Os dilemas da mulher numa cultura patriarcal na visão de uma menina somali _ Mutilação Genital Feminina

– Virginia Lee Barnes, antropóloga americana, morreu em 1990, antes de terminar o trabalho que daria origem a Aman.
– Janice Boddy é professora-adjunta de Antropologia na Universidade de Toronto.

Seu primeiro livro, “Wombs and Alien Spirit” foi recomendado para o prêmio Governor General.

Capítulo 5 O dia da circuncisão de Aman

“…Convidaram todo mundo.Mataram um boi, duas cabras e um carneiro, e cozinharam a noite toda.

Na manhã seguinte mamãe foi tirar leite das vacas. Minhas tias e suas amigas haviam passado a noite em nossas casas, e tinham acordado cedo para fazer chá, café, e um grande café da manhã para para toda essa gente que haviam convidado.

Foi quando me acordaram. Estavam dando banho nas minhas primas e me mandaram tomar banho também. Perguntei por que e elas me perguntaram se eu também queria ser circuncidada. Eu disse sim, queria – todas as meninas da minha idade queriam, porque é uma vergonha não fazer – mas tinha medo. e além disso minha mãe não queria que fosse naquele dia.

Elas falaram comigo com jeitinho e me avisaram que seria feito quer eu gostasse ou não, portanto eu deveria ser boazinha, tomar meu banho e voltar…

…Disseram que não haveria dor e que tinhamos de ser boazinhas, e que nos dariam muito ouro e muito dinheiro, e que aquela que seria melhor ganharia mais. Você sabe, estavam nos enganando. Mas falavam principalmente para mim, porque eu seria a primeira – pois tinha 9 anos, era a mais velha. Então eu disse que estava tudo bem. Do lado de fora as mulheres e crianças estavam cantando e dançando.

A circuncisão é feita do lado de fora da casa, com muito canto e as mulheres batendo palmas, para que ninguém ouça os gritos.

Elas faziam “lululululululu” e cantavam o nome de meu pai e da minha linhagem, dizendo que eram os melhores.

Eu fiquei tão orgulhosa ao ouvir aquilo! Então eu disse a mim mesma: “é, por que não?”

Elas colocavam ouro e dinheiro sobre mim, e me levaram para fora, debaixo de uma das grandes árvore do quintal.

Havia uma mulher forte que segurava as garotas enquanto eram circuncidadas. Ela se sentava num banquinho baixo. Havia outra mulher bem alta, magra e negra, chamada Fátima, que fazia a circuncisão.

A mulher grande me agarrou pela mão e me segurou, e eu disse a ela: “você não precisa me segurar forte, não vou fugir”.

E ela disse: “ah, você é uma boa menina! Nunca vi uma como você. Você é uma grande garotinha, não é? É, sim. Tem certeza que não vai fugir?” Eu respondi: “tenho, e não vou chorar também, e você não vai me amarrar” – eu sabia que elas costumavam amarrar as pernas das meninas. Ela me fez sentar no chão, sobre um pouco de grama seca que tinha colocado ali. Disse-me para tirar o pano que vestia. Sentou-se no banquinho e abriu as pernas, colocando-me no chão com as costas viradas para ela e minhas pernas próximas ás dela. Normalmente ela amarraria as pernas da menina junto ás dela, e quando abrisse as pernas, as da menina se abririam também; além disso, seguraria os braços da menina para que ela não se movesse. Mas eu disse que não precisaria me amarrar, porque queria que todos tivessem orgulho de mim. Se me amarrasse, seria sinal de que eu estava com medo, e eu não queria que fosse assim. Ela confiou em mim, de verdade. Não me amarrou, mas prendeu minhas pernas com as suas e apenas me segurou, para que eu não pulasse.

Fiquei ali sentada e ela me disse o que iria acontecer. “não é nada demais; não dói tanto assim”, ela disse, e me pediu para ser forte como eu havia prometido: “não decepcione a sua família. Não decepcione a si mesma. Se chorar hoje, amanhã as crianças vão rir de você”. Eu repeti que não iria chorar, que seria forte. E fui.

Ela colocou um pequeno recipiente branco com cinzas de carvão na minha frente, entre as minhas pernas. E depois a outra mulher, Fátima – era uma mulher muito bonita – veio na minha direção. Disse-me o seu nome e o quanto estava calma. Falava comigo com delicadeza para que eu não sentisse dor. Disse que se eu fosse ruim, ela também poderia ser ruim – e enquanto falava comigo assim, tirava as facas e os outros instrumentos e os limpava. Depois pegou um pouco das cinzas entre o polegar e o indicador e começou a brincar com meu clitóris, puxando-o para que se tornasse maior, e continuava falando, e eu respondendo e fazendo perguntas – quando ela iria fazer aquilo? – e ela me respondia, embora estivesse mentindo. Depois de tudo pronto, ela me mandou fechar os olhos. Eu perguntei: “é só isso?” E ela disse: “é só isso, é só isso, não vai demorar nem um segundo. Feche os olhos. Quando você abrir, a dor e seu clitóris terão indo embora”. E eu disse: “está bem!”

Então ela pegou a faca – uma pequena faca, com um gancho na ponta. Puxou meu clitóris com mais força, e aí eu virei o rosto e disse para a outra mulher: “abrace-me forte”, e cerrei os dentes. Então, meu Deus, Rahima, tudo aconteceu. Meu corpo foi cortado num segundo, do jeito que Fátima havia dito. Eu pude ouvir um shhhh…como o som de que quando se corta carne. Foi assim que cortaram o meu corpo. Ela cortou tudo – não os grandes lábios, mas cortou o meu clitóris e os dois pequenos lábios, que eram haram (impuros); tudo foi cortado como se se tratasse de um simples pedaço de carne. Minha nossa, Rahima! Eu pensei que fosse morrer. Abri os olhos e olhei para baixo, e o sangue estava jorrando. Uma parte de onde ela havia retirado a carne sangrava muito, e a outra parte estava branca.

Rahima, meu Deus, aquilo era só o começo. Perguntei se havia terminado , e ela disse que não, que iria fazer de novo, e disse outra vez: “só vai levar um minuto”, e eu acreditei.

E todos que assistiam jogavam ouro e dinheiro sobre mim – nas minhas pernas, na cabeça – e cantavam.

Toda vez que eu queria chorar, olhava em volta para ver se alguém me ajudaria, mas só via sorrisos, então ficava constrangida, abria a boca e fingia rir, mas por dentro estava morrendo.

Ela cortou as bordas dos grandes lábios, e depois, com espinhos parecidos com agulhas, costurou sobre a vagina para fechá-las. Colocou sete espinhos, e cada vez que colocava um, ela o apertava com um fio. Ao terminar, colocou uma pasta negra para cessar o sangramento e apressar a cicatrização, e depois gema de ovo para refrescar. Embrulharam as minhas pernas com um pedaço de pano, do tornozelo aos quadrís, vestiram-me novamente e me carregaram para um quarto que tinham preparado para nós. O mesmo foi feito com as outras garotas.

Eu fiquei doente e tive febre. E quando urinava, parecia que ia morrer. Queimava como fogo, como álcool derramado sobre um ferimento aberto. A urina era quente, e eu gritava de dor. Elas tiveram de me cobrir; meus dentes batiam e meu corpo todo tremia quando minha mãe chegou.

…Os espinhos ficaram em mim por três dias, quando a mulher que fez a circuncisão voltou para retirá-los. Todo esse tempo as suas pernas ficam amarradas, mesmo quando vc urina. Você não toma muito líquido para não precisar urinar muito. Também não come quase nada, para não precisar fazer cocô; elas lhes dão apenas sopa de legumes e pão seco, porque querem que seu corpo fique seco rapidamente. Quanto mais líquido você bebe, mais faz xixi e mais o lugar da operação fica molhado, e elas querem evitar isso. Toda vez que você faz xixi arde muito, então elas jogam água morna com sal sobre os genitais enquanto você está fazendo xixi. O sal é desinfetante, e a água morna ameniza a dor. Depois que vc faz xixi, elas secam a ferida e levam você lá pra fora. Lá fora no daash, elas cavam um buraco no chão e enchem de carvão incandescente coberto com cinzas. Colocam incenso sobre ele e fazem você sentar sobre o buraco, apoiada numa mulher sentada num banquinho. A fumaça com o incenso faz você cheirar bem, e o calor faz o ferimento secar. Depos de fazer isso por três dias, de manhã, á tarde e todas as vezes que fizer xixi, você fica curada.

Quando a mulher que fez a operação volta para tirar os espinhos, ela examina a circuncisão para ver se o buraco ficou pequeno ou grande. Ela pega um palito do tamanho de um palito de dente e o introduz em você. Se o seu buraco fou muito mais largo do que um palito de dente – talvez porque você tenha feito xixi rápido demais – ela dá mais um ponto com espinho para fechar novamente. Se não, se o buraco estiver bom, você só descansa por mais sete dias com as pernas amarradas, porém um pouco mais soltas. Elas lhe dão uma bengala, então você anda devagar e senta devagar e deita com as pernas amarradas. Em seis ou sete dias você já está boa e pode ir aonde quiser.

Eu fiquei boa em sete dias, mas uma das meninas que foi circuncidada comigo – aquela que tinha quase a minha idade – teve de fazer tudo de novo, pois quando fez xixi pela primeira vez sentiu muita dor, e não fez mais xixi por três dias. Aí, quando a mulher veio para tirar os pontos, ela fez cocô e xixi tudo ao mesmo tempo, e isso fez o buraco abrir todo. Fátima teve de dar pontos de novo – a menina sofreu mais e teve de ficar em casa quase um mês.

O motivo de ás vezes se precisar dar aquele ponto extra é que, quando você se casa, seu marido pode saber se você é virgem. Se ele vir que você tem um buraco um pouco maior, vai pensar que você andou aprontando. Assim, as mulheres – sua mãe e as mulheres que fazem a circuncisão – têm de garantir que o seu buraco tenha o tamanho certo. É por isso que dão todos aqueles pontos e costuram tudo.

…Uma menina costurada não vai se divertir por aí, pois tem medo da dor e de que a família descubra quando a examinar – o que é feito todas as semanas.

Recebi por e-mail esse texto e não tenho o link. Mas é um relato impactante da violência, que ainda hoje muitas meninas sofrem no mundo, pelo simples fato de terem nascidos mulheres.

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