O problema não é o decote, é o poder


Mais do que revelar um quadro de crenças confusas, a pesquisa aponta um quadro de tolerância macabra com a violência contra as mulheres.
Katarina Peixoto

A pesquisa do IPEA “Tolerância social à violência contra as mulheres” revela um quadro macabro sobre a disposição delinquente de abusar mulheres, no Brasil. Pesquisas baseadas em sistema de indicadores de percepção têm por objeto um conjunto necessariamente vago e confuso de crenças, desejos, conhecimentos mais ou menos refletidos e quase nunca científicos; a percepção é um pântano, algo necessariamente obscuro. Valem como uma fotografia borrada. Ainda assim, a pesquisa tem questões muito claras e respostas, idem.

Para a maioria dos brasileiros, se usamos decote é porque merecemos ser violadas. Para a maioria dos brasileiros, e isto é mais grave, também devemos obedecer aos machos, dentro de casa. Como toda sociedade é, por definição, entre outras possíveis, um balaio de crenças contraditórias e calamitosas entre si, a maioria defende que o marido abusador deve ser punido. A tolerância com o abuso é que se destaca: que tipo seria o caso, para merecer a denúncia numa delegacia, já que a maior parte acha que os conflitos conjugais devem ser resolvidos dentro de casa? Ora, dentro de casa, diz a mesma pesquisa, quem manda é o homem. O corolário do convite ao estupro com base no decote é trivial.

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O problema do machismo é que ele é uma propriedade, não um traço de caráter. Como propriedade, é uma característica cultural que atravessa as classes, gêneros, idades, graus de instrução. O que define o machismo é a crença segundo a qual os machos detém algum poder natural e, portanto, legítimo, sobre as fêmeas e que, isto é o grave, este poder antecede e vigora a despeito da lei. Se tomamos a definição elementar de fascismo como a crença e a defesa normativa da força sobre a razão ou da força sobre a lei, poderíamos tratar o machismo como um caso, uma variante privada e macabra, do balaio irracional da violência fascista, isto é, das autorizações auto-impetradas ao arbítrio.

Mas o problema do machismo é que ele é mais sutil; é impregnado de afetividade (transmite-se sobretudo pelas famílias) e aí está o poder de sua vigência. Isso explica, entre outras coisas, como pode haver uma ordem democrática que elege uma mulher como presidenta e segue tratando o aborto como crime. Assim, mais do que revelar um quadro de crenças confusas, a pesquisa revela um quadro de tolerância macabra com a violência contra as mulheres. O problema não é o decote; o problema é o poder: quem manda e deve mandar é o macho.

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A pesquisa do IPEA mostra com clareza o que todo mundo, sobretudo mulheres, sabem e vivem: a violência contra nós começa, sempre, na família. E na infância e na adolescência. Os dados são dilacerantes porque os registros dos números de estupros sempre são índices precários, desses levados pelos vizinhos de parede às delegacias. A violência machista atravessa as classes e as classes mais abastadas não frequentam delegacias. A polícia é para os pobres, até mesmo no quesito protetivo.

É assim que vigora, em vários estados brasileiros, uma espécie de “série b”, clandestina, dos registros relativos a delitos previstos na Lei Maria da Penha. Essa “série b” contêm os delitos cometidos por homens com acesso aos sistemas de registros de informações criminais, isto é, policiais, militares, juízes, advogados, promotores, oficiais de justiça, desembargadores. As delegadas e os delegados sérios, que operam com essa “série b” de registros, têm em mãos o que nunca se conta nem contará, mas asseguram, ainda assim e segundo o alcance de uma igualmente paralela rede de confiança intraestamento, uma rede protetiva institucional e, para todos os efeitos, legal, reconhecida e de reconhecimento das vítimas.

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Esta “série b” não tem como habitar pesquisa alguma. Ela existe, simplesmente, não se sabe por quanto tempo vigorará, ainda. Vai sem dizer o quanto a existência dessa linha oculta de investigação e registro é fator de enfraquecimento das denúncias e da mudança de tratamento do problema. A sua inclusão, como índice, numa pesquisa como a recentemente publicada pelo IPEA, poderia revirar o estômago de muito mais gente. E poderia tanto que não pode. O machismo assim segue vitorioso.

A maioria que quer que o espancador da mulher seja punido sabe que espancar, pode imaginá-lo ou percebê-lo, é errado. Isso não explica tolerância ou intolerância com o machismo. O que explica o machismo são os outros dados, esses sim, capturados na pesquisa, que apresentam um conjunto mais coerente e coeso de crenças que antecedem e condicionam as condutas e que não requerem, no próprio domínio perceptivo, uma agressão imaginada, como se pôde, desgraçadamente, inferir. Essas crenças se referem nas vestimentas das mulheres, na autonomia e na expressão das mulheres, na capacidade de exercício do poder e na legitimidade desse exercício. Aí, sim, o que é macabro se mostra deprimente, pedagogicamente deprimente.

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A pesquisa nos ensina por que seguimos ganhando menos e precisando de cotas, quando somos maioria na população. Ajuda a entender o quadro de ansiedade e de sofrimento mental que assola as meninas adolescentes, alvos do crime organizado em que se converteu a propaganda e o abuso da imagem das crianças e adolescentes (um país em que criança vende cartão de crédito, inclusive de banco estatal, deveria sentir vergonha perante si mesmo). E nos mostra como pode haver milhares de mortes, por ano, em curetagens que deram causa a choques sépticos, de mulheres sem amparo material para interromperem gravidez indesejada. É claro, há o fator religião, que incide não por acaso nas células familiares e explica, com nitidez superior a qualquer pesquisa de percepção, as cláusulas de silêncio avessas a quaisquer registros abertos.

Há no entanto um dado que, se não é hierarquicamente estabelecido nem capturado na investigação, condiciona vários outros da pesquisa e da vida. Trata-se da afirmação relativa ao poder. A maioria dos entrevistados considera que os machos têm de ser os “chefes de família”. Esse é, de longe, o dado mais assombroso. Ele é intuitivo – trata-se de uma pesquisa de percepção – numa sociedade em que a maior parte das famílias beneficiadas por programas de transferência de renda são dirigidas por mulheres, em que as mulheres são maioria e em que mulheres movimentam e dirigem a maior empresa do país e o país ele mesmo. É um dado que torna a Dilma uma espécie de anomalia político-institucional, quando deveria ser o dado ele mesmo a anomalia. Por que é que elegemos uma mulher e seguimos acreditando que quem deve mandar é o homem?

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Quando Dilma Rousseff assumiu a presidência, montou um ministério cheio de mulheres. O tratamento midiático e político – oriundo das forças políticas partidárias, da esquerda à direita – desses quadros de mulheres é um caso de polícia. Há duas exceções, que assim se constituem, salvo melhor juízo, pela expressividade diminuta durante a gestão do governo. São quadros que, quando menos aparecerem, melhor para todos, afinal, trata-se do planejamento e do meio-ambiente. As tentativas de desmoralização, depreciação, humilhação, deboche, desrespeito e abuso, sobre todas as outras, configuram capítulos de inquéritos jamais reduzidos a termo nem encaminhados ao Ministério Público.

O que a resposta favorável ao convite ao estupro diante de uma vestimenta carrega consigo é uma relação naturalizada de poder. E é essa mesma relação que explica a imensa maioria, senão todas, as críticas abertas ao governo Dilma, por parte da oposição soi disant de esquerda, e da direita. Todos se juntam nas acusações de tom sexista, dessas que toda mulher fora da curva do juízo da maioria já sentiu, na pele e nas vísceras: expressa-se confusamente (mulher não tem nem pode ter pensamento lógico), é louca, autoritária (mulher tem de ser “calminha” e tranquila e doce), “passa por cima de todo mundo” (mulher não pode mandar, diz-nos a maioria), não tem sentimentos, é uma “engenheira malvada”, que maltrata os índios e destrói tudo (variante do “é antinatural”, é contra a natureza, claro, é mulher, divorciada, presidenta) e, para a galhofa da inteligência de qualquer pessoa alfabetizada, é “incompetente” e está conduzindo mal o país, economicamente. Confusa, louca, malvada, sem sentimentos, antinatural e incompetente.

846375045Nenhum desses adjetivos cai sob um domínio democrático da Política. O uso de cada adjetivo desses indica o submundo imaginário, afetivo e simbólico que parasita os seus usuários. E ofende a todas nós, apoiadoras ou não, desse governo. Trata-se de uma maneira de nos alijar de um domínio da vida em que as relações de poder estão no centro de todas as decisões. É possível que haja determinações mais ou menos naturais, de poder. Não estamos cientificamente desautorizados a considerar essa possibilidade. Mas estamos racionalmente autorizados a nos desfazer da crença mística e violenta no poder natural dos machos sobre as fêmeas, essa crença medonha que anima as críticas e oferece uma paisagem de ódio e opressão, em ano eleitoral.

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In Carta Maior

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A maioria das pessoas é capaz de reconhecer o sexismo em suas vidas diárias? E o que é preciso para fazê-las sacudir suas crenças sexistas?

Num estudo recente intitulado “Ver o invisível” as psicólogas Janet Swim da Pennsylvania State University e Julia Becker da Philipps University Marburg, na Alemanha, começaram a responder essas perguntas.

Ao longo de 7 dias e 3 testes distintos, Swim e Becker pediram a 120 universitários (82 mulheres e 38 homens, variando entre 18  e 26 anos de idade, alguns dos EUA e outros da Alemanha) que anotassem num diário, comentários sexistas que encontrassem em seu dia a dia. De acordo com Swim, ela e Becker esperavam determinar se forçando as pessoas a prestar atenção para as menos óbvias formas de sexismo, poderiam diminuir seu apoio a crenças sexistas.

Durante os testes, os indivíduos foram instruídos a observar casos de comportamento sexista próximo às mulheres que vão desde atenção sexual não desejada, piadas sexistas a comentários descaradamente depreciativos.

Foram também convidados a registrar ações mais sutis, que muitos consideram inofensivas: homens chamando mulheres de “garotas”, elogiando-as nos comportamentos tipicamente femininos e protegendo-as de tarefas mais “masculinas”. Swim e Becker descreveram para os participantes esses sexismos menos óbvios como “sexismo benevolente”, um termo criado pelos psicólogos Peter Glick e Susan Fisk num estudo em 1996 para se referir a “ uma atitude paternalista em relação às mulheres que idealiza-as afetivamente”, disse Glick ao The Huffington Post.

Em media, registraram dois termos depreciativos, dois comentários sexistas, 1,5 expressões de crenças negativas sobre as mulheres e 1,5 expressões que pareciam  positivas mas que de fato eram sexistas durante a semana. Swim lembrou de uma participante ter relatado que um estranho a abordou numa lavanderia e perguntou se ela poderia dobrar suas roupas e que por isso seria considerada “boazinha”.

Esse tipo de sexismo é “ambíguo”, disse Swim, e “as pessoas não sabem se eles estão brincando, então acabam ignorando um após o outro”.

Se você é instruído e confrontado por exemplos de sexismo, então começa a enxergar o invisível”, acrescentou.

A prevalência do sexismo _ benévolo ou hostil _ não era o foco principal do estudo, nem sua maior revelação. A descoberta mais significativa tem a ver em como as crenças dos homens e das mulheres mudaram depois que se conscientizaram de sua predominância. Além de pedir aos participantes para registrar ocorrências de sexismo, os pesquisadores também avaliaram o grau em que toleraram o comportamento sexista.

Depois de registrados os comportamentos sexistas, as pesquisadoras observaram que as mulheres eram mais propensas a considerar o comportamento menos aceitável. Os homens, por outro lado, continuaram a endossar o machismo, mesmo depois de se tornarem mais conscientes disso.

Porém, quando foi pedido para que demonstrassem empatia com as mulheres que são os alvos específicos dos incidentes sexistas, os homens foram menos propensos a sancionar o sexismo mais escancarado.

Num exemplo, os homens orientados a considerar os sentimentos das mulheres, foram menos propensos a achar que as mulheres reagem de forma exagerada ao responderem negativamente a um comportamento machista.

Quando se tratava de casos de sexismo benevolente,  porém, as atitudes dos homens não se alteraram. De acordo com Swim, os homens não consideraram declarações do tipo “uma boa mulher dever ser posta num pedestal” ou “em um desastre, as mulheres devem ser salvas antes dos homens”, como sexistas.

A pesquisa de Beck e Swim provocou indignação em alguns setores, apoiados por manchetes como essa do UK’s Daily Mail: “Homens que abrem portas para mulheres são SEXISTAS, não cavalheiros, afirmam feministas”. Focando as críticas nas pesquisadoras que pediram aos participantes que identificassem o aparente bem-intencionado comportamento masculino como discriminatório.

Anna Rittgers, uma blogueira do conservador Independent Women’s Forum, escreveu que primeiro achou que o estudo era uma farsa e que ela estava “começando a suspeitar que o movimento feminista moderno é constituído na verdade por um bando de genuínas misóginas, cujo objetivo é fazer com que as mulheres pareçam ridículas”.

O blog irlandês Joe.ie It’s Man Stuff escreveu sarcasticamente: “Bom trabalho senhoras, vamos garantir que bebam umas cervejas por isso, se apareceram para uma visita em Dublin. Mas vocês pagarão pelas cervejas, obviamente”.

A blogueira Mockarena, co-fundadora do blog Chicks on the Right, escreveu, “Eu não sei sobre vocês, mas é muito prejudicial para mim quando meu marido insiste em dirigir durante longas viagens de carro. Eu fico totalmente prejudicada psicologicamente quando ele diz que não vive sem mim. E me sinto profundamente discriminada quando tem a audácia de consertar os freios do meu carro”.

Mockarena disse mais tarde ao The Huffington Post que ela estava em “total descrença sobre o completo absurdo” do estudo.

“Claro que existem homens que podem ser completos machistas, que se comportam de forma inadequada e sem nenhuma consideração para os limites que uma mulher define”, ela disse. “Mas eu realmente acredito que se as mulheres não distinguem a diferença entre atos de pura consideração _como um marido ajudar a esposa a carregar os mantimentos _ e um indesejável beliscão na bunda, francamente, elas tem um problema.”

Glick, co-autor do estudo original sobre sexismo benevolente, disse temer que o sexismo benevolente tenha se tornado uma caricatura para a mídia e o público.

Nós não pensamos que os homens devem deixar de ser educados”, disse ele. “Muitas vezes o comportamento cavalheiresco é apropriado. O importante é saber quando se está cruzando a linha.”

“As próprias mulheres ignoram todo os tipos de sexismo e parte desse comportamento é um mecanismo de enfrentamento”, disse Swim. “Você quer viver a sua vida.”

Mas ignorar o sexismo tem conseqüências, ela disse. Muitas vezes a aceitação de formas mais sutis de sexismo, pode levar à aceitação de formas mais amplas de discriminação de gênero.

De acordo com Glick, o sexismo benevolente pode  de diversas maneiras, involuntariamente se transformar em sexismo hostil, quando uma mulher recusa assumir um papel pré-estabelecido. Ele usou o ambiente de trabalho como exemplo.

Se um homem se oferece para ajudar uma colega a configurar um computador do escritório, Glick disse, e ela aceita, é percebida como cordial, mas também como incompetente. Mas se ela recusa educadamente, muitas vezes é vista como uma “vadia”. Homens que aceitam ajuda são vistos como incompetentes, mas não sofrem a mesma discriminação se tentam fazer as tarefas sozinhos.

Então, para onde vamos a partir daqui?

“Mudar requer um debate sobre quando o sexismo benevolente deixa de ser ruim”, disse Swim  ao The Huffington Post. “Nem todas as mulheres pensam que é ruim, e isso diz respeito a se criar uma consciência cultural do que acontece quando as mulheres mantem a dependência e homens fazem coisas que não são tão obviamente sexistas.”

Nesse meio tempo, Swim considera “igualmente interessante” as pessoas serem capazes de desconsiderar o sexismo que elas experimentam em seu dia-a-dia “quando pensam se o sexismo é um problema ou não.”

In http://migre.me/9hysx

Tradução Arttêmia Arktos

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Mulheres negras recebem até 172% menos


Como não poderia deixar de ser, as conclusões de diversas pesquisas sobre o impacto da crise aponta desigualdades no mundo do trabalho e discriminações contra mulheres e negros. Nessa linha as mulheres negras são as mais afetadas com menores salários, precarização e informalidade.

Com a aproximação do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, neste mês foram lançados estudos sobre o impacto da crise e as desigualdades e discriminação contra as mulheres e negros no mundo do trabalho.

Um deles está em seu quarto volume: a publicação eletrônica mensal “sobre as desigualdades de cor ou raça e gênero no mercado de trabalho metropolitano brasileiro”, do Laboratório de Analises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais (LAESER), da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ).

O estudo utilizou como base a Pesquisa Mensal do Emprego (PME) realizada por quatro meses sucessivos, com intervalo de oito meses, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis maiores Regiões Metropolitanas (RMs) brasileira: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. O período avaliado foi de setembro a dezembro de 2009.

O objetivo do estudo é identificar os impactos diretos e indiretos de determinados momentos da economia e definir em “(fases de prosperidade e de crise) as condições de acesso ao mercado de trabalho brasileiro por parte das pessoas dos distintos grupos de cor ou raça, de ambos os sexos; evolução da ocupação, do emprego e rendimentos do trabalho, informalidade e precarização da ocupação, distribuição entre setores da economia” que diante da crise econômica mundial e o “contexto de incerteza pode voltar a impactar o mercado de trabalho brasileiro ao longo deste ano de 2010, incluindo os distintos grupos de cor ou raça que dele participam.”

As conclusões não podem ser outras. Os que mais sofrem e maiores impactados são justamente os setores mais oprimidos, com destaque para as mulheres negras, com menos oportunidades de emprego nos setores produtivos da sociedade. Vítimas ao mesmo tempo da discriminação racial e de gênero, a elas fica reservado o desemprego, a precarização, a informalidade e os menores salários.

Estudos da (Organização Internacional do Trabalho (OIT) e outras análises dos dados do IBGE apontam no mesmo sentido, como veremos a seguir.

Mulheres negras recebem até 172% menos

Quando o assunto é rendimentos e salários, os dados do IBGE apontam para 3,6 milhões de pessoas com rendimento médio inferior ao Salário Mínimo nacional estabelecido por lei, 16,9% do total de ocupados do país.

No mês de setembro esta era a realidade de pelo menos 20,2% das mulheres ocupadas, e masculina a proporção era de 14,1% e na PEA (População Economicamente Ativa ) ocupada masculina, na feminina era de 20,2%. Sendo que entre a população negra está 20,4% dos homens pretos & pardos e 28,5%, entre as mulheres pretas & pardas.

O valor dos salários médios acima do salário mínimo também está marcado pela discriminação com diferenças gritantes. Enquanto a renda media da População Economicamente Ativa ocupada em outubro de 2009 foi de R$ 1.350,00, entre trabalhadores brancos este valor sobre para R$ 1.704,00; o mesmo indicador entre os pretos & pardos foi igual a R$ 895,00. Uma diferença de 90,5%.

Os números novembro de 2009 são ainda mais dramáticos. Nas seis maiores Regiões Metropolitanas brasileiras, a diferença na remuneração dos brancos, em relação aos pretos & pardos, foi de 94%.

“Quando lido de forma decomposta pelos grupos de sexo, verificou-se que, em novembro de 2009, as assimetrias no Rendimento Habitual Médio entre os homens brancos, em comparação aos pretos & pardos, foram de 97%, favoráveis aos primeiros”.

O que em setembro equivalia a rendimento médio de R$ 1.386,00 para mulheres brancas e R$ 734,00 para negras, uma diferença de 88,7%; em novembro aponta desigualdades chegam a 92,5%.

É possível perceber que o quesito Raça é definidor quando avaliada que mesmo as mulheres em geral receberem menos que os homens, é possível verificar que as mulheres brancas chegaram a receber 35,8% mais que os homens pretos & pardos.

Já quando são avaliadas as duas pontas, levando em consideração a remuneração habitual média os homens brancos chegaram a receber 172,1% a mais que as mulheres negras.

Desemprego ou emprego precário

De acordo com o estudo da UFRJ, no mês de setembro de 2009 existiam perto de 1,8 milhões de desempregados nas seis maiores RMs brasileiras. Destes, 56% eram pessoas do sexo feminino e 44%, do sexo masculino. Os brancos perfizeram 46% do total de desempregados, ao passo que os pretos & pardos contribuíam com 53,3% na PEA desempregada.

“A população branca do sexo masculino respondia por 19,8% na PEA desempregada. As mulheres brancas, por sua vez, respondiam por 26,2%. A PEA preta & parda do sexo masculino respondia por 23,8% da população desempregada (0,7 pontos percentuais inferior à sua presença na PEA das seis RMs), ao passo que a PEA preta & parda do sexo feminino respondia por 29,5% (9,2 pontos percentuais superior à sua presença relativa na PEA das seis RMs)”.

Em dezembro de 2009, dentro da população desempregada as mulheres negras “apresentavam as maiores desproporções entre sua presença na PEA desempregada (31,6%) e na PEA como um todo (21,2%), na verdade, em mais de 10 pontos percentuais. Em tempo, embora com menor distância, também ocorria uma sobrerrepresentação das mulheres brancas na PEA desempregada (25,6%) e na PEA como um todo (24,9%).

O estudo aponta que em setembro de 2009 as mulheres correspondiam a mais de 40% da População Economicamente Ativa no País. Em outubro, a “taxa de desemprego das mulheres brancas foi de 7,7% e a das mulheres pretas & pardas foi de 11,4%, mantendo-se nitidamente superior aos demais contingentes de cor ou raça e sexo”.

No Distrito Federal apesar de, em geral, terem maior escolaridade as mulheres desempregadas somam 17,2% do total de aptas a trabalhar. Número altíssimo, que nos países desenvolvidos é considerado gravíssimo e só foi atingido por alguns países, com o desenvolvimento da crise econômica mundial.

De acordo com dados apresentados no Fórum Social Temático da Bahia, pela Secretaria especial de Políticas para as Mulheres do governo, no período considerado pelo próprio governo como “o auge da crise” econômica mundial (entre outubro de 2008 e abril de 2009), “as mulheres foram mais afetadas pelos efeitos da crise econômica mundial no mercado de trabalho do que os homens. Segundo os dados, as brasileiras perderam 3,1% do total de postos de trabalho entre outubro de 2008 e abril de 2009. No mesmo período, o percentual foi de 1,6% entre os homens (Agência Brasil, 29/1/2010)”.

No que tange ao tipo de trabalho exercido a discriminação também é estampada pelos números. Segundo divulgou a OIT mais de 70% das mulheres negras que exercem algum tipo de trabalho, remunerado ou não, estão inseridas no grupo do chamado emprego precário, totalizando apenas 498.521 mil empregos formais. Em relativa melhor situação estão as mulheres brancas, com cerca de 7,6 milhões empregos formais, contra 11,9 milhões de homens brancos empregados.

Maior desemprego, menores salários, piores trabalhos. Essa é a realidade das mulheres negras no País.

Em outubro os três principais ramos de atividade econômica, enquanto campo de ocupação, entre os homens foram o Comércio (20,4%), a Indústria (19,4%) e os Outros Serviços (19%). No contingente feminino, os três principais ramos de atividade econômica foram a Administração Pública (22%); o Comércio (17,4%) e; os Serviços Domésticos (16,4%).

Os números confirmam a precária inclusão das mulheres, e negam a ladainha de que elas já conquistaram seu espaço no mundo do trabalho. Visto que quase todas as atividades econômicas são predominantemente masculinas: Indústria (62,8%); Construção Civil (94,6%); Comércio (58,5%); Serviços Prestados às Empresas (60%) e Outros Serviços (58,9%). As atividades com predominância feminina são a Administração Pública (62,7%) e os Serviços Domésticos (94,7%).

Aqui fica evidente onde as mulheres são maioria, nos empregos mais precários, e menos remunerados, fora da vida produtiva da sociedade. A escravidão do serviço doméstico, remunerado ou não. O que serve apenas e inevitavelmente para sua menor organização social, política etc.

• Um programa de luta para as mulheres

•Como 68% da PEA é representada por negros de ambos os sexos (44,5%) e por mulheres (42%), o que corresponde a um público de 55 milhões de pessoas conforme levantamento da OIT é inegável e necessário reconhecer que a pobreza, o desemprego e o trabalho instável e precário é negro e feminino. Não se tratando, portanto de uma minoria na sociedade.

Essa é realidade imposta pelo capitalismo às mulheres. Um cenário de discriminação e superexploração, totalmente oposto à ilusão de que as mulheres já realizaram sua emancipação, ou pior, que o capitalismo já ofereceu através da democracia burguesa, do “desenvolvimento econômico” (especialmente a partir da déc. de 70), seu espaço na sociedade.

Os números da pesquisa comprovam exatamente o contrário. O capitalismo faliu em sua tarefa democrática.

Se o regime dominado pela burguesia não conseguiu no auge do seu desenvolvimento oferecer às mulheres a tão propagandeada “igualdade, liberdade e fraternidade”, não será no seu período atual de decadência (imperialismo) e crise que essa tarefa será realizada.

Está confirmado que é sobre os ombros femininos que recaem as maiores mazelas desse regime de opressão. Aqui está a semelhança da luta das mulheres por direitos democráticos e da classe operária contra seus inimigos de classe, a burguesia, e seu regime, o capitalismo. A luta contra a opressão, a superexploração, por melhores condições de vida, por verdadeira emancipação e libertação.

Por isso, o Coletivo Mulheres Rosa Luxemburgo, do PCO, apresenta um conjunto de propostas para organização e luta das mulheres em torno da questão do trabalho e direitos trabalhistas. Em defesa das mulheres, especialmente das mulheres negras que sofrem duplamente pela discriminação de gênero e raça, contra a dupla jornada e a precarização do trabalho. Nesse sentido chamamos todas as mulheres, juventude, a população negra e trabalhadora, do campo e da cidade para se organizar em torno das reivindicações:

– Fim do desemprego. Redução da jornada de trabalho para 35 horas, sem redução salarial!

– Reposição de todas as perdas salariais! Salário mínimo vital de R$ 2.500,00; escala móvel de salários;

– Fim da discriminação salarial contra as mulheres: funções iguais, salários iguais;

– Proibição de realização de horas extras.

– Igualdade de oportunidades no mercado de trabalho;

– Fim dos critérios racistas para a contratação de pessoal;

– Fim de todo o tipo de discriminação racial;

– Manutenção e ampliação da licença-gestante para 12 meses;

– Implantação de creches públicas em todo o país, com acesso a todas as mulheres que delas necessitarem e locais apropriados para a amamentação. Criação de creches nas empresas para as mães trabalhadoras e nas escolas;

– Durante o período de amamentação, toda trabalhadora deve dispor de, pelo menos, meia hora a cada três para amamentar;

– Redução da jornada para seis horas durante o período de amamentação;

– Não às mudanças na CLT, que abrem espaço para o fim de várias conquistas históricas dos trabalhadores, como férias, 13º salário, insalubridade, licença-maternidade etc.

Causa operaria online http://migre.me/3TMQL

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