grupo informal das pessoas mais influentes e com mais força (que dominam discussões) tomando as grandes decisões.
Não é a freqüência com que você fala, mas como e quando:
Decisão por consenso é um modelo da sociedade que queremos viver, e uma ferramenta que usamos para chegar lá. Homens freqüentemente dominam o consenso às custas das outras pessoas. Pense no homem que…
• fala alto, primeiro, por muito tempo, e sempre; • Oferece sua opinião imediatamente quando alguém faz uma proposta, faz uma pergunta, ou quando a discussão está mais calma; • Fala com muita autoridade: “Na verdade, é assim…”; • Não consegue ratificar uma proposta ou idéia com a qual ele discorda, ao invés disso, acaba com ela; • Parafraseia tudo o que uma mulher diz: “Eu acho que o que a Maria está tentando dizer é…”; • Faz uma proposta, depois responde todas as perguntas e críticas a ela – às vezes falando mais que todas as pessoas juntas (nota: este homem freqüentemente acaba sendo o facilitador).
E nem me fale do homem que é um péssimo facilitador e:
• sempre se coloca em primeiro na lista de inscrições, porque ele pode; • de alguma forma, nunca vê as mulheres com mãos levantadas, e nunca encoraja as pessoas que ainda não falaram.
É raro apenas um homem apresentar todas as características problemáticas acima. Ao invés disso, são dois ou três competindo para fazer tudo. Mas o resultado é o mesmo: todos que não podem (ou não vão) competir nesses termos – falar muito, alto, primeiro e sempre- são abafados.
Mas não posso ser sexista – Sou hippie!
Ah, sim, você pode! A ironia é que você pode fazer todas as coisas listadas acima, mesmo se não se encaixa no estereótipo do homem machão. Um hippie, ou homens que são descritos como femininos, queer e outras coisas, pode falar calmamente e usar expressões hippies, mas ainda fala a voz da autoridade e corta a mulher que estava falando antes dele. Este homem ainda pode fazer cara de bunda quando alguém que ele não respeita diz alguma coisa que ele discorda, mandando-@ calar a boca; também pode, polidamente, se inscrever constantemente para falar toda vez que alguém critica sua proposta.
Então cale a boca agora!
Então, o que pode ser feito? Tive uma pequena idéia que eu gostaria de chamar “Cale a Boca”. É o seguinte, toda vez que alguém:
• disser algo que você acha irrelevante, • fizer uma pergunta (aparentemente) óbvia • criticar sua proposta ou fizer uma observação contraditória, • fizer uma proposta • fizer uma pergunta, ou • pedir mais insumos porque a discussão está mais tranquila…
Cale a porra da sua boca! É um processo radical, mas acho que você vai gostar.
Desde a minha infância, fui criado por meus pais – e cada um/a dos professores que tive no colégio- para demandar o máximo de atenção possível. Nas aulas eu falava com mais freqüência que quase todo mundo que eu conhecia. Enquanto me aconselhavam a levantar a mão primeiro, nunca me pediram pra falar menos ou ouvir mais. Como resultado, eu provavelmente tive duas vezes mais atenção que a maioria das crianças com as quais fui à escola.
Mas apenas 15 anos depois que comecei a aprender a exibir a maioria dos comportamentos masculinos dominantes que listei acima, algo aconteceu. Eu estava na aula, com uma amiga minha. Vamos chamá-la Anne,
porque este é o nome dela. Anne e eu estávamos no mesmo grupo de estudos, e, na noite anterior, ela tinha estudado exatamente a questão que @ professor/a estava perguntando. Entretanto, ainda que o resto da sala estivesse em silêncio, Anne não respondeu a questão.
Não sei o que me deu para eu realmente pensar, ao invés de responder – eu mesmo- a pergunta, como habitualmente faria. Este incidente me fez parar pra pensar quem falava com que freqüência em sala, por que e o que eu poderia fazer..
O que mais podemos fazer?
Por sorte, ser homem nos dá muita autoridade. Quero dizer isto no bom sentido também. Muito como as pessoas negras, que são presumidamente egoístas ou paranóicas quando falam contra racismo; mulheres são consideradas histéricas quando denunciam o comportamento patriarcal.
O que isso significa pra nós? Primeiro, devemos calar a boca. Isto era fácil pra mim na escola – simplesmente fiz uma regra que eu nunca falaria mais de duas vezes em uma aula de 50 minutos. Surpresa! Outras pessoas acabavam dizendo exatamente a mesma coisa, ou algo mais inteligente, em quase todas as vezes que eu teria falado.
A beleza do consenso é a facilitação. Não apenas podemos facilitar nós mesmos – e devemos fazer isso – mas podemos facilitar uns/umas @s outros. Mas quando @ facilitador/a está ignorando problemas de comportamento – ou exibindo-os- é importante para outras pessoas no grupo armarem estratégias de facilitação.
Às vezes, basta apontar as pessoas que estão com as mãos levantadas, mas, por algum motivo, não são vistas pel@ facilitador/a, ou sugerir rodadas para incluir todo mundo. Mas normalmente não é tão simples. Quanto pior o tipo de comportamento no grupo, mas natural a merda vai parecer. E com freqüência as pessoas que você estará chamando a atenção te olharão de cara feia, ou farão uma ofensa verbal. E, finalmente, não é função da maioria das pessoas que são mais espezinhadas pelo comportamento patriarcal estar apontando isso. É aí que nós entramos.
A idéia é chamar a atenção de uma forma construtiva. É muito fácil fazer isto de maneira autoritária, ou rude – e assim divertir todo mundo com nossa ironia despropositada, agindo da mesma forma que você não quer que outrxs façam. Quando você aponta pessoas de forma rude, e não construtiva, tende a manter as pessoas mais quietas, sem participar.
A solução
Então, chame a atenção, mas tente não levar pro lado pessoal. A menos que seja uma afronta, espere até a pessoa acabar e faça seu encaminhamento de como as pessoas devem manter a ordem de inscrição, ou considerar não falar se el em s já falaram. E se parecer que alguém está put@ porque você chamou sua atenção (e homens brancos fazem você perceber isso fácil), faça um esforço para falar com ele depois que a reunião acabar. Normalmente não é necessário muito esforço para acalmar os ânimos.
Infelizmente, também não precisa muito para as mesmas pessoas fazerem as mesmas coisas na próxima reunião. Vale fazer oficinas regulares, para ativistas nov em s e experientes, sobre como o consenso deve funcionar. Também é legal explicar o processo de decisão por consenso durante as reuniões. Você pode fazer isso rapidamente, especialmente depois das primeiras vezes. Mas quando as pessoas assumem que todos estão familiarizados com o processo, aqueles que são menos confiantes vão ser os primeiros a saírem das discussões. Ainda é uma boa idéia chegar a uma estrutura para se dirigir à forma como as pessoas agem em reuniões, para que se verifique, regularmente, como o processo está andando.
Outro ingrediente chave é conversar com indivíduos fora das reuniões. Conversar honestamente – “Eu sei que você se importa com o grupo, mas nas reuniões parece que você coloca pra baixo qualquer pessoa que discorda de você. E você corta muito as pessoas, o que dificulta muito a participação de outras pessoas” – é grande parte da solução. Como em qualquer interação, é importante manter a cabeça aberta para ouvir as outras perspectivas. Idealmente, você pode resolver coisas nesse nível e não ter de levar isso para o grupo.
Finalmente, significa pensar constantemente sobre como nós, enquanto homens, temos a tendência a dominar e controlar o mundo a nossa volta. Somos encorajados a dominar conversações sem nem pensar sobre isso. É tão fácil para nós desenvolvermos um bom trabalho – lutando contra a engenharia genética, acabando com o complexo penitenciário industrial, libertando o Múmia – e ainda agirmos exatamente como o machão ao lado. Temos de confrontar nós mesmos para que a dominação pare de parecer natural e que possamos começar a fazer algo sobre isso. Então, da próxima vez que não parar pra pensar em como está falando, por favor, pense em como está falando.
E a seção bônus…
Mas eu não posso deixar uma garota fazer isto – quero dizer, sou o único que sabe como fazê-lo.
Cale a boca! Compartilhar responsabilidades em projetos é fundamental para assegurar que todo mundo no grupo desenvolva habilidades e confiança. Darei crédito onde é merecido: Nós, homens, somos bons o bastante para deixar as mulheres fazerem o trabalho de fundo, como o cuidado com as crianças, anotações, preparação de comidas.. Mas raramente temos estruturas para deixar mulheres assumirem nossas responsabilidades.
Em suas reuniões, as mulheres assumem projetos na proporção em que estão presentes? Se você não está prestando atenção nisso, deveria. Junto com o consenso, compartilhar trabalhos é um das marcas da organização democrática. Na minha experiência, o trabalho mais prestigioso, desafiador e recompensador está com os homens. Na maioria das vezes, com os mesmos homens que dominam as reuniões onde estas tarefas são delegadas.
Uma forma, a pior delas, com que os homens fazem o trabalho ficar com eles é armazenando informações ao redor deles. Que trabalho tem sido feito? O que falta fazer? Quais são as prioridades? Os prazos? Se o trabalho é feito informalmente, não só não há responsabilidade para fazê-lo, como não há registro, ou atualizações regulares. Isto torna quase impossível passar responsabilidades do projeto para outra pessoa.
Outro problema são os contatos. De alguma forma, parece que @s organizadores antigos todos se conhecem. Isto não apenas intimida pessoas nas escalas mais baixas do totem ativista, mas torna muito mais difícil para eles fazerem o mesmo trabalho. Se fingimos que nossos contatos são apenas amigos nossos, ao invés de pessoas com as quais contamos para a realização dos trabalhos, o grupo no topo permanecerá lá. E acho que esse grupo é quase todo masculino.
Finalmente, temos a linguagem. Os especialistas do mundo capitalista tendem a mitificar seus trabalhos. Seja pelo “atualizar o HTML,” ou “nas entrelinhas desta narrativa,” profissionais têm interesse em fazer seu trabalho soar o mais obscuro e difícil possível. @s profissionais em nossa sociedade possuem a pequena parte do mundo em que eles têm “expertise”. Tomam decisões que afetam todo mundo, e ganham mais controle e autoridade com o passar do tempo.
Soa familiar? Todos esses fatores – armazenamento de informações, contatos exclusivos, linguagem mitificada – ficam ainda piores durante uma crise. No meio de uma ação é fácil falar: “não há tempo para ensinar qualquer pessoa nova, homens ou mulheres, a trabalhar com rádio”. Primeiro, normalmente é um grupo de homens que fala isso. Segundo, essa é a razão pela qual você começou as tarefas antes da Ação. Se o problema é somente alguns egos grandes e muita cumplicidade entre as pessoas, então você pode delegar funções imediatamente. Se há mais trabalho, você tem de armar uma estrutura para que as pessoas de fato assumam projetos. Ela pode incluir documentar passos e informações, ajudar novas pessoas a desenvolverem relacionamentos de trabalho com outros organizadores, usar linguagem cotidiana em vez de acrônimos de merda, e por aí vai. Mas, sem um processo é muito mais difícil de passar a responsabilidade adiante.
(Livremente inspirado em “A tirania das organizações sem estrutura”, de Jo Freeman)
 
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Porque os Espaços de Mulheres São Críticos com Relação à Autonomia Feminista
Patricia McFadden

Construindo a convergência feminista – o CADTM no Senegal


Encontro pré-FSM aponta as dificuldades para uma mulher africana reivindicar seu pertencimento ao movimento de luta das mulheres, sem ser objeto de zombarias e de se ver desvalorizada. Hoje, é muito difícil dizer-se feminista na África e no Senegal sem somar a essa postura um “mas” ou um “se”.

Christine Vanden Daelen – CADTM*

A sede da Aprofes (Associação para a Promoção das Mulheres Senegalesas) recebe, desde a última quinta-feira (3 de fevereiro), delegados e delegadas da rede internacional CADTM (Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), reunidos para o encontro nacional sobre o feminismo, organizado no bojo do Fórum Social Mundial 2011.

A Aprofes é uma organização que integra o CADTM desde 1999, e participam do atual encontro em sua sede integrantes de diversas outras entidades e movimentos, como a Marcha Mundial de Mulheres, Mulheres de Negro e Liga Internacional das Mulheres pela Paz, entre diversas outras.
Os primeiros debates do encontro focaram no próprio conceito de feminismo e de sua evolução, assim como sobre a necessidade de o CADTM reforçar seu compromisso feminista.

Em sua apresentação, Françoise Mulfinger, do CADTM Bélgica, afirmou alguns dos desafios das lutas feministas, como a busca por assegurar a igualdade de tratamento entre homens e mulheres em todos os âmbitos da vida pública e privada, além de sua atuação constante para permitir às mulheres o acesso à Justiça, tanto social como econômica, bem como participar ativamente dos processos de decisão, e não ter que suportar nunca mais a violência – qualquer que seja a sua natureza.

Em resumo, Françoise Mulfinger destacou a importância de a mulher ver seus direitos humanos reconhecidos e respeitados em todo planeta. Se por um lado já se percorreu um longo caminho desde que as mulheres se organizaram para conseguir sua emancipação, Françoise nos faz lembrar que nada está dado ainda. A exploração econômica e sexual das mulheres continua – e inclusive se fortalece, em função dos ataques constantes da globalização neoliberal.

O tráfico de mulheres, suas migrações para garantir a sobrevivência de suas famílias, o crescimento exponencial da “feminização” da pobreza e da ampliação do trabalho informal e forçado das mulheres nos demonstra tais dificuldades e desafios a cada dia. A desigualdade entre os sexos, de classe e de raça se reforçam incessantemente em tal contexto.

Mesmas raízes

O CADTM, como movimento de luta pela emancipação dos seres humanos – homens e mulheres – compreende que, já que todos os sistemas de opressão estão intimamente imbricados e têm as mesmas raízes, não se pode combater o sistema de dominação capitalista sem atacar os fatores que subjugam as mulheres. A organização desta jornada de debates do CADTM, antecedendo ao Fórum das Lutas Feministas Africanas, integra todo um processo iniciado no interior da rede, a fim de reforçar seus compromissos, análises e práticas feministas.

A pesquisadora e militante feminista senegalesa Codou Bop compartilhou com os presentes alguns dos problemas e realidades da militância feminista na África. Codou apontou as dificuldades para uma mulher africana reivindicar seu pertencimento ao movimento de luta das mulheres, sem ser objeto de zombarias e de se ver desvalorizada. E destacou o conflito do feminismo frente a aspectos de identidade. De acordo com Codou, é muito difícil dizer-se feminista na África e no Senegal sem somar a essa postura um “mas” ou um “se”.

O Fórum Feminista Africano, do qual Codou participou da criação, realiza um trabalho de análise dos temas e de apontamento dos laços entre a globalização neoliberal e a exacerbação das discriminações e violências frente às mulheres. As feministas reunidas no seio deste Fórum denunciam a invisibilidade das mulheres tanto na esfera produtiva (não possuem acesso à terra, tão pouco aos meios de produção e de financiamento), como na esfera pública e na política.

Da cozinha à porta de entrada

Neste sentido, tudo está posto para que as mulheres permaneçam confinadas no lugar em que se encontram e na esfera privada. “A maior distância que nos permitem percorrer é da cozinha à porta de entrada para receber alguns convidados”, resumiu Codou.

Ela convocou as mulheres a organizar espaços de intercâmbio e de convergência totalmente independentes das instituições governamentais e internacionais – assim como o Fórum Feminista busca fazer, e conforme já vem ocorrendo nos últimos dias no Senegal. De acordo com a pesquisadora, com muita freqüência o movimento tem dificuldades para reunir-se em espaços que não se encontrem monopolizados e controlados pelo Banco Mundial.

Durante os debates, foi destacada a necessidade de se lutar por serviços públicos que ajudem as mulheres em suas diversas tarefas e responsabilidades, pelo acesso das mulheres aos recursos em geral, assim como à educação, que permite às mulheres conhecer e exigir a aplicação de seus direitos.

Reconheceu-se, de modo unânime, que é necessário, antes de tudo, modificar os próprios costumes, comportamentos e atitudes, com vistas a uma verdadeira igualdade entre os sexos no âmbito das relações mais próximas, da família e das redes sociais.

A intevenção de Christine Vanden Daelen trouxe para o debate as estratégias do Banco Mundial a fim de instrumentalizar e controlar o movimento de luta das mulheres. Longe se ser um sinal de avanços progressistas no interior do Banco Mundial, a integração do tema de gênero nos discursos e ações do banco está diretamente ligada a interesses econômicos.

Para o Banco Mundial, a igualdade de gênero tem valor somente se for dada como uma fonte de eficiência econômica, se é rentável do ponto de vista do capital e se for integrada ao projeto político do banco. Protegido pelo discurso de que implementa políticas supostamente favoráveis às mulheres, o Banco Mundial com isso prossegue em sua política de desregulamentação do mercado de trabalho, da promoção da informalidade e de mecanismos de microcrédito que empobrecem as mulheres em lugar de ajudá-las.

No decorrer dos debates, as participantes e os participantes abordaram a necessidade e urgência de se reforçar as estruturas associativas de poupança e crédito, que, baseadas em uma solidariedade desprovida de interesses financeiros, podem oferecer uma verdadeira autonomia econômica às mulheres, constituindo-se assim como uma alternativa às estruturas de microcrédito baseadas no sistema do Banco Mundial.

Ao som de buzinas e da percussão

Ainda no dia 3, se uniram aos debates as mulheres do CADTM de Benin, da Costa do Marfim, do Mali, de Níger e de Burkina Faso. Os debates passaram então a tratar da necessidade de se manter uma atitude crítica frente aos costumes, tradições e práticas religiosas que impõem travas e restrições aos direitos e liberdades das mulheres.

Embora seja muito difícil registrar toda a riqueza dos debates e do intercâmbio ocorrido, podemos sem hesitação alguma afirmar que, de todas as muitas análises, vivências e depoimentos trazidos, fica estabelecida uma exigência comum a todo o conjunto de feministas (mulheres e homens) presentes. Todas e todos queremos que as mulheres tenham a possibilidade de desenvolverem-se segundo seus interesses e que não sejam vítimas de discriminações sistemáticas em função de seu sexo, independentemente dos costumes e do contexto cultural e religioso em que estiverem inseridas.

Luta-se, assim, pelo respeito à dignidade das mulheres. Luta-se contra o neoliberalismo que reforça e se alimenta das desigualdades de sexo e que é a fonte da degradação das condições de vida do conjunto da humanidade.

Ao final do dia 3, uniram-se aos debates, progressivamente, as e os militantes das caravanas que chegavam ao ritmo das buzinas dos automóveis e dos instrumentos de percussão, convergindo na região de Kaolack, no Senegal. À noite, aproximadamente 800 pessoas haviam chegado para participar do restante da programação.

Na sexta-feira (4 de fevereiro), teve início o Fórum de Lutas Feministas Africanas. Tudo nos leva a pensar que a palavra sem censura, os depoimentos compartilhados e as alternativas propostas durante esta primeira jornada encontrarão neste Fórum um novo espaço para se consolidarem e para que se torne possível compartilhar outras experiências, vivências e debates.

(*Christine Vanden Daelen, CADTM – Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo)

http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17366&editoria_id=6

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