A pornografia é uma questão da esquerda


Gail Dines e Robert Jensen

Feministas anti-pornografia se acostumaram com os insultos da esquerda. Mais e mais somos informadas de que somos anti-sexo, pudicas, simplistas, politicamente ingênuas, diversionistas e tacanhas. Os críticos mais rudes, não hesitam em sugerir que a cura para esses males está em, como digamos, uma sólida experiência sexual.

Além dos insultos, nós constantemente enfrentamos uma pergunta: Por que  perdemos o nosso tempo com a questão da pornografia? Uma vez que somos anti-capitalistas e esquerdistas anti-imperialistas, bem como feministas, não devemos nos concentrar  nas muitas crises políticas, econômicas e ecológicas (guerra, pobreza, aquecimento global, etc)? Por que gastaríamos parte de nossas energias intelectuais e de organização ao longo das últimas duas décadas prosseguindo na crítica feminista à pornografia e à indústria da exploração sexual?

A resposta é simples: Nós somos contra a pornografia precisamente porque somos de esquerda, bem como feministas.

Como  esquerdistas, rejeitamos o sexismo e o racismo que satura o mercado de massa  contemporânea da pornografia. Como esquerdistas, rejeitamos a mercantilização capitalista de um dos aspectos mais básicos de nossa humanidade. Como esquerdistas, rejeitamos a dominação das empresas de mídia e cultura. Feministas anti-pornografia não estão pedindo que a esquerda aceite uma nova maneira de olhar o mundo, mas em vez disso, argumentando por  consistência na análise e aplicação de  princípios.

Sempre pareceu-nos estranho que muitos da esquerda de forma consistente,  se recusam a se envolver em uma crítica sustentada e ponderada da pornografia. Tudo isso é particularmente desastroso num momento em que a esquerda está se debatendo para encontrar adesão por parte do público,  uma critica da pornografia baseada em uma análise feminista radical de esquerda que se contraponha aos direitistas moralistas, poderia ser parte de uma estratégia de organização eficaz.

Análise da mídia pela esquerda

Esquerdistas examinam a mídia como um local onde a classe dominante cria e impõe definições  e explicações do mundo. Sabemos que  notícias não são  neutras, que os programas de entretenimento são mais do que apenas diversão e jogos. Estes são lugares onde a ideologia é reforçada, onde o ponto de vista dos poderosos é articulado.Esse processo é sempre uma luta, as tentativas de definir o mundo pelas classes dominantes podem ser, e são, combatidos. O termo “hegemonia” é geralmente usado para descrever este sempre contestado processo, a maneira pela qual a classe dominante tenta assegurar controle sobre a construção de sentido.

A crítica feminista da pornografia é consistente com – e, para muitos de nós,  se origina de – uma análise amplamente aceita na esquerda ,  da ideologia  hegemônica  dos meios de comunicação, levando à observação de que a pornografia está para o patriarcado assim como os comerciais de tv para o capitalismo. No entanto, quando a pornografia é o tema, muitos na esquerda parecem esquecer-se da teoria de Gramsci da hegemonia e aceitar o argumento de auto-defesa do pornógrafo de que a pornografia é mera fantasia.

Aparentemente, a percepção comum da esquerda de que as imagens da mídia podem ser ferramentas para a legitimação da desigualdade, vale para uma análise da CBS ou  CNN, mas evapora-se quando a imagem é de uma mulher tendo um pênis enfiado em sua garganta com tanta força que engasga. Nesse caso, por razões inexplicáveis, não devemos tomar a sério as representações pornográficas ou visualizá-los como produtos cuidadosamente construídos  dentro de um sistema mais amplo de gênero, raça e desigualdade de classe. O  valioso trabalho realizado pela crítica sobre a política da mídia de produção, aparentemente, não tem valor para a pornografia.

A pornografia é fantasia, de uma espécie. Assim como programas policiais na tv  que afirmam a nobreza da  polícia e promotores como protetores do povo são fantasia.  Assim como as histórias de Horatio Alger de que trabalho duro são recompensados no capitalismo são fantasias. Assim como os filmes onde o elenco árabe são todos terroristas, são uma fantasia.

Todos esses produtos da mídia são criticados pela esquerda, precisamente porque o mundo de fantasia que eles criaram é uma distorção do mundo real em que vivemos. A polícia e promotores fazem, por vezes, a busca pela justiça, mas também reinforçam o regime dos poderosos. Os indivíduos no capitalismo prosperam  algumas vezes como resultado de seu trabalho árduo, mas o sistema não fornece a todos os que trabalham duro uma vida decente. Um pequeno número de árabes são terroristas, mas isso fica obscurecido na América branca quanto à humanidade da grande maioria árabe.

Tais fantasias também refletem como os detentores do poder querem que as pessoas subordinadas se sintam. Imagens de negros felizes nas plantações fazem brancos se sentirem satisfeitos na sua opressão aos escravos. Imagens de trabalhadores satisfeitos acalmam os receios capitalistas de uma revolução. E homens lidam com seus complexos sentimentos sobre a masculinidade contemporânea e sua tóxica mistura de sexo e agressão, buscando imagens de mulheres que gostam de dor e humilhação.

Por que tantos na esquerda parecem assumir que pornógrafos  operam num universo diferente do de outros capitalistas? Por que a pornografia seria a única forma de representação produzida e distribuída por empresas que não seria um veículo para legitimar a desigualdade? Por que os  pornógrafos  seriam os capitalistas rebeldes à procura de subverter o sistema hegemônico?

Por que os pornógrafos são, frequentemente, os únicos com livre acesso na esquerda?

Depois de anos enfrentando a hostilidade da esquerda em público e na imprensa, nós acreditamos que a resposta é óbvia: o desejo sexual pode restringir a capacidade das pessoas para a razão crítica – especialmente em homens no patriarcado, onde o sexo não é só prazer, mas sobre o poder.

Esquerdistas – especialmente os homens à esquerda – precisam superar a obsessão com escapismo.

Vamos analisar  a pornografia não como sexo,  mas como mídia. Onde é que se ligam?

A mídia corporativa

Críticas ao poder corporativo da mídia comercial são onipresentes na esquerda. Esquerdistas com diferentes projetos políticos podem se unir para condenar o controle dos conglomerados sobre notícias e entretenimento. Devido à estrutura do sistema, é um dado que estas corporações criam programas que vão de encontro aos interesses dos anunciantes e elites, não das pessoas comuns.

No entanto, ao discutir a pornografia, esta análise voa para fora da janela. Ouvindo muitos na esquerda defendendo a pornografia, poderíamos pensar que o material está sendo feito por artistas batalhadores que incansavelmente trabalham em sótãos só para nos ajudar a compreender os mistérios da sexualidade. Nada poderia estar mais longe da realidade.  A indústria da pornografia é apenas isso _uma indústria dominada por empresas de produção de pornografia que criam o material mainstream que corporações lucram distribuindo.

É fácil entender isso em troca de idéias entre os pornógrafos  _eles tem uma revista comercial  Adult Video News.  As discussões nela não tendem a se concentrar sobre o potencial transgressor da pornografia polissêmica dos textos sexualmente explícitos. Trata-se  _ que surpresa! _ de lucros. As histórias da revista não refletem uma consciência crítica sobre muita coisa, especialmente gênero, raça e sexo.

Andrew Edmond – presidente e CEO da Flying Crocodilo, uma empresa de pornografia de US $ 20 milhões  – coloca sem rodeios: “Um monte de gente arranja distração do modelo de negócios (o sexo). É tão sofisticado e multifacetado quanto qualquer outro tipo de mercado. Operamos como qualquer empresa da Fortune 500.”

As empresas de produção – a partir de grandes produtores, como Larry Flynt Productions aos pequenos operadores fly-by-night –  atuam como corporações no capitalismo, buscando maximizar a sua cota de mercado e o seu lucro. Eles não consideram as necessidades das pessoas ou os efeitos dos seus produtos, mais do que outros capitalistas. Romantizar a pornografia faz tanto sentido quanto romantizar os executivos da Viacom ou da Disney.

Pornografia incrementa igualmente o lucro das grandes corporações de mídia. Hugh Hefner e Flynt tiveram que lutar par ganhar credibilidade dentro dos salões do capitalismo, mas hoje muitos das corporações lucram com a pornografia através da propriedade de empresas de distribuição a cabo e internet.  As grandes empresas que distribuem pornografia também distribuem mídia. Um exemplo é o NewsCop de Rupert Murdoch.

NewsCop é o grande proprietário da DirectTv,  que vende mais filmes pornográficos do que Flynt.  Em 2000, o New York Times relatou que cerca de US$200 milhões de dólares é gasto por ano pelos 8,7 milhões de assinantes com a DirectTV. Entre News Corp  e outras explorações de mídia estão a Fox e redes de TV a cabo, a Twentieth Century Fox, o New York Post e TV Guide. Bem-vindo à  sinergia:  Murdoch também é proprietário da HarperCollins, que publicou o best seller  pornográfico de Jenna Jameson “How To Make Love Like a Porn Star”.

Quando Paul Thomas aceitou o prêmio de melhor diretor na cerimônia de premiação  da indústria da pornográfica de 2005, ele comentou sobre a empresarialização do setor, brincando: “Eu costumava receber o pagamento em dinheiro dos italianos.  Agora eu sou pago com um cheque de um judeu… ” Ignorando as  cruas referências étnicas  (Thomas trabalha principalmente para a Vivid, cujo dono é judeu), o seu ponto era que o que antes era em grande parte uma multidão de negócios financiados agora é apenas uma outra empresa corporativa.

Como a esquerda se sente  acerca de empresas corporativas? Queremos executivos ávidos por lucros corporativos construindo a nossa cultura?

Mercantilização

Há muito que se compreendeu que um dos aspectos mais insidiosos do capitalismo é a mercantilização da tudo. Não há nada que não possa ser vendido no jogo capitalista de acumulação infinita.

Na pornografia os riscos são ainda maiores, o  que está a ser mercantilizado é crucial para nosso sentido de self. Qualquer que seja a sexualidade ou pontos de vista sobre a sexualidade, praticamente todos concordam que é um aspecto importante da nossa identidade. Na pornografia e na indústria do sexo em geral, a sexualidade é mais um produto para ser embalado e vendido.

Quando essas preocupações são levantadas, os esquerdistas pró-pornografia, muitas vezes correm para explicar que as mulheres da pornografia escolheram esse trabalho. Embora qualquer discussão sobre a escolha deva levar em consideração as condições em que se escolhe, não contestamos que as mulheres escolhem, e como feministas respeitamos a escolha e tentamos compreendê-la.

Mas, no melhor de nosso entendimento, ninguém na  esquerda defende a mídia capitalista – ou qualquer outra empresa capitalista -apontando  os trabalhadores como tendo consentido em fazer o seu trabalho. As pessoas que participam da produção de conteúdo de mídia ou qualquer outro produto, consentem em trabalhar em tais empresas. E daí? A crítica não é sobre os trabalhadores, mas sobre os proprietários e estrutura.

Olhe para a maior estrela da indústria Jenna Jameson, que parece controlar a sua vida empresarial. No entanto, em seu livro, ela relata que foi estuprada na adolescência e descreve as maneiras pelas quais os homens que passavam por sua vida a cafetinavam. Seu desespero por dinheiro também vem à tona quando ela tentava conseguir um emprego como stripper, mas parecia muito jovem _ela entrou num banheiro e tirou o aparelho dos dentes com um alicate. Ela também descreve o abuso de drogas e lamenta os muitos amigos na indústria que perdeu para as drogas. E esta é a mulher que se diz a mais poderosa da indústria.

Entendemos que numa análise da esquerda, o foco não está nas decisões individuais sobre como sobreviver em um sistema que transforma tudo em mercadoria e retira-nos oportunidades significativas para controlar nossas vidas. É sobre a luta contra um sistema.

 Racismo

Como as formas mais gritantes e repelentes de racismo desapareceram da mídia, a esquerda tem salientado que as formas sutis sustentam o racismo, e que sua constante reprodução através da mídia é um problema. Raça importa e representações raciais da mídia, importam.

A pornografia é o único gênero de mídia em que o racismo declarado é aceitável.  Não é racismo sutil, codificado, mas o antiquado racismo americano _representações estereotipadas do garanhão negro do sexo masculino, a animalesca mulher negra, a latina quente, a gueixa asiática recatada. Fornecedores  de pornografia tem uma categoria especial, “inter-racial”, que permite aos consumidores exercer várias combinações de características raciais e cenários racistas.

O racismo do setor é tão abrangente que passa despercebido. Numa entrevista com o produtor do DVD “Black Bros and Asian Ho’s”, um de nós perguntou se ele já foi criticado pelo racismo da tais filmes. Ele disse: “Não, eles são muito populares.” Repetimos a pergunta: “Popular sim, mas as pessoas nunca criticam o racismo?” Ele olhou incrédulo; a questão aparentemente nunca passou pela sua cabeça.

Num tour por lojas de material pornográfico fica claro que justiça racial não é central para a indústria. É típica a declaração em filmes do tipo “Black Attack Gang Bang”: “Minha missão é encontrar lindas bonequinhas brancas para serem metidas com força  por alguns grandes e duros paus negros .” Seria interessante ver esquerdistas pró-pornografia argumentando para um público não-branco que estes filmes não estão relacionados com a política de raça e supremacia branca.

O mercado de produtores como Vivid utilizam principalmente mulheres brancas, o rosto oficial da pornografia é predominantemente branco. No entanto, paralelamente a este gênero existe um material mais agressivo em que as mulheres negras aparecem com mais freqüência. Como uma mulher negra na indústria nos disse: “Este é um negócio racista”, de como ela é tratada pelos produtores no dia-a-dia recebendo pagamento diferenciado nas negociações que ela tem no set.

Sexismo

O mercado de massa contemporâneo da pornografia heterossexual _ a maior parte de mercado de material sexualmente explícito _ é um local onde um significado particular de sexo e gênero é criado e distribuído. A mensagem central da pornografia não é difícil de discernir: mulheres existem para o prazer sexual dos homens, de qualquer forma que os homens quiserem o prazer, não importando as conseqüências para as mulheres. Não se trata apenas das mulheres existirem para o sexo, mas elas existem para o sexo que os homens querem.

Apesar de ingênuas (ou falsas) as alegações sobre a pornografia como um veículo para a liberação sexual das mulheres, a maior parte da pornografia de massa é extremamente sexista. A partir da linguagem ofensiva usada para descrever as mulheres, do  papel subordinado, à própria prática dos atos sexuais _pornografia é implacavelmente misógina. Como a indústria “amadurece” o mais popular gênero desses filmes _chamado “gonzo”, continua a empurrar os limites da degradação e crueldade para com as mulheres. Diretores reconhecem que não tem certeza até onde isso vai chegar a partir do nível atual.

Esta misoginia não é uma característica popular de alguns tipos de filmes, com base em três estudos sobre o conteúdo dos vídeos mainstreams/DVDs pornográficos dos últimos 10 anos, concluímos que o ódio à mulher é fundamental na pornografia contemporânea. Tire todos os vídeos em que uma mulher é chamada de vadia, puta, piranha ou prostituta, e as prateleiras estariam quase vazias. Tire todos os DVDs em que uma mulher se torna o alvo do desprezo de um homem e não sobraria muito com o que sair. Mercado de massa da pornografia não celebra as mulheres e sua sexualidade, mas manifesta o desprezo pelas mulheres e celebra o ponto de vista de expressar sexualmente esse desprezo.

Os de esquerda, normalmente rejeitam as análises biológicas deterministas para a desigualdade. Mas a história do sexo na pornografia é a história do determinismo biológico. O tema principal da pornografia é que as mulheres são diferentes dos homens e gostam de dor, humilhação, degradação, pois elas não merecem a mesma humanidade que os homens porque elas são um tipo diferente de seres. Na pornografia, não é apenas que elas queiram ser  fodidas de modo degradante, mas que elas necessitam.

Pornografia em última análise, conta historias sobre o lugar que pertence ás mulheres _abaixo dos homens.

A maioria da esquerda critica o patriarcado e rejeita o sistema de dominação masculina. Sexo é uma das arenas dessa luta contra a dominação e, portanto, uma arena de luta ideológica. Coloque a percepção da mídia junto com argumentos feministas sobre a igualdade sexual, e você terá um argumento antipornografia.

A necessidade de uma análise consistente do poder

Esquerdistas que de outra forma se orgulham dos sistemas de análise de estruturas do poder, se transformam em individualistas libertários extremistas quando o assunto é pornografia. O sofisticado pensamento crítico que subjaz a melhor das políticas da esquerda pode dar lugar a uma análise simplista, politicamente ingênua e diversionista que deixa a esquerda brincando de cheerleader para uma indústria exploradora. Nestes termos, não devemos analisar a ideologia da cultura e de como ela molda as percepções das pessoas sobre suas escolhas, e devemos ignorar as condições em que as pessoas vivem, pois tudo diz respeito a escolhas individuais.

Uma crítica da pornografia não implica que a liberdade enraizada na capacidade do indivíduo de escolher não é importante, mas argumenta ao contrário, que estas questões não podem ser reduzidas a esse momento de escolha de um indivíduo. Em vez disso, temos que perguntar:  O que é liberdade significativa dentro de um sistema capitalista que é racista e sexista?

Esquerdistas têm sempre desafiado  a argumentação dos poderosos de que a liberdade consiste em aceitar um lugar em uma hierarquia. As feministas têm destacado que um dos sistemas de poder que nos constrange é o gênero.

Defendemos que esquerdistas que tomam a sério o feminismo devem reconhecer que a pornografia, juntamente com outras formas de exploração sexual  _principalmente de mulheres, meninas e meninos, pelos homens _ no capitalismo é incompatível com um mundo em que pessoas comuns podem assumir o controle dos seus próprios destinos.

Essa é a promessa da esquerda, do feminismo, da teoria racial crítica, do humanismo radical – de todos os movimentos libertadores na história moderna.

Gail Dines is a professor of American Studies at Wheelock College in Boston. She can be reached at gdines@wheelock.edu.

Robert Jensen is a professor of journalism at the University of Texas at Austin. He can be reached at rjensen@uts.cc.utexas.edu.

They are co-authors with Ann Russo of Pornography: The Production and Consumption of Inequality. Both also are members of the interim organizing committee of the National Feminist Antipornography Movement.  For more information, contact feministantipornographymovement@yahoo.com  or go to http://feministantipornographymovement.org/

In http://www.hustlingtheleft.com/CRAPP_E_LIB/leftissue.html

Tradução Arttemia Arktos

Textos relacionados:

Pornografia e Prostituição – Uma breve história dos mecanismos de opressao dos machos

Pornografia – enciclopédia sexual dos machos

Publicidade e pornografia simbólica

Pornografia e capitalismo

Sexualidade humana e pornografia industrial

Pornografia é arte feminista? 

Liberdade sexual, pornografia e feminismo

A história de Linda Susan Boreman – de atriz pornõ a militante feminista

Devemos nos preocupar se a pornografia sequestrou nossa sexualidade?

Sim, pornografia é racista

Todo mundo tem problemas sexuais

O meu brainstorm da pornografia

O lado negro da pornografia

Myths of porn

Homens e meninos _ excerto de Pornografia, homens se apossando de mulheres

Pornografia celebra violência contra mulher

Pornografia torna o mundo mais violento

Efeitos da Pornografia

Manifesto antipornografia

Como as políticas do orgasmo sequestraram o movimento feminista

Chamada pelo fim da pornificação da sociedade

Combo sobre exploração sexual de mulheres na pornografia

O tal pornô feminino


“Duas convenções da pornografia leve e da pesada penetraram na cultura feminina. Uma “apenas” transforma em objeto o corpo feminino; a outra comete violência contra ele.”  Naomi Wolf

“Pornografia e agressão sexual: associações de representações violentas e não violentas de estupro e estupro propensão Todos os tipos de material pornográfico (soft core, hardcore, violento e estupro) foram correlacionados com o uso de coerção verbal e o uso de drogas e álcool para as mulheres sob coação ao ato sexual. Todos os tipos de pornografia foram correlacionados com o estupro. Aqueles que relataram exposição maior ao uso da pornografia violenta tinham seis vezes mais probabilidade de relatar ter estuprado do que aqueles no grupo de baixa exposição. Probabilidade de obrigar uma mulher a manter relações sexuais foi correlacionado com o uso da pornografia hard core, pornografia com violencia e uso da pornografia com estupro, mas não soft core. Probabilidade de estupro foi correlacionado com todos os tipos de uso da pornografia.” Boeringer, S.B. (1994). Pornography and sexual aggression: Associations of violent and nonviolent depictions with rape and rape proclivity. Deviant Behavior, 15, 289-304.

“As diretoras feministas colocam essa nova consumidora como alvo de seus filmes. Os enredos têm tramas mais complexas (algumas até com pretensões experimentais) em que os sentimentos das mulheres são levados em conta. Um exemplo, extraído do filme Five hot stories for her, da diretora Erika Lust: a mulher chega em casa e encontra o marido com outra, na cama. Em vez de terminar em ménage, como seria obrigatório num roteiro de pornô clássico, a cena toma outra direção. A mulher traída vai embora e procura sexo com outro homem. Há, nos filmes, muito sexo entre mulheres (há um mercado de lésbicas a ser atendido) e sexo entre homens, algo que excita as mulheres (a diretora Courtney Trouble se especializou em gays underground). Os homens são invariavelmente bonitos, em vez de truculentos. Se fosse possível resumir o movimento em um única imagem, seria algo como o seriado Sex and the city com sexo explícito. Com essas inovações, subverte-se a lógica da pornografia que deixava as feministas iradas. Elas acusavam os filmes feitos por homens de degradar a imagem da mulher e de incitar a violência sexual ao mostrar apenas a realização de fantasias masculinas: mulheres submissas que fingiam prazer e serviam de objeto sexual. Uma frase da americana Robin Morgan resume o ponto de vista das feministas sobre a pornografia tradicional: “A pornografia é a teoria, o estupro a prática”.

A invasão da indústria de entretenimento adulto [indústria de exploração sexual de pessoas pelo lucro ] pelo ponto de vista feminino começou quando pioneiras, como a americana Candida Royalle, decidiram mostrar suas ideias. No fim da década de 70, Candida, então atriz pornô que se dizia insultada pelos filmes que ela própria encenava, procurava empresas dispostas a colocar no mercado os filmes que ela planejava produzir, seguindo o que sua consciência mandava. Ela diz que sonhava com filmes que excitassem de verdade as mulheres: com uma história criativa, e não um pretexto simplista para os atores tirarem a roupa em menos de meio minuto: “Queria ver homens que parecessem ter cérebro, e não apenas um pênis ereto. E que se preocupassem em dar prazer às parceiras”. Ainda na década de 80, Candida conseguiu uma distribuidora, montou a própria produtora, a Femme Productions, e começou a fazer sucesso com filmes como Three daughters, que contava as descobertas sexuais de três irmãs.”

(…)”Na verdade, os filmes pornográficos surgiram quando as imagens em movimento foram criadas, com o propósito apenas de mostrar o que as prostitutas faziam, coisas que você nunca pediria à sua boa esposa. Mas eles continuaram assim por muitos anos. (…) Porque o objetivo é despertar as fantasias dos homens, não mostrar mulheres tendo prazer. E as fantasias dos homens e das mulheres são diferentes. A grande fantasia deles é entrar em um quarto e a mulher desejá-lo tanto que ela se ajoelha e lhe faz sexo oral. Para as mulheres, a fantasia é um homem muito romântico, que passa um bom tempo tentando seduzi-la.(…) Mas estou um pouco desapontada porque o trabalho de algumas mulheres que estão entrando no mundo dos filmes adultos não é assim tão diferente do pornô comum. Alguns desses filmes são um pouco grosseiros e muito explícitos. É difícil ver alguma diferença em relação aos pornôs comuns. E isso é muito irritante. Infelizmente, algumas pessoas acham que apenas colocar o nome de uma mulher como diretora torna o filme feminista. Candida Royalle, diretora de filmes pornos femininos

“Mas há algumas diretoras – cujos nomes eu não gostaria de citar – que estão fazendo de maneira exatamente igual ao que um homem faria. Elas copiam o que é feito na indústria principal.(…)Porque elas podem vender mais, é mais comercial. Eu não tenho problemas com mulheres que fazem isso. Acho que todo mundo é livre para fazer o tipo de filme que quiser ou que gostar. Mas não me venha mostrar cena de ejaculação no rosto de uma mulher e se chamar de “diretora feminista”. Afinal, não somos só empreendedoras que fazemos esses filmes por dinheiro. Estamos lutando por liberdade sexual. Há uma mensagem por trás dos filmes, essa é diferença entre as feministas de verdade e as outras diretoras.” Petra Joy, diretora de filmes pornos femininos

http://migre.me/3T6t4

“A exposição dos adolescentes a um ambiente de mídia sexualizada e suas noções de mulheres como objetos sexuais: A exposição a filmes de sexo explícito online foi significantemente relacionado com as crenças sobre as mulheres como objetos sexuais para ambos os sexos masculino e feminino 13-18 anos de idade, em pesquisa com adolescentes holandeses.” Peter, J. & Valkenburg, P. (2007). Adolescents’ exposure to a sexualized media environment and their notions of women as sex objects. Sex Roles, 56, 381–395.

 

“Não podemos usar as ferramentas do Senhor para desmantelar a casa do Senhor”. (Audre Lorde)

“…não acredito que o oprimido possa empregar a violência do opressor, ja q esta é construida em anos de história, na institucionalizaçao desta… creio que ela falava sobre assimilacionismo, sobre usar meios como pornografia, prostituiçao ou liberalismo para contrapor Patriarcado, reinventá-lo… ” Texto de Jan numa comunidade feminista do Orkut [e reinventá-lo, significa apenas que o patriarcado continuará existindo ]

Acho que a frase da Audre Lorde resume tudo o que penso sobre porno não-‘sexista’ ou narrativas sexuais ‘não-sexistas’ ou pornôs femininos ( me recuso a chamar isso de pornô “feminista” ).

As diretoras “feministas” criam seu material porno para o público feminino, mas ao mesmo tempo também se abre espaço para que mulheres produzam e dirijam filmes pornos mainstream exatamente como os homens fazem, querem e gostam. O tal porno ‘não-sexista’, ou “feminista”, ou feminino ou ‘narrativas sexuais não-sexistas’ corroborado por essas diretoras que reivindicam uma pornografia feminina, mas elas reconhecem que o mercado já tratou de providenciar mulheres para dirigirem filmes que não ficam nada a dever aos que já são produzidos. Não mudará nada. Pornos femininos ou ‘narrativas sexuais não-sexistas’ são apenas mais uma alternativa no mercado de exploração sexual das mulheres, queiram as diretoras reconhecer isso ou não.

Não considero a pornografia como algo além da burocratização das relações afetivo-sexuais das pessoas. Pornografia de qualquer modo, feita por quem for, é exploração e comercialização sexual de seres humanos. Mulheres fazendo pornografia para mulheres são falocratas pornocratas cafetinas de corpos femininos. Exploradoras e manipuladoras que copiam os modelos patriarcais de exploração sexual do corpo feminino e que demonstram não passar de nada além de capitalistas que resolveram lucrar com outras mulheres _ e ainda usam como desculpa o feminismo, como se o feminismo tivesse lutado para que o sexo fosse explorado como negócio _ exatamente como os homens vêm fazendo desde sempre na indústria de exploração sexual. Com a desculpa de que estão fazendo um porno diferente, estão nada mais nada menos, atendendo a um nicho do mercado, enquanto implícitamente apóiam todos os outros, pois continuarão as mulheres sendo usadas tanto em um como em outro.

Não aceito que uma mulher, ainda mais se denominando como “feminista”, venha dizer que está mudando os parâmetros pornos apenas porque coloca as mulheres fazendo sexo e dispensando alguns paradigmas comuns em pornos feitos pelos e para os homens. Tanto o porno feminino, quanto o mainstream, o soft, o bdsm são normatizações do sexo, exploração do sexo e exploração e venda de corpos humanos ( a prostituição de sempre ). As pessoas estão ali para serem ‘voyerizadas’, eu diria até vampirizadas, por todos aqueles que se envolvem na pornografia: os que patrocinam, os que dirigem, os que assistem.

Libertário, modificador, transmutador seria se questionar do porquê existir a pornografia dentro da cultura patriarcal, do porquê a sexualidade humana ter que ser aviltada e comercializada. Isso é querer mudar os paradigmas. Pegar o que já existe, aliviar na violência e na explicitação das imagens, não é libertador, aliás é o soft porn de sempre. É apenas reconhecer que o patriarcado capitalista misógino e sexista ganhou a batalha ( mas quem sabe, ainda não a guerra? ) e se adaptar ao que é inevitável ( o tal assimilacionismo ).

O pornô não deixou de ser pornô, porque algumas mulheres resolveram dirigir filmes. Pela descrição vemos que cada uma direcionou seu trabalho para um nicho de mercado dentro da indústria que vai do soft porn ao hardporn.

E o pior dessa história de porno feminino, é que existem aquelas que também fazem o porno nos moldes tradicionais e por isso, fica evidente que o pornô voltado paras as mulheres, não tem nada a acrescentar a não ser atender à demanda criada pela pornocracia falocrata capitalista. Sobre isso, o dono da Vivid, uma das maiores produtoras de vídeos pornográficos, sinalizou: “Fazemos pornos femininos porque as mulheres gostam de historinha, romance e nós damos isso a elas.”

Não há possibilidade de existir uma pornografia ‘não-sexista’, uma vez que se trata de prostituição ( sexo pago, pessoas pagam para que outras façam sexo e outras assistam ) de seres humanos e toda prostituição é exploração e sexismo. No meu entender, devemos tornar a pornografia desnecessária e deixar que as pessoas vivam sua sexualidade e afetividade entre si, na sua intimidade, sem copiar estereótipos ditados por preferências individuais dos que produzem e dirigem e dos capitalistas e baseadas em pressupostos  de massificação de comportamentos. A quem interessa essa massificação, essa manipulação da afetividade humana?

Quando deveríamos lutar pelo fim da prostituição, lutamos pela legalização?

Quando deveríamos lutar pela desnaturalização da pornografia, fazemos pornografia feminina?

Nosso modelo de pornografia, nosso modelo de prostituição?

Pagamos à uma mulher pelo seu corpo, para que faça sexo “didático”, faremos com que tenha orgasmos “verdadeiros” para diferenciar da pornografia mainstream?

Pagamos à uma mulher pelo seu corpo para que faça sexo, mas não seremos escatológicos como o porno maisntream. Não faremos aqueles closes, não pediremos que gritem de falso prazer, não faremos com que sejam xingadas e espancadas. Seremos mais clean, mais românticas!?

Pagamos a uma mulher para que faça sexo, mas lhe daremos uma “história”, um contexto, nada será gratuito, ela terá que fazer sexo, mas do jeito “verdadeiro”, e como sou eu que dirijo, é a minha visão, é do meu jeito, e não do jeito do homem: o jeito do homem, neste caso se resume a que ainda é venda e compra de sexo?  Mas comprar sexo e impor o seu jeito de fazer sexo, não é em última análise, o que o patriarcado vem fazendo conosco desde sempre?

Pagamos para que uma mulher faça sexo, exatamento como na prostituição exercida pelos homens, mas como somos nós, mulheres, as agenciadoras, as consumidoras, as empregadoras, a prostituição da nossa pornografia feminina é mais light, não-sexista, de mulher para mulher? Afinal, nós mulheres precisamos aprender o sexo. Somos o sexo, o personificamos.

Fazemos a “nossa” pornografia da prostituição legalizada do mercado de vídeos e damos nossa contribuição para o abastecimento desse mercado. Sexo é mercadoria. A mulher é mercadoria. Mas somos agora mercadoria e objeto segundo “nossos” termos, pois somos nós que produzimos a “nossa” pornografia ( I choose my choices ). Escolhemos ou assimilamos que é esse o nosso lugar e apenas o reproduzimos?

E o mercado, a indústria do sexo aprecia a nossa contribuição por atendermos um nicho desse mercado. Os homens agradecem, pois agora podem justificar tudo o que fizeram e continuarão fazendo na pornografia, porque nos engajamos nela: ‘Se as mulheres fazem, porque não nós?’ e ‘Se as mulheres gostam porque não podemos gostar do nosso jeito?’

Eu não me iludo com essa história de que essas mulheres estão “revolucionando” o mercado pornográfico por estarem filmando sexo explícito pelo “olhar feminino”. Onde está a solidariedade feminina dessas diretoras que se propõe a explorar sexualmente outras mulheres pelo lucro? Ser dirigida por uma mulher não torna a prostituição da pornografia menos prostituição. Muito pelo contrário, apenas quer dizer que pelo lucro algumas mulheres estão dizendo que se os homens exploram as mulheres de um jeito, elas agora estão dizendo como as mulheres podem continuar sendo exploradas. No final das contas nada mudou para a parcela feminina separada e sacrificada para que elas e os homens continuem lucrando com a sexualidade humana. E nós mulheres em geral, continuamos sendo tratadas como objeto e mercadoria.

Pornografia = prostituição = patriarcado = exploração = capitalismo = lucro

%d blogueiros gostam disto: